por Rosane Rubinstein Pagliuca
Naquele dia eu não estava tentando nada, era uma aula qualquer de educação física na minha escola.
Isso é o que mais me intriga quando penso naquela manhã, a quadra de cimento, o sol já quente às nove horas, a fila de crianças esperando a vez. Eu era uma das mais baixinhas da turma e segurava a bola de basquete pela primeira vez. Não tinha técnica, não tinha experiência, não tinha nada. Tinha a bola, tinha a cesta lá no alto, e tinha alguma empolgação pelo desafio.
A bola entrou.
Entrou na segunda vez. Na terceira. Cada vez que a fila me devolvia ao começo, eu dobrava levemente os joelhos, soltava a bola de um jeito que não sei descrever, e ela sumia dentro da cesta com um barulho seco. As outras crianças pararam de conversar. Eu percebi o silêncio antes de entender o que tinha causado.
A professora disse "cestinha" com uma voz que eu nunca tinha ouvido dirigida a mim, e foi buscar o diretor, sr. Nilton.
Foi aí que algo mudou. Enquanto ela atravessava o pátio, eu fiquei parada no meio da quadra com a bola nos braços e todos me olhando, e senti pela primeira vez a diferença entre existir e ser vista. Até aquele momento eu estava brincando, solta dentro do movimento, sem me perguntar nada.
O diretor chegou, cruzou os braços, esperou.
Eu joguei de novo. A bola entrou.
Ele sorriu e disse alguma coisa que eu não ouvi direito porque estava ocupada demais com o que estava sentindo, uma espécie de orgulho, misturada com surpresa. Uma espécie de consciência de mim mesma que não existia um minuto antes. Ser encontrada fazendo algo bem muda tudo, inclusive o que você estava fazendo.
Nunca mais fui tão boa em basquete quanto naquela manhã em que não sabia que estava sendo boa em basquete.
Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.