por Bruna Tessuto
Diferente de uma visão mais moderna que vincula as artes com inspiração, Aristóteles, na Poética, coloca as artes como imitação. Ou seja, elas representam, retratam, imitam a realidade. "No ser humano a propensão à imitação é instintiva desde a infância; o ser humano é o mais instintivo de todos, e é através da imitação que desenvolve seus primeiros conhecimentos."
Dentro dessa lógica, a construção dos personagens é sugerida de acordo com alguns critérios.
- As ações dos personagens devem surgir da própria narrativa, se sucedendo aos eventos por necessidade ou probabilidade. Ou seja, uma ação deve ser consequência do que veio antes, diferente do que acontece no chamado deus ex-machina, que é quando um elemento exterior entra como resolução.
- Personagens revelam quem são através das ações que cometem ao longo da narrativa, através das escolhas que fazem.
- A ação é considerada o elemento mais importante. Mas pensamento e linguagem também devem ser considerados e trabalhados. Através do pensamento, valores e ideias dos personagens são revelados. O problema que aqui é que as coisas que as pessoas pensam ou falam sobre as suas próprias ações nem sempre correspondem às coisas que de fato realizam. Já a linguagem do personagem, o modo como as palavras são ditas, deve incluir estilo, metáforas, ritmo e clareza, sempre tendo coerência com o caráter e com a situação em que o personagem está envolvido.
- Uma das principais funções dos personagens é tornar a ação crível, verossímil. Os personagens devem servir para impulsionar a ação, e não o contrário. Segundo Marcelo de Araújo, "é fácil entender por que Aristóteles considera o enredo (e a ação) mais importante do que o personagem. A caracterização do personagem se dá, não tanto em função das coisas que o personagem fala ou pensa sobre si mesmo, mas em função de seu caráter, em função do tipo de pessoa que ele realmente é. E nós só podemos saber que tipo de pessoa alguém realmente é se atentarmos para as ações que ele ou ela realiza. Ocorre, no entanto, que ações, especialmente em narrativas de ficção, nunca são realizadas em um vácuo situacional".
- O herói trágico deve passar por erro trágico ou falha de julgamento. Deve, também, provocar piedade e temor, levando o público ao sentimento de catarse. Ou seja: ao longo da narrativa, o personagem deve passar por uma situação difícil, deve ser vítima de um sofrimento. O leitor acompanha o sofrimento do com sentimentos de piedade e temor. Ao final, a superação dos sentimentos que o leitor experimenta deve dar lugar a um terceiro: a catarse.
- Alguns dos elementos dos personagens devem ser:
> adequação, ou seja, devem agir conforme o que são;
> verossimilhança, ou seja, devem mostrar coerência ao que é construído na narrativa;
> constância, ou seja, ainda que na mudança, eles devem manter coerência interna.
A Poética de Aristóteles, escrita no século IV a.C., é uma das obras fundamentais da teoria literária e estética ocidental. Nela, Aristóteles analisa principalmente o gênero trágico, buscando compreender seus elementos, efeitos e finalidades. O filósofo define a tragédia como a imitação (mímesis) de uma ação completa e elevada, capaz de suscitar no espectador emoções de piedade e temor, conduzindo à catarse, isto é, à purificação dessas emoções. Ele também discute aspectos como a unidade de ação, a importância do enredo (mythos), o papel dos personagens (ethos) e o uso da linguagem (lexis).
Bruna Tessuto formou-se em Teatro pela UFRGS e é graduanda em Letras pela mesma universidade. Atua como editora e promove mentorias em parceria com a Metamorfose, onde também coordena grupos de leitura e escrita e atua como professora no Curso de Formação de Escritores, do qual é egresssa. Lançou os livros "Os bastidores de Emma" (2018), "Pela voz delas" (2022), livro em que ficcionalizou depoimentos de mulheres reais, e "Até que o divórcio vos reúna" (2024), todos com ficcionalização de histórias reais. Desde 2020 interpreta a fantasma Dulce Miranda nas Visitas Guiadas do Theatro São Pedro