por João Vitor Lucio Carvalho
Maurício acordou. Trabalhou. Almoçou. Chegou em casa. Jantou. Assistiu à televisão. E dormiu.
Maurício acordou. Trabalhou. Almoçou. Chegou em casa. Jantou. Assistiu à televisão. E dormiu.
Maurício acordou. Trabalhou. Almoçou. Chegou em casa. Jantou. Assistiu à televisão. E dormiu.
A grama roçava-lhe os pés. O calor no rosto trazia de volta o mesmo sol das manhãs de infância, quando a rua era o seu mundo todo. Sobre o mar de verde, uma casinha de brinquedo se erguia, que descia um escorregador de tubo até o solo.
Risadas infantis brincavam em seus ouvidos. Conforme Maurício curvou-se em direção ao buraco do escorregador, os risos ganharam força. Mas não havia criança alguma lá dentro.
— Perdido?
As risadas morreram.
A voz era lenta, marcada por longas pausas entre as sílabas. Mas não tinha som, como se seus pensamentos ecoassem por contra própria.
— No alto. Aqui. Em cima.
Um arco-íris riscava o céu com cores que pareciam pintadas à giz de cera. A curva terminava na figura de um olho envolto por uma névoa escura. A pupila cravada em Maurício.
O homem sentiu sua respiração acelerar. Ensaiou alguns passos para trás, mas as pernas fraquejaram.
— Não precisa. Se assustar — disse a figura. — Você está. Em casa. Agora.
— Como você faz isso?
Maurício pressionou a cabeça com as mãos, na tentativa de esmagar os próprios pensamentos. Mas quanto mais tensionava os músculos, menos o próprio corpo respondia.
— Pelo amor de Deus! O que é isso?
— Isso? — O olho estreitou, acentuando os ângulos. — É onde tudo é. Como deveria ser.
Sombras de criança brotaram da grama. Em um piscar de olhos, estavam espalhadas pelo campo: escalando a casinha de brinquedo, correndo pelo parquinho. Ao fechar os olhos outra vez, os vultos haviam desaparecido.
— O quê? Para onde foram?
O olho se moveu devagar, ajustando a pupila até apontar para o tubo do escorregador.
— O que tem lá dentro?
— Aquilo. O que você. Procura.
O homem se curvou, espreitando através da penumbra do tubo. A entrada pareceu se alargar, como se o convidasse. Tomado pela curiosidade, Maurício se agachou e mergulhou na escuridão, avançando encolhido entre as paredes do brinquedo.
O ar se tornava mais escasso a cada centímetro e, de repente, aquele tubo parecia muito maior do que quando visto pelo lado de fora.
Os pulmões esvaziaram, os braços ameaçaram desistir. Até que um feixe de luz o alcançou. Seu corpo foi ao chão, caindo de joelhos sobre a grama. Um campo salpicado de flores coloridas se abria em sua frente.
Levantou-se. De longe, avistou um orelhão solitário entre as pétalas. O telefone tocava. O som mais alto a cada passo.
Ao chegar perto o suficiente para alcançar o gancho, sentiu seus tímpanos retraírem com uma pontada na cabeça e acordou com o barulho do despertador. De volta à sua cama.
Maurício acordou. Trabalhou. Almoçou. Chegou em casa. Jantou. E dormiu.
Paredes de armários escolares se estendiam no corredor; o fundo, perdido em uma névoa esbranquiçada que parecia esconder algo que lembrava o formato de um olho.
Maurício começou a andar. Seus passos estalavam pelo ambiente, seguindo cada vez mais e mais fundo, como se o lugar não tivesse fim. Então, parou.
Um cheiro de produto químico engoliu o corredor. Trazia engatado as memórias do rodo esfolando o chão — perseguindo uma mancha sem parar, cada vez mais e mais rápido, até se esquecer do que procurava; um chiclete grudado entre o rejunte ou o vômito seco de um aluno.
Maurício apertou o passo. O cheiro continuava a persegui-lo. Desatou a correr, sem nem olhar para os lados.
— É você, não é? Só pode ser você que está fazendo isso comigo! — gritou, quase sem ar, asfixiado pelo cheiro que travava seus pulmões.
Até que sua testa trombou em algo. Era uma porta, no final do corredor. As carteiras ainda faziam parte da sala. Pela janela, o sol se despedia no horizonte, tingindo o cômodo em roxo. Desenhos oscilavam em um varal preso à parede com um vento que vinha do corredor e trazia consigo o aroma de bolacha esquecida no pacote desde cedo.
O cheiro fez Maurício se lembrar de que estava atrasado para o recreio. O estômago roncava, um rugido que fazia seu corpo tremer.
Maurício acordou. Estava de volta à sua cama.
Maurício acordou. Trabalhou. Almoçou. Chegou em casa. E dormiu.
Sob o tom amarelado dos postes, a rua ganhava um ar silencioso de foto antiga. Casas se enfileiravam a perder de vista. Cada uma com seu próprio tom, sem nunca repetir uma cor.
Maurício andava entre elas, observando cada detalhe daquela vizinhança. As caixas de correio vazias. A ausência completa de móveis dentro das casas. O silêncio que fazia o ouvido zumbir.
Tentou apertar a campainha de uma das casas. Bater palma em outra. Chegou até a sacudir alguns portões, como fazia quando era moleque.
Ninguém o respondia.
— Pelo visto, você gostou. Já é a. Terceira vez.
O olho fez do céu sua órbita; a pupila perdida em meio a esclera, que brilhava como a própria Lua.
— Você — exclamou o homem. — Só pode ser você que tá fazendo isso comigo!
— Quem faz isso. É si mesmo. A própria vontade. Você quer estar. Aqui.
Com as duas mãos, Maurício tampou os ouvidos, mas a voz persistia. Dentro de si.
— Não precisa fingir. Que odeia esse lugar. Eu sei.
Maurício correu até o próximo quarteirão tentando fugir da voz, escapar de si mesmo. Não adiantou.
— Para! Isso nem é real!
— Não precisa ser. Você acorda. Trabalha. Chega em casa. Janta. Assiste à televisão. E dorme.
Maurício gritava, mas a única resposta que obtia era o eco seco da própria voz, que golpeava as casas e retornava aos seus ouvidos.
— Então você repete. De novo. De novo. E de novo. Aqui você não precisa. Fazer isso.
— Então o que eu faria?
Mauricio parou, os braços largados ao lado do corpo. O olho se comprimiu no formato de um sorriso
— O que você quiser.
Maurício acordou antes do despertador tocar.
Maurício levantou. Trabalhou. Chegou em casa. E dormiu.
Maurício levantou. E dormiu.
Maurício nunca mais acordou.

João Vitor sempre demonstrou interesse por atividades criativas, participando de aulas de desenho e oficinas de teatro na infância. Foi, porém, na adolescência que descobriu seu interesse pela literatura. A partir de então, passou a escrever com maior frequência, explorando diferentes gêneros e desenvolvendo uma identidade própria como autor. Após concluir a escola, manteve a escrita como uma prática constante, buscando aprimorar suas habilidades e ampliar seu repertório literário. Entre seus principais interesses estão os contos, especialmente aqueles que exploram a complexidade psicológica dos personagens e seus conflitos internos.