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Chá da tarde na Muricy

Chá da tarde na Muricy

por Rachel Bueno

Chá da tarde na Muricy

Entre tantas coisas marcantes na história de Campinas, não posso deixar de lembrar da Muricy, a loja de departamentos, onde era possível encontrar quase tudo, além de serviços como cabeleireiro e restaurante.

Uma das pioneiras em instalar escadas rolantes, uma diversão à parte. Num tempo onde não havia shopping center, ela foi a precursora desse ambiente.

Possuía um pequeno chafariz no centro, com um espelho d'água. Correntes penduradas no teto podiam ser vistas bem de perto, escorrendo água direto para esse espelho, enquanto subíamos a escada rolante. Para os anos de 1980 era um luxo e podia ser apreciado por qualquer um ao entrar. Era democrática.

Toda semana íamos passear lá, após as aulas. Nós alunas do curso de magistério, da Escola Carlos Gomes, elegemos aquele espaço para desfilar, paquerar e bisbilhotar os produtos e preços. Nunca comprávamos nada. Faltava dinheiro, mas isso não era problema, a gerência não se opunha à nossa presença festiva, ajudávamos a compor o ambiente.

A Muricy foi instalada na alegre rua Treze de Maio com José Paulino. Ali foi construído um calçadão, onde somente pedestres podiam circular e foi batizado de Convívio da Catedral. Nome em referência à Catedral de Nossa Senhora da Conceição que, fica no início desse calçadão e termina na Estação Ferroviária.

A Rua Treze, como a chamávamos, era ladeada por comércio de todos os tipos e atendiam a todas as necessidades. Próximas à Muricy ficavam as lojas mais vistosas, ali era um setor comercial privilegiado, incluindo alguns charmosos quiosques de lanches e até uma floricultura.

Embora tudo fosse magnífico, o restaurante no último andar é merecedor de um capítulo na história da cidade.

Servia refeições, mas o ponto alto era o Chá da Tarde. Um tal chá completo, bem servido e nem tão caro. As estudantes frequentadoras do lugar aguardavam com ansiedade o dia de tomar o chá, após juntar dinheiro durante o mês. O local virava um salão de festas.

Lembro-me de, na saída do restaurante, haver um elevador para descer, pois as escadas rolantes terminavam no andar inferior. Na parede, ao lado, havia um grande painel com informações sobre o município, coisas como latitude, longitude, data de fundação, número de habitantes. Naquela época, segundo o censo do IBGE, a população campineira era em torno de 600 mil.

Até hoje, quando recordo o Chá da Tarde da Muricy, suspiro. Num desses chás, vivi uma das experiências mais românticas da minha juventude.

Dessa vez não estava com o grupo festivo de estudantes da Escola Carlos Gomes, mas acompanhando minha mãe e minha avó. Elas ainda não conheciam o tal Chá da Tarde. Era dezembro e a cidade se preparava para as festividades de Natal. As compras de fim de ano se iniciavam e o clima de magia tomava conta das ruas.

Por estar menos eufórica e mais concentrada na conversa com as duas, pude observar ali os detalhes com mais atenção.

De repente, algo inusitado aconteceu. Aproximou-se de nossa mesa uma menina de mais ou menos dez anos, com um buquê de rosas vermelhas para me entregar. Disse ter sido um moço quem mandou e, apontando para trás, denunciou o autor do galanteio.

O rapaz, meio sem jeito após ser descoberto, não teve outra escolha a não ser se aproximar e pedir que eu aceitasse sua homenagem. Muito surpresa, assim como todos, sorri e agradeci, disse-lhe meu nome e ele também se apresentou. E nos despedimos.

Exatamente isso, nos despedimos. Ele saiu e nós três ficamos ali tentando absorver tudo aquilo.

Já era início da noite e precisávamos também ir embora. Descemos pelas escadas rolantes, o estabelecimento cheio, eu com o buquê de rosas vermelhas, chamava a atenção e morrendo de vergonha. Todos aplaudiam conforme eu descia sem entender nada. Talvez pensassem se tratar de um pedido de casamento.

Lá embaixo, no térreo, o autor da homenagem assistia a tudo sorrindo. Quando cheguei e o procurei, ele tinha ido embora. Ao ganhar a rua fui abordada pela dona da floricultura, localizada no quiosque em frente à loja, sorrindo me perguntou se eu havia gostado do buquê preparado por ela.

Minha mãe e avó, ainda sob efeito do episódio, foram às compras natalinas, eu segui pelas ruas com meu encantamento em direção ao Terminal do Mercado para tomar ônibus e voltar para casa, chamando a atenção por onde passava. Ganhei até um assento, dentro do coletivo, a fim de não estragar as flores.

Hoje a loja Muricy não existe mais, foi substituída por outra que usa seus andares para manter uma nova loja de departamentos, sem a presença alegre das estudantes, sem o chafariz, sem o glamour e sem o Chá da Tarde.

Todas as vezes, ao passar por lá consigo ainda sentir seu perfume, mas me recuso a entrar e atestar não existir ali mais o encanto daqueles anos, assim como o charme e a elegância do Convívio da Catedral. Guardarei para sempre na memória o dia do meu conto de fadas, quando fui a princesa e a loja Muricy o meu castelo.

Rachel Bueno

Revisão: Maria Tereza Stefani
Foto: @memoriacampineira

Rachel Bueno

Rachel Bueno é professora aposentada, formada em Letras e Pedagogia, é mestre em História da Educação pela Unicamp.

Seu título de mestre foi obtido através da defesa de dissertação sobre o escritor Euclides da Cunha. Participa há mais de 45 anos da Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo como palestrante, semana que é dedicada a vida e obra do escritor Euclides da Cunha.

Entre crônicas e contos, publicou Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas e Por detrás da porta. No prelo, seu terceiro livro: uma autoficção destinada a mulheres com mais de 50 anos.

Também ministra oficinas de leitura e escrita para educadores e público em geral, além de trabalhar com leitura crítica e revisão de obras literárias.

A escritora tem participação assídua em Feiras Literárias e Bienais.