por Ana Cristina Sampaio Alves
A gritaria é grande na casa. Três irmãs adolescentes brigam pelo direito de usar um vestido na festa da escola no dia seguinte. O vestido é da mãe, que resolve acabar com a confusão. Ninguém vai usar essa roupa antes de mim, acabei de comprar, é meu direito e ponto final. E quem quiser que prepare a própria janta. Estou farta dessa bagunça o tempo todo.
Só que a única que não jantou ainda é Clara, a mais nova das três. Está faminta após um dia de treinos de futebol. Sou artilheira do time, tenho que jogar um campeonato que pode me render uma bolsa de estudos, tenho que brigar com minhas irmãs por uma roupa nova, tiro sempre as melhores notas, sou a mais popular. Não é justo que só eu não jante, quando sou eu a que mais tem fome aqui.
Todas vão para o andar de cima e Clara se vê sozinha na cozinha. Abre o armário e saca um pacote de miojo. Põe a panela com água no fogo. Elas me pagam, vou botar fogo no vestido, assim ninguém usa. Um sorriso no canto da boca, as bolinhas da fervura começam a brotar. Pensam que são melhores que eu? Tô cansada de ficar sem janta. Abre o pacote de miojo com força, alguns macarrões voam pelo chão. Não os cata.
Coloca tudo na água que ferve. Não tampa a panela para não derramar. Chega de bancar a boazinha. Chega de ser a mais legal, a melhor em tudo. Não fosse eu, esse time era uma bosta. Não dão a mínima se tô machucada, se meu corpo dói. Só querem que eu faça gol, que eu bata pênaltis. Bando de meninas frouxas. Sou eu que levo o time nas costas.
Mexe o miojo para não grudar, baixa o fogo. Mas até que eu gosto de ser especial. Me carregam nos ombros depois do jogo, tiram foto comigo no vestiário. Sem mim, a festa não começa.
Abre o pacote do molho e joga por cima, mexe o macarrão e apaga o fogo. Só que tô cheia dessa vida. Não tenho nem mãe pra me fazer a janta. Todo mundo come e eu fico aqui fazendo esse miojo de merda.
Clara não coloca o miojo no prato. Deixa a panela em cima do fogão, segue para o banheiro dos pais, abre a segunda gaveta da direita e encontra os comprimidos da mãe. Leva a caixa para o quarto e tranca a porta.
Alguém ouve sons vindos do seu quarto durante a noite, mas não se levanta. No dia seguinte, a mãe sai cedo para correr no condomínio. Quando retorna, vai até o fogão e vê a panela com o miojo grudado no fundo. Clara nem jantou. Não serve nem pra jogar no lixo a comida e lavar a louça. Essa rebeldia me cansa. E cadê ela que não desce pra tomar café?
As duas filhas descem a escada em direção à cozinha. A porta de Clara continua fechada. A mãe bate com força, gritando que não se atrasasse porque não faria café da manhã especial para ela. O pai, que passa todo o tempo no escritório, onde dorme muitas vezes para fugir das confusões femininas, é chamado a abrir a porta. Tá vendo? Clara não obedece a mais ninguém.
O silêncio no quarto de Clara começa a incomodar a família inteira. Todos passam a bater, chutar e berrar do lado de fora. Onde está a chave extra? Vou destrancar essa porta pra sempre, ela nunca mais vai ver a chave do quarto. Basta da desobediência dessa menina!
Com o rosto vermelho e louco por um café, o pai se joga contra a porta com toda a força e ela abre. No chão, com a cama ao lado intacta, está Clara, imóvel, olhos abertos. Chega de jantar miojo, fazer gols, bater pênaltis, tirar as notas mais altas, ser a alma da festa, rir o tempo todo, brigar por uma droga de vestido novo. Já deu!
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.