por Tainá Rios
No ritmo frenético da produção de conteúdo contemporânea, a criatividade muitas vezes é tratada como um recurso de prateleira: algo que se retira sob demanda, instantaneamente, para satisfazer as métricas de engajamento. No entanto, para a publicitária, palestrante e especialista em processos criativos Michele Rocha (foto), o caminho para uma entrega que realmente faça a diferença é mais longo, profundo e, acima de tudo, humano. Em uma conversa que transita entre a técnica e a intuição, ela desmistifica a ideia de que criar é um dom reservado a poucos ou um evento aleatório da mente.
Durante séculos, a humanidade alimentou o mito da musa inspiradora. Acreditava-se que a ideia brilhante surgia de uma inspiração repentina, quase mágica, sem esforço prévio. Michele rompe com essa visão ao ancorar a criatividade em pilares mais sólidos. Ela aponta que a ciência já comprova a influência direta de fatores externos na nossa capacidade de gerar o novo, como por exemplo, a cultura, o ambiente e a motivação intrínseca.
Para a especialista, a criatividade não nasce do vazio, pois nasce do processo de estímulo constante. Quando paramos de esperar pelo "raio da inspiração" e passamos a entender que a criatividade pode ser treinada e alimentada, ganhamos autonomia sobre nossa própria produção intelectual.
A construção da criatividade
Se a criatividade não vem do nada, de onde ela surge? A resposta de Michele é clara: do repertório. Ela descreve o processo criativo como uma "colcha de retalhos". Cada filme assistido, cada página de literatura lida e até as conversas mais despretensiosas em uma mesa de bar tornam-se matéria-prima. "Consumir conteúdos diferentes, arte, literatura e conversar com pessoas diversas, faz com que tenhamos capacidade de fazer muitas conexões interessantes e por consequência, termos boas ideias", explica.
E como colocar esse repertório em prática? Por meio dos três pilares abaixo:
Diversidade de estímulos: Consumir conteúdos fora da nossa bolha habitual que permite o cérebro realizar "conexões interessantes".
Transversalidade: É a capacidade de ligar uma referência artística a um problema de marketing; isso diferencia uma boa ideia de uma execução comum.
Alimentação Contínua: Um repertório "preenchido" funciona como uma reserva de emergência para os momentos em que a mente parece estagnada; quando a página em branco permanecer, alimente sua mente com outros tipos de escrita.
Um dos maiores desafios discutidos por Michele é a sobrevivência da originalidade frente às limitações do mercado atual. Com caracteres limitados e prazos que não permitem o ócio, muitos profissionais acabam caindo na armadilha da repetição.
Michele observa que as redes sociais estão se tornando um espelho de "coisas muito iguais". A pressão para agradar o algoritmo, segundo ela, é um fator crítico que padroniza a estética e o pensamento. "É possível termos boas ideias concebidas em pouco tempo, mas acredito muito em pesquisa e referências. Quanto à originalidade, além dos prazos, vejo que estamos fazendo coisas muito iguais, principalmente nas redes sociais. Talvez a tentativa de agradar o algoritmo seja um fator que devemos observar", defende. Embora admita que a pressão é uma realidade frequente no cotidiano publicitário, ela reforça que a pesquisa prévia é o único antídoto contra o esgotamento criativo.
Ao ser questionada sobre como ser mais criativo nos próximos anos, a provocação de Michele é um retorno ao essencial: observar o mundo. Em um mercado cercado por "caixas" e restrições, romper essas barreiras exige que o criativo saia da frente da tela e volte a ser um observador da vida real.
A originalidade, portanto, não é sobre ser inédito no sentido literal, mas sobre a autenticidade das conexões que fazemos. Ao final desta reflexão, fica o convite para que cada profissional comece a enxergar seu dia a dia não como uma sucessão de tarefas, mas como uma constante coleta de dados sensoriais e intelectuais, prontos para serem transformados em estratégia e arte.
Tainá Rios é jornalista, formanda do curso de Formação de Escritores da Metamorfose e produtora de conteúdo digital. Atiua como podcaster do Me Conta Sua História?, onde compartilha histórias de personagens reais. Escreve crônicas sobre o cotidiano e memórias. Suas e daqueles que acompanham sua trajetória.