por Carol Canabarro
Escrever é expor-se. E quando o outro olha, raramente se limita a observar: ele analisa, avalia e, quase sempre, critica. Crenças, valores, pensamentos mais íntimos são dissecados, às vezes, por mãos hábeis, em outras nem tanto. Nesse momento, com as vísceras à mostra, a autoconfiança é colocada à prova, afinal, como transformar uma análise em uma ferramenta de lapidação sem se deixar abalar por um comentário pejorativo?
Quando Clarice Lispector (foto) publicou A Paixão Segundo G.H., um crítico disse que o livro era "inclassificável" — num tom nada elogioso. Poemas de Carlos Drummond de Andrade foram chamados de "sem poesia". Até Machado de Assis teve romances recebidos com indiferença ou estranhamento pela crítica de seu tempo. O desconforto com a crítica, portanto, não é um drama pessoal de quem está começando. É algo que acompanha a literatura desde sempre.
Neste artigo não ofereço um manual de defesa, mas um guia de transformação. Vamos explorar como a crítica, da mais embasada até a mais rasa, pode se tornar uma aliada no seu crescimento. Desde, é claro, que consigamos dominar nossa reação ante tão afiada cirurgia.
Mas, para chegarmos a esse lugar, antes é preciso saber por que um comentário sobre o seu texto pode arruinar o seu dia. A resposta não está na fragilidade de quem escreve, mas na arquitetura do nosso cérebro. Existe um mecanismo chamado viés da negatividade, isto é, tendemos a focar mais em eventos negativos do que positivos. É uma forma automática de nos protegermos de ameaças e possíveis decepções.
Saber disso não desarma a crítica, mas ajuda a entender por que nossa reação inicial costuma ser tão intensa. É desse lugar de consciência que podemos construir uma relação mais saudável com o que ouvimos. Não se trata de engolir seco ou ignorar o que dói, mas de aprender a separar o que é útil do que é ruído.
A seguir, reuni algumas estratégias que podem ajudar nesse processo.
1. Escuta ativa
Antes de argumentar ou se defender, crie o hábito de ouvir até o fim. A escuta ativa, sem interrupções, muitas vezes desarma o conflito, permite que você entenda o que está sendo dito e cria espaço para processar a informação sem o impulso da defensiva.
2. Filtro da razão
Depois de ouvir/ler, é sua vez de dissecar e identificar se a crítica pode ser usada para seu crescimento ou se só foi um comentário destrutivo.
Críticas construtivas apresentam pontos negativos E positivos da sua obra; fazem pontuações concretas e específicas; não realizam ataques pessoais; são expostas respeitosamente e oferecem caminhos para que sua escrita melhore.
Dizer apenas que a obra de Elena Ferrante é "romance para adolescente" e "realmente ruim", é mais um ataque gratuito do que uma crítica fundamentada, né, Édouard Louis?
3. Não leve para o pessoal
Separe você de suas ações. Uma crítica ao que você escreveu não é uma crítica a quem você é. Pessoas confiantes — ou em processo de se tornar mais confiantes — sabem fazer essa distinção. Compreender que uma crítica sobre a personagem, a descrição de uma cena ou a escolha do narrador é sobre o texto, não sobre o autor. Aprender a fazer essa separação é um sinal de maturidade profissional e emocional.
4. Escolha quem você vai ouvir
Você não tem a obrigação de levar a sério a opinião de qualquer pessoa – ainda mais em tempos de redes sociais. Estabeleça critérios: quem conhece seu trabalho? Quem tem boa intenção? Quem oferece crítica honesta, mesmo quando dura? São essas vozes que merecem sua atenção.
Além disso, mesmo em uma crítica válida, você tem o direito de escolher quais apontamentos fazem sentido para o seu projeto e para o momento em que você se encontra.
Itamar Vieira Júnior, por exemplo, quando questionado sobre a declaração de Aurora Bernardi, preferiu não comentar diretamente. Mas afirmou que "o debate focado apenas na forma em detrimento do conteúdo é ultrapassado".
5. Crítica é matéria-prima, não veredito
No lugar de perguntar "o que eu fiz de errado?", pergunte "o que posso aprender com isso?". A crítica construtiva aponta um ponto cego. Quando conseguimos enxergá-lo, deixamos de ser reféns dela e passamos a usá-la a nosso favor.
6. Neutralize seu pior inimigo
Você. É, você mesmo é seu pior inimigo e nem sempre percebemos. Certifique-se de que não está se punindo por pequenos erros, deixando de comemorar, se culpando, querendo agradar os outros e se cobrando demais. Transforme a autocrítica em aliada.
Lidar com críticas não é um dom inato, mas uma habilidade que se aprende. É um exercício diário de equilíbrio entre a humildade de saber que sempre podemos melhorar e a soberania de saber que a última palavra sobre a nossa obra é nossa.
A crítica literária, em sua melhor forma, nos oferece um espelho. Cabe a nós decidir se usaremos esse espelho para nos martirizar por uma falha ou para enxergar, com mais clareza, os próximos passos da nossa jornada de escrita.
Que possamos, como escritoras e escritores, transformar a crítica – seja ela um pequeno arranhão ou um talho de fora a fora – em matéria-prima para construir histórias cada vez mais poderosas, sem nunca esquecer de cuidar do autor que existe por trás delas.
Carol Canabarro, apaixonada por literatura e animais. Foi atleta, garçonete, especuladora financeira, professora. Morreu duas vezes, ressuscitou em ambas. Hoje é escritora, egressa do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, autora da narrativa longa "Mirando o gol, acertando as estrelas", colunista no próprio site, aluna na pós-graduação em Literatura, Arte e Filosofia da PUC-RS e serva de quatro gatos.