por Branca Lopes Boson
Como se não bastasse tudo que anda acontecendo comigo, ainda por cima, esse frio. O canalha do El Niño! Não tenho dinheiro para esses casacos caros, quem sabe naquela loja cheirando a mofo da esquina. Não acredito que vou ter que gastar o que separei para o sapato. Mas vá lá! O sapato vai ter que aguentar mais um pouco. O que não posso é ficar doente. Preciso achar trabalho.
Quantas vezes passei na porta de lugares como este e me veio, como uma chispa elétrica percorrendo o corpo, o sentimento de asco ao imaginar o tipo de ser humano que precisa de roupas assim. Imagens que rejeito, supersticiosamente, com se visse um gato preto cruzando o caminho. Pena é uma emoção tão humilhante! Iguala as pessoas no que têm de pior. Tenho horror a provocar um afeto desses em alguém, até mais do que o de comprar um casaco usado. A que ponto cheguei.
Dou sorte de encontrar esse casaco camuflado do exército. Tão bom que posso até mesmo dizer que esteve sempre na família. E nem levei muito tempo para encontrá-lo em meio a tantas tristezas, o que me poupa aborrecimento. Como se já não me aborrecesse o suficiente ter perdido tudo. Bom que saio já com ele no corpo, e quem olhar vai pensar que entrei ali de curioso. E vou tomar um café por perto. Posso gastar o que economizei. Vai ver até um misto quente com ovo, que me resolve o jantar, se eu dormir mais cedo.
Na hora de pagar o lanche, percebo que estou tão incorporado na herança de meu antepassado militar que procuro no casaco o meu dinheiro. E parece que só para ajudar no meu engano, tateio um maço de papel em um bolso interno, que é igual às poucas notas que guardo bem dobradas. Só quando olho é que reconheço que nunca poderiam estar em um bolso de brechó as minhas notas. Mas o que é isso? Uma carta?
Desdobro com imenso enfado, pensando que teria que voltar à loja para devolver algo importante. Eram 2 folhas pautadas, amareladas, com uma caligrafia caprichada em esferográfica azul. E já começava com "Meu amor", o que me faz procurar por quem colocou aqueles papéis no casaco e agora está em algum canto esperando pela minha reação. Mas estou em um daquelas espeluncas onde tratam melhor os cães da rua do que as pessoas. Ninguém está interessado em mim.
Já era de se esperar que aquela lojinha mequetrefe não higienizasse direito as roupas antes de vendê-las. Decido que o que está dentro da roupa também é meu, pulo a introdução incômoda e continuo a leitura, curioso. E não tenho mesmo mais nada de bom a fazer. O que me custa ler uma carta?
Escrevo porque algumas despedidas exigem a dignidade das palavras, e as circunstâncias nos privaram da serenidade necessária para dizê-las face a face.
Sei que esta carta talvez lhe cause revolta. Com certeza, incompreensão. Já começo lhe chamando de "amor", o que ainda será por um bom tempo. Não é proposital. É apenas a verdade com a qual espero preencher este papel.
Procurei me convencer de que esse meu amor poderia florescer estando junto. Houve momentos em que acreditei mesmo nisso, mas aos poucos fui compreendendo que a vida ao seu lado exigia de mim um esforço, uma espécie de renúncia silenciosa à realidade.
Você sempre se mostrou um homem intenso, convicto, dono de opiniões firmes sobre si e sobre todos. Talvez seja justamente isso que tantas pessoas admiram em você, mas viver sob a sombra dessa força revelou-se mais difícil do que imaginei.
Pouco a pouco, percebi que meus desejos passaram a ocupar um espaço secundário. Minhas dúvidas tornaram-se inconvenientes. Meus sonhos pareciam sempre menores diante das suas certezas e da sua necessidade de ter razão.
Seria injusto responsabilizá-lo por ser quem é, mas também seria injusto comigo mesma continuar ignorando o quanto me afastei de mim para permanecer ao seu lado. E me conformar com o tipo de amor que me oferecia. Talvez você diga que jamais deixou de me demonstrar amor. E estaria correto.
A prisão mais eficiente não é construída com proibições, mas com expectativas. Hoje compreendo que permaneci nesta relação mais tempo do que deveria porque esperava mais de você. Foi um erro meu.
Por isso parto. Não porque você seja mau ou tenha falhado, mas porque já não consigo continuar sacrificando quem sou, e o que acredito merecer, para sustentar a esperança de sermos aquilo que eu espero.
Desejo sinceramente que um dia você encontre alguém capaz de compreender seus limites emocionais de uma forma que eu nunca consegui. Quanto a mim, preciso descobrir quem sou quando não estou tentando lutar para obter o que mereço.
Adeus.
Helena
Leio uma vez. Depois duas. Na terceira leitura, peço ao balconista uma caneta qualquer e começo a rabiscar comentários nas margens, sem me aguentar. "Quanta generosidade. Essa mulher o absolve da culpa de ser ele mesmo." "Limites emocionais. Como pode se achar capaz de definir até onde alguém pode sentir? " Deve ser uma filha da mãe de uma advogada, essa raça que acaba com a vida das pessoas por profissão.
Passo a imaginar o pobre dono deste casaco, que manteve dobrada a carta no bolso enquanto remoía a resposta. Não é possível que tenha ficado calado diante de tanta desonestidade! Bato a mão no balcão e o copo pula, fazendo barulho. O atendente bovino se assusta e me pede a caneta de volta. Será que está com medo de que eu o ataque com uma Bic?
Volto para casa segurando a carta dentro do bolso e pensando. Mais uma. Mais uma mulher explicando a própria covardia fazendo parecer maturidade. Mais uma fuga cuidadosamente embrulhada em palavras bonitas. Mais uma absolvição assinada pela própria ré. Não é mesmo, doutora de merda?
"A prisão mais eficiente não é construída com proibições, mas com expectativas." Só rindo. Quarenta anos de vida me ensinaram que frases assim não servem para explicar a realidade, mas para tornar aceitável aquilo que já está decidido. Vou para a cama pensando nela. Não na mulher. Na frase. Na arquitetura daquilo. A carta era uma obra de engenharia moral. Ninguém saía ferido o suficiente para justificar uma revolta, mas alguém saía condenado.
Na manhã seguinte, procuro o papel para ler outra vez, mais devagar. Não presto atenção no que Helena diz, mas no que ela evita dizer. Era interessante como falava longamente sobre o sofrimento dela, sobre as expectativas dela, sobre os limites e os sonhos dela, mas não havia um único exemplo concreto. Nenhum. Nenhuma cena ou conversa ou qualquer erro específico. Nada. Apenas conclusões, sentenças e vereditos. Como se o homem que recebesse aquela carta devesse aceitar uma pena sem saber, de modo claro, qual é a acusação. Como se fosse pura e cristalina para todos a sua culpa. É isso que me perturba. Reconheço o método.
Anos antes, recebi uma carta como essa, mas diferente. As palavras eram outras, a voz era outra, mas a sensação era idêntica. Eu fiquei sentado na beira da cama olhando para uma mensagem de celular e relendo cada frase, procurando um fato concreto ao qual pudesse responder. Qualquer coisa. Uma data. Uma discussão. Um gesto. Só encontrei abstrações como aquelas. "Você não me vê. Você não me compreende. Você não me escuta. "
Acusações assim, amplas, são impossíveis de contestar. Como alguém se defende de uma percepção? Se fizer isso, confirma que é verdadeira. Covardia! Passei anos tentando deixar para lá, e me convencendo que foi sem importância, apenas mais uma entre tantas decepções. Relacionamentos terminam, pessoas mentem para se sentirem melhores, o amor é mesmo uma negociação malfeita entre expectativas incompatíveis.
Eu me dou conta de que construí, tijolo por tijolo, o meu cinismo e a minha amargura em cima do meu silêncio. E agora uma mulher morta, desaparecida ou desconhecida surge de dentro de um casaco usado para reclamar o seu terreno. O que realmente me incomoda não é Helena. É a facilidade com que certas pessoas transformam a própria dor em uma verdade que tem a licença de abafar a dor do outro. A facilidade com que certas pessoas abandonam alguém e ainda esperam aplausos pela elegância da despedida.
Pela primeira vez em muito tempo sinto algo próximo da compaixão. Não por Helena, mas por aquele desconhecido que talvez tivesse passado semanas tentando descobrir o que exatamente fizera de tão imperdoável. Talvez tivesse procurado em si mesmo a culpa capaz de justificar o abandono até concluir que, no fim, quase tudo acaba da mesma maneira: alguém vai embora e reescreve a história para dormir em paz, e o que chamamos de amor é apenas o encontro provisório entre desejos que jamais caberiam um no outro.
E talvez ele nunca tivesse encontrado a sua culpa, porque algumas pessoas deixam apenas uma narrativa na qual elas são a parte sensata da história e tudo o mais se torna conjuntura. Sinto raiva, mas não aquela que virou hábito. Não aquela irritação cotidiana que dedico à estupidez humana em geral. Tem gosto de antigo, quase esquecido. Gosto de casquinha de ferida.
Fico olhando para aquele nome que não significava nada. Helena. Puxo uma folha em branco para organizar meus pensamentos, que estão começando a se perder. Penso em registrar uma observação e apontar a minha própria incoerência. Não estou escrevendo para Helena, mas para um corte que envelheceu esperando por curativo.
Meu caro desconhecido,
Encontrei sua carta por acidente. Ou talvez tenha sido ela que me encontrou. Estava esquecida no bolso de um casaco comprado por um homem que precisava evitar o frio e não queria reviver uma decepção. Li a carta e tive de preparar uma resposta. Por pura irritação. Há muito tempo (mais precisamente dois anos), que não encontrava uma obra-prima de transferência de responsabilidade.
Sua Helena escreve como uma juíza que redige a sentença chorando para parecer boazinha. Observe o seu talento. Ela não o acusa diretamente, mas descreve com detalhes um crime. Ela não o condena, mas declara a pena. Ela não aponta seus erros. Apenas transforma suas qualidades em defeitos que justificam a sua partida.
Você era convicto. Logo, anulava. Tinha expectativas. Logo, aprisionava. Uma verdadeira alquimia. Transformar chumbo em ouro é difícil. Transformar culpa em virtude parece ser bem mais simples.
O trecho mais impressionante é aquele em que ela admite ter permanecido na relação esperando que você mudasse. Ali está a única confissão verdadeira da carta. Mas veja a habilidade. A frase entra como responsabilidade e sai como desculpa. Ela errou, mas o erro dela, curiosamente, também acaba sendo culpa sua. É uma preciosidade. Nem todos conseguem fracassar e ainda assim receber a conta.
Talvez eu esteja sendo injusto. Talvez você fosse realmente insuportável. Talvez monopolizasse conversas e distribuísse opiniões como quem dá ordens para a tropa. Mas há algo nesta carta que me incomoda e é a ausência absoluta de risco moral para ela. Nenhuma falha verdadeiramente dela. Nenhum arrependimento concreto. Nenhuma vergonha. Apenas a confortável situação de quem parte convencida de que amadureceu enquanto o outro permaneceu estacionado.
É preciso desconfiar de pessoas que terminam relações assim. Todo amor fracassado produz escombros e quando alguém levanta do meio deles com as roupas limpas, provavelmente está mentindo. Ou para os outros, ou para si mesmo.
Talvez você tenha recebido esta carta e sofrido como eu. Talvez nunca a tenha recebido. Talvez tenha morrido sem saber que foi transformado no vilão da história dela. Não sei. Mas sei de uma coisa. Se existe justiça neste mundo, espero que em algum momento Helena tenha encontrado alguém tão maduro, tão evoluído e tão comprometido com a própria liberdade quanto ela. Porque nada castiga mais uma pessoa assim do que encontrar uma versão ainda mais perfeita de si mesma.
Atenciosamente,
Um homem que comprou um casaco usado.
Branca Boson é especialista em Comunicação, e sempre foi amante das ideias. Trabalha com mentoria em expressão, ghostwriting e redação. Caçula de pais professores e intelectuais, mãe da Letícia, uma bela médica em começo de carreira. Escreve para tirar o extraordinário do ordinário, provocar emoção em quem passa batido, fazer pensar e dar significado. Branca acredita que tudo tem história para contar, sejam produtos, empresas ou pessoas. E que o ser humano conta histórias para (sobre)viver, se relacionar e evoluir.