por Ana Cristina Sampaio Alves
A tábua rangeu sob seus pés na soleira tão cheia de folhas úmidas que formavam um tapete. Imaginou-se escorregando naquele chão velho, por isso tratou de pisar com cuidado. Experimentou a chave e a porta abriu facilmente. Respirando um ar de guardados, tateou procurando o interruptor. A luz da sala de visitas acendeu e, apesar da fraqueza da lâmpada, a penumbra lhe pareceu cair bem.
Deixou-se ficar ali parado, enquanto as emoções das lembranças lhe preenchiam os pensamentos, como naqueles filmes em que a cena da volta ao passado é antecedida por imagens balançantes. É estranho voltar ao lugar em que se viveu quando criança. Parece que antes tudo era maior, mais amplo. Uma ilusão de ótica de quem cresceu em tamanho.
Permitiu se deslumbrar com as pequenas descobertas do passado que ia encontrando enquanto circulava os aposentos. Rodeou a sala de visitas pegando em cada porta-retrato empoeirado. Toda a sua infância estava ali registrada. Seus pais gostavam de fotografar a família. Retratos com os avós junto à árvore de Natal, com os dois irmãos sentados num banco de praça, a mãe e ele no colo quando era bebê, os pais numa visita à praia de Santos.
Lembrou de quando se mudaram para aquela casa no campo. vinte e cinco anos, era longe de tudo. Hoje, a rodovia passa quase na porta. A cidade mais próxima se desenvolveu e muitas famílias deixam a capital buscando uma vida mais pacata na região. Mas na época da mudança tudo era muito diferente. Não havia escola por perto e ele e os irmãos ficaram um ano sem estudar até construírem o primeiro colégio no entorno, para onde iam de bicicleta.
Ao recordar o episódio, pensou como devia ter sido difícil para seus pais tomarem a decisão de tirar três filhos do colégio na capital para se enfurnarem numa casa tão longe de tudo. Mas o motivo, todos sabiam. O pai adoecera e era preciso levá-lo para um local sossegado, com ar puro, sem as tensões da cidade grande. Voltou a olhar a foto do pai, tão jovem e bonito. Em nada se assemelhava à pessoa que morrera poucos anos depois da mudança. Parece que o ar do campo não surtira efeito algum, embora o visse sempre muito calmo ouvindo seus discos, lendo livros de filosofia e cuidando da horta no quintal.
Ficaram órfãos muito cedo e, tão logo se recuperaram da tragédia, foram mandados pela mãe para estudar no colégio militar. Internos, por muito tempo só a viam nas férias, quando voltavam para o campo. Até hoje, não compreende como ela pôde sobreviver sozinha naquela casa. Queriam voltar, argumentavam que a ajudariam, mas ela queria vê-los formados militares de respeito. Ponto final. Até que faleceu, cinco anos atrás.
A casa ficou fechada durante esse tempo, ninguém queria desfazer-se de nada. Então ele decidira que era hora de vendê-la. Seguiu até os quartos e uma onda de nostalgia o invadia em cada passo. Abriu os armários e deu-se conta que nem as roupas da mãe haviam retirado. Achou malas e sacolas no maleiro e começou a colocar tudo em cima da cama. Ao deixar o armário vazio, deu de cara com um cofre. Nunca o vira, oculto que ficava por trás dos vestidos.
O cofre estava com a chave na fechadura, o que lhe fez imaginar que a mãe já não se importava em esconder o que havia nele. Abriu-o e encontrou um envelope com fotografias. Eram todas de seu pai com um amigo de infância. Eles o conheceram. Durante um tempo, ele vivera em sua casa, na capital, num quarto que ficava nos fundos. Quando se mudaram, nunca mais o viram.
Havia mais de trinta fotos ali e pareciam todas feitas numa só ocasião, numa máquina com tripé. Enquanto as passava uma a uma, sentiu o coração acelerar e o sangue pareceu fugir-lhe do rosto. As imagens mostravam dois homens alegres, em poses nas quais ora se abraçavam pela cintura, ora recostavam as cabeças, ora davam-se as mãos. Ficou um tempo a observar as cenas, entre atônito e incrédulo. Tentou buscar na memória o significado delas, mas lhe vinham lembranças apenas de uma grande amizade. Então, com um suspiro, cedeu ao entendimento.
Guardou as fotos no envelope, arrumou tudo vagarosamente dentro dos armários e decidiu partir. Sentia-se estranho. Olhou para a casa de sua infância e ela não lhe pareceu mais familiar. Pensou na mudança abrupta para o campo, na morte do pai - que definhou aos poucos, sem ninguém saber por que -, na carreira de militar que foi obrigado a seguir, na solidão em que a mãe se propôs a viver. De quem era mesmo aquele passado?
Antes de fechar a porta, deu uma última olhada nos porta-retratos da sala. Não reconheceu ninguém. O carro já seguia em alta velocidade quando ele pegou a chave da casa e, num gesto automático, a atirou pela janela.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.