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Conto 3 – Mesa para Um

Conto 3 – Mesa para Um

Ana Lúcia Rodrigues da Silva

Conto 3 – Mesa para Um

Em todos esses anos entre namoro e casamento, esse é o segundo Dia dos Namorados que Bárbara passa longe de Ricardo. Não que eles sejam apegados a datas comemorativas, pelo contrário, aniversários sempre ficaram sujeitos, ou não, à disponibilidade de suas agendas.

O Dia dos Namorados era diferente. Afinal, foi em uma data como essa que iniciaram o namoro. Também foi em um Dia dos Namorados, quando estavam separados, que Bárbara concluiu que tinha cometido um equívoco e decidiu procurar Ricardo para reatarem. E assim seguiram até hoje. Duas dezenas de Dias dos Namorados juntos.

Mas neste ano foi diferente.

Ricardo já havia reservado aquele restaurante da chef famosa que Bárbara tanto admirava. Bárbara, por sua vez, já havia escolhido o presente de Ricardo e bloqueado sua agenda mais cedo. Afinal, era um bom motivo para ir ao salão e aproveitar para fazer tudo aquilo de que precisava.

Cortou e tingiu o cabelo, fez as unhas, depilação e até sobrancelhas. Como não tinha pressa, também fez uma hidratação e uma escova. Pacote especial dos Namorados. Por que não?

Ricardo não estava tão livre. Como jornalista experiente, precisava estar onde a matéria acontece. E logo hoje seria em Brasília. Mas Bárbara estava animada: seu voo de volta chegaria a Congonhas antes das 17 horas. Tempo suficiente para a reserva das 20h30.

Enquanto Bárbara se entregava aos inúmeros procedimentos de beleza, seu celular, no silencioso, colecionava mensagens de texto, áudios e ligações perdidas de Ricardo. O voo estava atrasado. O voo continuava sem previsão de decolagem. O voo havia sido cancelado. O voo foi remanejado para o dia seguinte. O voucher do hotel já estava com Ricardo.

Bárbara havia adorado o novo corte e a nova cor. Queria experimentar o novo. O espelho do salão lhe fora cordial. Sentia-se bonita, revigorada e animada. Quem sabe a noite não ficasse apenas no jantar.

Pegou o celular para pagar a conta e, no mesmo instante, tudo apitava: WhatsApp, ligação perdida, até chamada de vídeo. Ricardo.

Como esperado, Bárbara não apenas ficou triste, mas desiludida. Ricardo, agora sem bateria, havia pedido que ela transferisse a reserva. Mandou o telefone e sugeriu a próxima semana, em uma quinta-feira. Afinal, às quintas, as agendas estão duplamente livres.

Bárbara ligou e pediu:

— Mesa para um, por favor.

Ricardo estava incomunicável, pelo menos até chegar ao hotel e carregar o celular.

Ela foi.

O restaurante estava repleto de casais jantando à luz de velas. Havia de todas as idades: os mais jovens, vários casais entre 40 e 60 anos, e aquele casal na mesa do canto, com oitenta e tantos.

Vinhos, espumantes, primeiros, segundos e terceiros pratos. E velas. Ricardo caprichou. Que lugar bonito. Que comida gostosa.

Era inevitável os olhares para Bárbara. Ela estava bonita. Estava sozinha. E era o Dia dos Namorados.

Apesar disso, Bárbara estava feliz e, principalmente, com fome. Escolheu o menu degustação harmonizado com vinhos. Ricardo escolheu bem. Tudo estava delicioso.

Entre um prato e outro, observar os casais virou a atração da noite. Especialmente aqueles que adoravam fotografar os pratos e fazer selfies. Não é à toa que tudo aparece lindo nas mídias sociais. Os casais se beijavam, se abraçavam e se largavam imediatamente ao término da foto. E assim seguiam, olhando as curtidas e o sucesso instantâneo nas redes. Um novo prato chegava, e o mesmo processo se reiniciava.

Parecia uma epidemia.

O restaurante estava quieto, apesar de cheio. Menos na mesa do canto.

Com eles era diferente. Conversavam enquanto seguravam a mão um do outro. E largavam de forma meio marota quando um novo prato chegava à mesa. Lá, o silêncio não fazia morada. Pelo contrário: falavam, gesticulavam e sorriam. Não para fotos, mas um para o outro.

Bárbara foi interrompida pelo garçom, que a questionava sobre algo que ela nem havia notado. Estava longe.

Que casal ela seria, se Ricardo estivesse presente?

Bárbara segurou a taça antes de responder, como se o tempo coubesse ali dentro, suspenso entre o aroma do vinho e a pergunta que ainda ecoava.

— Está tudo ótimo — disse, finalmente.

Mas não era sobre a comida.

Voltou os olhos para o casal do canto. Eles riam agora, de algo que parecia antigo, íntimo, impossível de caber em uma legenda. Não havia pressa. Nem plateia.

Bárbara pensou em Ricardo. Nos anos. Nos desencontros que nunca chegaram a ser rupturas. Pensou no esforço de encaixar agendas, no hábito confortável, na história construída e naquilo que, silenciosamente, talvez tivesse ficado pelo caminho.

Pegou o celular. A tela ainda exibia as mensagens dele.

Dessa vez, não respondeu prontamente.

Virou o aparelho com a tela para baixo.

Chamou o garçom.

— Pode trazer a sobremesa — disse, com um sorriso leve. Sem pressa.

O garçom sorriu e se afastou.

Bárbara recostou-se na cadeira. Pela primeira vez em muitos anos, ela não estava esperando alguém chegar para que a noite começasse.

Ela já estava lá.

E isso, percebeu, podia ser suficiente.

Ana Lúcia Rodrigues da Silva

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Graduada em Física pela UNESP (1986), Mestrado e Doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (1992 e 1998), onde também realizou o seu primeiro Pós-Doutorado finalizado em 2009. Pós-doutorada também na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (2011). Sócia da empresa Sinerconsult - Consultoria, Treinamento e Participações Ltda, onde realiza trabalhos de consultoria e pesquisa nas áreas de energia e hospitalidade, com ênfase em gestão estratégica, otimização de processos, planejamento, pesquisa de mercado, perfil e comportamento do consumidor, comunicação e marketing. É professora do MBA Gestão de Riscos na Comercialização de Energia USP/CCEE. Autora de vários livros, onde se incluem Monografia Fácil, Marketing Energético, Comportamento do Consumidor de Energia Elétrica, Cruzeiros Marítimos (2017) e Cruzeiros: Empresas, Itinerários e Experiências (Synergia, 2023). Entre 2021 e 2025 realizou o seu terceiro pós-doutorado, no Departamento de Metrologia, Qualidade, Inovação e Sustentabilidade da PUC Rio, onde se especializou na indústria de cruzeiros. 

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