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Casarini

Casarini

por Ana Cristina Sampaio Alves

Casarini

Vestiu a jaqueta de couro comprada no Brás e olhou-se no espelho do quarto. Agora sim, estava pronto. Ao passar pela cozinha, o elogio do pai o fez esticar o corpo. Um gesto automático de quem se sente finalmente confiante.

Apesar das quatro conduções diárias, trabalhar na Casarini - Comércio de Motocicletas e Acessórios Ltda era motivo de orgulho para toda a família. Carteira assinada é registro. Estabilidade, futuro promissor. "Agora você é um homem trabalhador", disse o pai com voz grave. Buscou o documento no bolso, abriu na página do contrato de trabalho: admissão em 1º de fevereiro de 1980, salário três mil cruzeiros por mês. Fitou o motorista do ônibus com uma ponta de orgulho. Balconista.

Era dia de movimento. As Yamahas, Hondas e Suzukis brilhavam no salão. Rapazes em grupo circulavam entre as motos apreciando cada cilindrada. Discutiam potência, torque. Apontavam acessórios. Sentiu-se um deles com sua jaqueta de couro. Atrás do balcão, quase um altar, prateleiras envidraçadas exibiam luvas de couro, óculos retrô, manetes cromados e capacetes de edições especiais, os verdadeiros troféus. Seu território continha uma grande calculadora, a máquina de cartão de crédito, exemplares recentes da Duas Rodas, Motoshow e Motorcylist.

Os ombros se alinharam quase sem perceber, o queixo encontrou altura firme e a voz saiu mais grave do que jamais imaginara. Um simples "pois não?" lhe pareceu soar de dentro de uma caverna. A mão que apertou a outra não pediu validação. Era como ocupar mais espaço dentro do próprio corpo. Em pouco tempo, dominou o jargão: "Potência que impõe respeito", "Sinta o verdadeiro domínio das ruas", "Tecnologia japonesa agora no Brasil".

Viu as comissões aumentarem com as vendas diárias. O gerente observou sua postura ereta, o olhar atento ao cliente, o conhecimento cada vez maior de motores, consumo, custo de manutenção. Cada cheque assinado demonstrava acerto. Aquele era o futuro, a melhor escolha. Poderia manter para sempre gestos, forma de andar, timbre da voz, ombros rígidos, aperto de mão forte.

Mas em casa, a dúvida se insinuava. O pai lhe chamava "homem de verdade". Lampejos surgiam nos gestos, nos olhares demorados dos clientes, nas mãos firmes apoiadas no balcão. No primeiro mês, foi eleito o melhor vendedor da Casarini. A jovem vizinha começou a frequentar os jantares da família.  

Cada motor que acelerava lhe dava a certeza de ocupar aquele espaço. Era algo primitivo, que o mundo reconhecia antes de qualquer apresentação. Fortaleza inexpugnável. Esconderijo?

No mês seguinte recebeu o prêmio mais cobiçado da loja: ingressos para a área VIP do Campeonato Brasileiro de Motovelocidade, em Interlagos. Apertou um sem-número de mãos de clientes e colegas. O gerente citou-o como o vendedor mais competente que a Casarini já vira. O salão reluzia a cromados, espelhos, escapamentos. O ronco das motos era vibrante, preenchia todo o ambiente.

De repente, em meio a palmas, sorrisos, bordões, abraços regados a cerveja, entre capacetes e ferramentas, percebeu que esquecia o texto. Uma névoa cobriu-lhe os pensamentos, não sabia mais onde estava, era como acordar numa casa estranha.

Olhou em volta e não recordou o próprio nome, a própria história. Sorria e abraçava os colegas, mas seu corpo não era mais um endereço antigo. Onde era mesmo que morava? Quem apagara a legenda da própria existência?

No ônibus, de volta para casa, sacou do bolso da jaqueta de couro comprada no Brás a carteira de trabalho. Abriu-a na única página preenchida. Logo abaixo do carimbo da Casarini – Comércio de Motociclistas e Acessórios Ltda leu "data de saída: 31 de março de 1980". Observou o motorista, baixou o rosto. Desempregado. Respirou fundo e levantou o queixo. No vidro da janela, o próprio reflexo. A memória retornou de imediato.  

 

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.