por Alexis Rodrigues de Almeida
Isabela saiu de casa naquela manhã de sexta-feira para o último dia de trabalho antes das férias. Iria para o nordeste com as duas filhas. Queria mostrar a elas a beleza exuberante das praias quentes de areias brancas.
Trabalhava como caixa em uma loja de variedades no centro da cidade. Precisava pegar dois ônibus para chegar ao trabalho.
Pela janela do ônibus ela costumava prestar atenção nas pessoas que andavam pelas ruas.
Naquela manhã percebeu um rapaz deitado na calçada de uma esquina a duas quadras de distância da loja onde ela trabalhava. Lembrou dos conterrâneos lá do nordeste. Sentiu pena do rapaz. Foram tantos que vieram antes dela e outros tantos que continuavam a chegar a cada dia em busca de uma nova vida. A cidade grande sempre transformava os imigrantes, é verdade, mas nem sempre era pra melhor.
Estava tão imersa nessas reflexões que por pouco não perdeu o local de descer.
* * *
O dia se arrastava naquele calorão e as horas quase não passavam. É hoje que vai dar 19h e não dá 18h, pensou ela.
— Boa tarde, senhor! — saudou Isabela por trás do balcão do caixa. Olhou para o relógio da parede. Era quase hora de sair.
— Boa tarde! — resmungou o rapaz, olhando para os lados.
— Em que posso ajudá-lo, senhor? — continuou ela, seguindo o script de atendimento.
— Isso é um assalto — sussurrou ele.
— Como disse, senhor?
— Ah, sua vadia, você ouviu o que eu disse. É um assalto! Põe logo o dinheiro nessa sacola.
— Calma, senhor. Eu vou fazer tudo o que o senhor disser, mas tenha calma. — Passou a recolher cada cédula e moeda que tinha na gaveta.
— Mais rápido, mulher.
— Estou indo o mais rápido que posso, senhor.
— Sua vagabunda! você chamou a polícia! — Gritou o assaltante ao ouvir as sirenes se aproximando. — Se eu morrer, você morre também.
Com um movimento rápido e preciso, o homem pulou o balcão em direção à mulher.
— Moço, eu não chamei ninguém. Você não vai morrer. Eu também não quero morrer.
— Cala a boca! — Gritou, segurando a atendente por trás, enquanto apontava o revólver para sua cabeça.
— É melhor você se entregar. Veja quantos policiais tem aqui.
— Tá pensando que eu sou cego, moça? — um fio de suor escorreu-lhe pelas têmporas.
— Ei, você aí, solte a moça, largue a arma e nada vai lhe acontecer — gritou um policial.
— Eu não quero morrer — choramingou o rapaz.
— Você não vai morrer. Ouviu o que o policial falou?
— Eu não acredito em polícia. — O braço retesou em volta do pescoço de Isabela, que fez uma careta de dor.
— Rapaz, não estrague sua vida. Solte a moça e vamos conversar.
— Se eu morrer você morre também, moça.
— Escute, como você se chama? — perguntou Isabela.
— Francisco, mas me chamam de Chico Cabrobó, porque eu sou lá de Cabrobó.
— Olha só, Chico, meu nome é Isabela. Eu tenho duas filhinhas que estão me esperando em casa. Você tem família?
— Só minha mãe. Coitada, tá doente.
— Você precisa ficar vivo para cuidar dela, Chico. — A frase terminou estrangulada com o novo aperto do braço em volta do seu pescoço.
— Eu não quero morrer.
— Você não vai morrer, Chi... — A última palavra foi encoberta por um estampido. O braço em volta do seu pescoço afrouxou.
Isabela caiu de joelhos ao lado do corpo inerte de Chico Cabrobó.
Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.