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Como escrever em tempos de crises e catástrofes

Como escrever em tempos de crises e catástrofes

por Tainá Rios

Como escrever em tempos de crises e catástrofes

A crônica sempre foi o gênero do "agora". Diferente do romance, que exige fôlego, ou do conto, que exige um recorte dramático preciso, a crônica é o café tomado na pressa observando a rua. No entanto, esse "agora" tem um cenário diferente. Vivemos em um mundo pós-emergência sanitária global e em meio a uma crise climática que não é mais uma previsão, mas uma realidade cotidiana. Nosso país já registrou 2° acima da média mundial em dois anos seguidos (2023 e 2025).

Enquanto vivemos um verão sul-americano acima dos 38°, algumas cidades dos EUA registram temperaturas abaixo de 20°. Diante desse cenário, me questiono: para ser um cronista relevante hoje, é preciso aprender a olhar para o micro (o seu sentimento) sem ignorar o macro (o estado do planeta)?

A pandemia de COVID-19 não foi apenas um evento médico; foi uma fratura na nossa percepção de tempo e presença. Conhecemos o "Novo Normal" com picos de epidemias de gripes, onde o cronista observa a mudança das relações, pois o isolamento social gerou uma fome de toque, mas também uma fobia social latente. E trouxe a ansiedade para o centro das discussões em salas de aula e das residências.

Entre as minhas pesquisas de referências para este artigo encontrei um exercício de escrita que pedia para observarmos uma cena além da imagem captada por uma câmera. O que será que conseguimos enxergar? Entre as explicações está a seguinte frase: "tente descrever o cheiro do ambiente, o peso do silêncio, o tique nervoso de alguém que esqueceu como é conversar sem o botão de 'mudo'.".

Pesquisadores afirmam que o uso de redes sociais aumentou exponencialmente desde 2020. Será que o uso excessivo de telas está afetando nossa observação? Estamos olhando para a vida ou para as telas?

A Emergência Climática se tornou um assunto moderno muito falado diariamente. E quando afirmo isso digo que está nas filas de cinema, na conversa rápida do elevador e antes de acessar o caixa rápido do supermercado. Não se pode mais escrever sobre uma "chuva de verão" sem considerar que essa chuva pode ser o resultado de um desequilíbrio sistêmico. Segundo o observatório Copernicus, o nível do mar está subindo e as estações do ano parecem ter perdido a bússola. Lembra do verão quente e do inverno congelante dos parágrafos acima?

Em uma entrevista para um podcast, a jornalista e assessora de imprensa, Raphaela Flores, abordou o projeto "Diários da Enchente". Criado a partir da catástrofe climática que ocorreu em maio de 2024 no Rio Grande do Sul, o blog reuniu centenas de crônicas que compartilhavam relatos e vivências sobre a chegada da água, a falta dela, os lutos e as inúmeras consequências da crise climática não anunciada. Os textos do blog viraram histórias para o futuro.

 

Diferente das crônicas clássicas de Rubem Braga ou Nelson Rodrigues, o leitor moderno tem pressa e uma atenção fragmentada. E para falar de temas pesados, como por exemplo, pandemias e desastres climáticos, nós, cronistas, precisamos da leveza. Se o texto for apenas estatística, vira artigo de opinião. Se for apenas poesia, vira devaneio. Escrever crônicas relevantes hoje é um ato de resistência e de registro histórico. Ao falar da sua pequena angústia com o calor ou da saudade de um mundo pré-máscaras, você está documentando a alma humana em um dos seus períodos mais complexos.

Escrever hoje é, acima de tudo, um ato de registrar o nosso tempo para que o futuro entenda como o mundo que conhecemos se transformou. Ao unir a observação sensível com a consciência dos dados climáticos e sociais, nossas crônicas deixam de ser apenas um texto e passam a ser um documento histórico e humano.

Diante de tudo que pesquisei e apresentei neste artigo, consegui compilar alguns itens para deixar uma crônica relevante em tempos modernos. Entre as sugestões estão: a ausência de pessoas e da natureza também virou uma personagem dos textos. Não podemos esquecer de criar uma ponte de empatia com o leitor. O texto crônico pode trazer dados científicos para exemplificar o impacto no bem-estar das pessoas se ele não deixar de falar do sentimento que era escutar um pássaro cantando ao amanhecer. Tenhamos em mente o nosso papel político como escritores, a crônica moderna permite misturar política, economia e subjetividade em um só texto. Sejamos honestos com o nosso cansaço de tanta informação e mudanças repentinas.

Por fim, precisamos aceitar que algoritmo nos entrega o que queremos ver, enquanto a crônica nasce do inesperado, ou seja, daquilo que não esperamos vivenciar.

Tainá Rios

Tainá Rios é jornalista, formanda do curso de Formação de Escritores da Metamorfose e produtora de conteúdo digital. Atiua como podcaster do Me Conta Sua História?, onde compartilha histórias de personagens reais. Escreve crônicas sobre o cotidiano e memórias. Suas e daqueles que acompanham sua trajetória.