por Bruna Dondé
Humano e gato chegaram na sala de espera da clínica veterinária e conseguiram uma das últimas cadeiras disponíveis. Miados e latidos incessantes. O gato caçava os dedos trêmulos do humano pela porta da caixinha de transporte, enquanto o humano tentava fazer carinho atrás das orelhas peludas.
O brinquedo recém comprado já estraçalhado. O humano aproximou o rosto do focinho.
— Eu não sei o que você quer...
— Miau! Miau! Miau! — com tapas rápidos na porta.
Diminuiu o tom de voz — Logo estaremos em casa, fica calmo.
— Miii-auuu! — inclinou a cabeça devagar e olhou para o humano.
— É fome? Eu sei que fazer jejum é chato, mas é pelo exame.
O gato deu as costas — Miá!
— Vai ser rápido.
Era hora de fazer o exame. O humano pegou a caixinha com as mãos firmes. Primeiro veio a máquina removedora de pelos e um miado intenso. A assistente recolheu os tufos. Depois chegou o gel gelado, um rosnado em resposta. Em seguida, o aparelho que mostrava tudo em tempo real no monitor, apertando a barriga. O gato torcia o corpo sem sucesso. O humano segurava com mais firmeza e acariciava a cabeça.
Humano e gato foram para o carro, incrédulos com o resultado do exame.
— Gases, gato, gases?
— Prrr... Miau! — deitado no banco do carona.
— Eu sei o que vai te ajudar!
Sem piscar, o gato levantou. Chegando em casa, saltou do carro. Correu em direção ao prato. Sentou e aguardou, ronronando.
Bruna Dondé escreve textos breves sobre memória, imaginação e os pequenos estranhamentos do cotidiano. É autora do livro "resquícios de uma vida inexistente" e formada em fotografia, atualmente aprofunda sua prática literária no Curso de Formação de Escritores. Entre rascunhos, leituras e a companhia de Cash e Christie, segue explorando histórias que transitam entre o íntimo e o inquietante.