Ana Lúcia Rodrigues da Silva
Existem fases difíceis. Bárbara sabia disso, mas aquela parecia longa demais.
Lidar com a menopausa parecia impossível, principalmente sozinha. Apesar do bom relacionamento com Ricardo e os filhos, ela nunca se sentia à vontade para conversar sobre o assunto. Era estranho como carregamos para a vida adulta os silêncios da infância.
Bárbara nunca teve a oportunidade de falar com a mãe, avós ou tias sobre as dúvidas e dificuldades da puberdade. Até a primeira visita ao ginecologista, antes do casamento, havia sido uma experiência secreta e solitária. Agora, décadas depois, continuava tentando encontrar respostas quase às cegas. Pelo menos tinha a psicóloga, alguns fóruns na internet e a sensação de que, mesmo falando sozinha às vezes, ainda era melhor do que não falar nada.
Naquela quinta-feira, após passar vergonha diante do diretor da faculdade por causa de uma onda de calor que a deixou suando sem parar durante uma reunião, Bárbara saiu caminhando até o metrô em busca de qualquer lugar com ar-condicionado.
Não estava com fome. Também já tinha tomado pelo menos quatro cafés naquela tarde. Entrar em uma cafeteria parecia má ideia, principalmente por causa dos quilos que insistiam em aparecer semana após semana.
— Que desastre... — murmurou para si mesma.
Havia mais de um ano que não se reconhecia. O corpo mudara, o sono desaparecera, a paciência diminuíra. Às vezes, sentia que apenas esperava os dias passarem até voltar a ser alguém familiar para si mesma.
Mas o calor continuava brutal. Talvez fizesse trinta graus, mas para Bárbara, parecia muito mais.
Ir para casa também não ajudaria. O único ar-condicionado havia quebrado meses antes. Ricardo dizia, em tom de brincadeira, que o aparelho queimara de tanto ela ligá-lo e desligá-lo durante a madrugada. O aparelho parou de funcionar. Ricardo passou a dormir no quarto vazio de um dos filhos. E o conserto parecia cada vez mais distante.
— Que inferno...
Foi então que ela viu, do outro lado da rua, a pequena porta estreita seguida por uma escada longa demais para despertar curiosidade em qualquer dia normal.
"Dança de Salão – Viva o glamour dos anos dourados".
Bárbara hesitou por alguns segundos.
— Por que não?
Subir aquela escada parecia melhor do que derreter na rua ou se acabar na padaria.
A recepção tinha luz baixa, ar gelado e cheiro de madeira encerada. A mulher atrás do balcão sorriu imediatamente e ofereceu um chá gelado enquanto explicava os planos e horários das aulas.
Bárbara mal escutava.
No fundo do salão, um casal dançava valsa lentamente. Rodopiavam com uma leveza quase absurda. Ela se lembrou de Anna e o Rei. Fazia anos que não pensava naquele filme. Fazia mais tempo ainda que não dançava.
Depois do chá, e de pelo menos dez graus a menos no corpo, veio o convite inesperado:
— Quer experimentar uma aula agora?
O professor era o homem que havia acabado de terminar a valsa.
Bárbara aceitou antes mesmo de pensar.
Lamentou não estar usando salto, nem um vestido bonito. Estava de calça social, camisa amarrotada e cabelos presos às pressas. Ainda assim, sentia um entusiasmo adolescente crescendo dentro dela.
Ricardo nunca gostara de dançar. Preferia vinho, conversa e mesas silenciosas longe da pista. Bárbara sempre insistia um pouco. Ele sempre recusava sorrindo.
Paulo se aproximou para cumprimentá-la.
Era mais jovem do que ela imaginara. Usava roupa social simples e sapatos pretos já bastante gastos na ponta, como se tivessem atravessado muitos salões. Havia algo cansado nele e estranhamente bonito também.
A voz de Paulo era calma. O sorriso, acolhedor.
Ainda sem música, ele mostrou como deveriam se posicionar. Explicou os passos de maneira simples, embora os pés de Bárbara discordassem completamente disso.
Tentaram algumas vezes.
Ela errou quase todas.
Mesmo assim, Paulo sorriu.
— Acho que tudo funciona melhor quando encontramos a música certa.
Bárbara respirou fundo, tentando relaxar.
Então a música começou.
Paulo pousou a mão direita em sua cintura. A mão era firme, segura. Com a esquerda, segurou a dela.
Quase por instinto, Bárbara entrelaçou os dedos aos dele.
Paulo sorriu de leve.
— Isso vem com o tempo. Requer intimidade. A dança traz isso.
Sem graça, ela soltou a mão imediatamente e abaixou os olhos para os próprios pés.
Tinha medo de pisar nele.
Paulo então levou a mão até o queixo dela, com delicadeza.
— Bárbara... olhe para mim. Não para os pés. Independente do que aconteça, é nos olhos do seu parceiro que você deve permanecer.
Ela assentiu.
E, depois disso, pareceu impossível olhar para qualquer outro lugar.
A música era Shall We Dance?, tema de Anna e o Rei.
Foram quatro minutos e quarenta e quatro segundos.
Durante aquele tempo, Bárbara não pensou no calor. Nem no peso. Nem na idade. Nem na insônia. Nem na vergonha da reunião. Nem em quantos anos fazia desde a última vez que havia dançado.
Ela apenas dançou.
E se sentiu viva.
De todas as formas que uma mulher pode se sentir.
Quando saiu da escola, desceu a escada quase saltitando.
Matrícula feita.
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Graduada em Física pela UNESP (1986), Mestrado e Doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (1992 e 1998), onde também realizou o seu primeiro Pós-Doutorado finalizado em 2009. Pós-doutorada também na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (2011). Sócia da empresa Sinerconsult - Consultoria, Treinamento e Participações Ltda, onde realiza trabalhos de consultoria e pesquisa nas áreas de energia e hospitalidade, com ênfase em gestão estratégica, otimização de processos, planejamento, pesquisa de mercado, perfil e comportamento do consumidor, comunicação e marketing. É professora do MBA Gestão de Riscos na Comercialização de Energia USP/CCEE. Autora de vários livros, onde se incluem Monografia Fácil, Marketing Energético, Comportamento do Consumidor de Energia Elétrica, Cruzeiros Marítimos (2017) e Cruzeiros: Empresas, Itinerários e Experiências (Synergia, 2023). Entre 2021 e 2025 realizou o seu terceiro pós-doutorado, no Departamento de Metrologia, Qualidade, Inovação e Sustentabilidade da PUC Rio, onde se especializou na indústria de cruzeiros.