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Cicatrizes

Cicatrizes

por Giuseppe Caonetto

Cicatrizes

Ao menos você é escritor, não faltará histórias pra contar, disse ela enquanto tirava o automóvel da garagem. Aquelas palavras chegaram a meus ouvidos carregadas de ruídos, e ainda ressoam em minha mente. Deveria ter sido mais um encontro, de tantos outros, aquecidos por aquele transbordante sentimento, inexplicável ao tempo, senhor da razão, mas servo da paixão insana. Foi o último, interrompido pela filha que retornou mais cedo para casa, sem aviso. Ficou apenas o sabor do beijo, o último de nossas bocas. Depois da fuga pela porta da cozinha, com os cuidados de um agente da CIA ao fechar a porta do carro sem bater, percorreu-me o corpo a frieza de um ladrão, logo transferida para os suores a me denunciar. Desci do carro a duas quadras da sua casa, e permaneci parado no meio da rua, não acreditando nos fatos, com o olhar imóvel a acompanhar a imagem do veículo virando a esquina, na direção do colégio onde lecionava.

Nos conhecemos pelas redes sociais. Depois, uma conversa na biblioteca da faculdade. Meus olhos, na verdade, miraram os livros das prateleiras, fugindo da leitura daquele texto que jorrava pelas retinas que me fitavam. Vieram outros momentos, conversas por aplicativos, assuntos variados, um café no shopping, um encontro próximo à rodovia e o primeiro beijo para selar a clandestinidade. Iniciativa dela, sem direito a reação, senão entregar-me à boca que me buscava com sede. Seu sabor preencheu-me, não havia mais espaços em mim. Talvez esperasse, naquele dia, degustá-la. Mas voltei embriagado para casa.

As semanas que se seguiram, os meses que vieram, os dias vividos entre a primeira e última embriaguez, compõem hoje um tempo somente comparável a uma pausa musical. É como se a vida, naquele módulo, tivesse fugido para outra saudade, deixando-me livre para escrever um passado presente para sempre.

Vou me separar, ele saiu de casa, escreveu-me numa noite, sem se alongar. E tudo o que meu coração me disse, embebecido pelo amor que sequer havia cantarolado, se transfere para páginas e páginas de um manuscrito comestível, como se a existência da vida dependesse unicamente do pronunciamento das palavras surdas, servido na mesa do café. Confusão.

O que houve? Como assim? Por que? O que vai fazer? E nós? Perguntas que deveriam ter mastigadas, mascadas, engolidas sem ruminar. Ali, hoje sei, em cada ponto de interrogação está a curva da minha insensatez, que me fez perdê-la para sempre. Nossa condição de vida não nos permitia, naquele momento, a revogação dos sigilos. Mas foi neste segredo que ela buscou o colo por tantas vezes oferecido, agora ocupado pelo medo.

Naquela noite, quando retornava para meu veículo, estacionado próximo à casa, olhei para seu jardim, o portão de entrada, as luzes acesas, vida habitando a sala, e a sensação de nunca mais.

Hoje realizo seu pedido. Ao transcrever cicatrizes, sinto-me escritor e componho este texto para seus olhos, ainda que ela, neste momento, imite meu gesto e mire seu olhar em outro livro, de outra prateleira, outra biblioteca.

Giuseppe Caonetto

www.giuseppecaonetto.com.br

GIUSEPPE CAONETTO (1962), natural de Paranavaí (PR). Editor, poeta e escritor. Licenciado em Letras (Fafipa/Unespar, 1989). Especialista em Língua Portuguesa (Fafipa/Unespar, 1992). Bacharel em Direito (Fundinopi/UENP, 1997). Concluiu o Curso Livre de Formação de Escritores (Metamorfose, 2022) e o Curso Livre de Preparação de Escritores coordenado pelo Centro de Apoio ao Escritor da Casa das Rosas (CLIPE 2023). Ingressou por concurso no Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região em agosto de 1986, permanecendo na Justiça do Trabalho até julho de 2023. Exerceu o cargo de Diretor de Secretaria nas Varas do Trabalho de Jacarezinho, Loanda e Paranavaí. Foi membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí. Publicou: Santo Rosário: um tesouro mariano (Vozes, 2010); Para que os olhos falem: poemas ternos (poesia, edição do autor, 2012; Doarte Edições, 2023, eBook); Doarte (poesia, EGP, 2016; Doarte Edições, 2023, eBook); Trilhas sazonais: versos liturgos, em coautoria com Lilia Souza (poesia, Sarau das Letras, 2020); O livro do amor: o amor diluído em trinta poemas (poesia, Doarte Edições, 2023, impresso e ebook); Nasci em 62: sessenta e dois sonetos e um sonetilho (poesia, Doarte Edições, 2024, impresso e ebook) e tantum: tanto apenas (poesia, Doarte Edições, 2025, impresso e ebook). Participou como coautor e organizador da obra Vara do Trabalho de Paranavaí: 18 anos de história (TRT PR, 2004). Participou das seguintes obras coletivas: Poetrix 2 (MIP, 2007); Poetrix 5 (Scortecci, 2017); Poetrix 6 (Rumo Editorial, 2019); 1ª Coletânea Literária de Paranavaí (ALAP, 2012); Prêmio CNNP (Vivara, 2015); 1001 Poetas (Casa Brasileira de Livros, 2022) e TikTextos (Metamorfose, 2022). Premiado no 54º FEMUP - Festival de Música e Poesia de Paranavaí (2019). Fundou em julho de 2023 a Doarte Edições. No mesmo ano, ingressou no Centro de Letras do Paraná.