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Conto 6 – Cobertor Curto

Conto 6 – Cobertor Curto

por Ana Lúcia Rodrigues da Silva

Conto 6 – Cobertor Curto

Era um dia comum para Bárbara. Pela manhã, acompanharia duas obras; à tarde, trabalharia no escritório; à noite, daria aula na faculdade, das 19h às 23h20. A agenda estava cheia, como quase sempre.

Mas aquela não era uma semana qualquer.

Cauã e Fábio iriam voltar  para casa para passar a semana inteira por conta do feriado prolongado da Semana da Pátria. Bárbara e Ricardo adoravam quando os filhos estavam ali. Havia algo reconfortante em deitar-se à noite e saber que os dois quartos estavam ocupados. Bastava ouvir um chuveiro ligado, uma porta se fechando ou passos pelo corredor para sentir a casa novamente completa.

Ela esperava por aqueles dias havia semanas. Imaginava roupas espalhadas para lavar, os pratos preferidos sobre a mesa, refeições compartilhadas, conversas demoradas e pedidos inesperados de carinho. Ou talvez nada disso. Os amigos também estariam na cidade, e os planos dos rapazes poderiam mudar a qualquer momento.

Mesmo assim, Bárbara sempre tentava reorganizar a rotina quando eles voltavam. A faculdade tinha horários fixos, impossíveis de alterar, mas prometera reduzir ao máximo os demais compromissos profissionais.

— Vou tentar me liberar o máximo possível do trabalho. A faculdade eu não consigo mudar, mas quero aproveitar vocês. — prometera aos filhos mais de dez dias antes, durante uma ligação.

Nem sabia se eles haviam prestado atenção. Naquele momento, os dois estavam muito mais preocupados em combinar os programas da semana com os amigos.

Então, como costuma acontecer quando tudo parece finalmente se encaixar, veio a famosa Lei de Murphy.

Uma das obras estava atrasada por dificuldades financeiras dos proprietários. O problema havia sido resolvido, e agora eles queriam recuperar o tempo perdido.

— Precisamos de reuniões diárias pela manhã e visitas aos fornecedores à tarde. Não podemos perder mais tempo.

Bárbara explicou que haveria um feriado, que aquela seria uma semana reduzida, mas os clientes estavam animados.

— Justamente por isso! Estaremos de folga e poderemos acompanhar tudo de perto.

Ela desligou a ligação já imaginando sua agenda se desfazendo.

— Que caos... — comentou com Ricardo.

Ele sorriu, tranquilo.

— Bá, os meninos já são adultos. Não temos mais criança para levar à escola nem ao futebol.

Ela sabia que ele tinha razão. Ainda assim, a angústia permanecia. A lógica nem sempre consola o coração.

Na véspera da chegada, uma mensagem de Cauã apareceu logo cedo.

— Mãe, dá para fazer aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate? Mas nada de terceirizar, hein! Ah... outra ótima notícia: estou sem planos a semana inteira. Vê se não se enrola por aí. Quero fazer um monte de coisas com você. Precisamos matar a saudade!

Antes que Bárbara respondesse, Fábio entrou na conversa.

— Eita, Cauã, você é folgado mesmo! Mas gostei da ideia do bolo. Ah... a Sandrinha vem comigo. Acho que já passou da hora de vocês chamarem os pais dela para jantar. Só não pode ser no feriado porque eles vão viajar. Pode ser uma coisa simples. Eles são tranquilos.

Bárbara sentiu as pernas enfraquecerem. Encostou-se na parede da cozinha e escorregou até sentar no chão.

Ela talvez quissesse fazer exatamente aquilo. O bolo. O jantar. As conversas. Os passeios.

Só não sabia onde encontraria tempo.

Ricardo, sempre bem-humorado, respondeu antes dela.

— Ei, folgados! A mãe de vocês está cheia de trabalho. Sugiro que sobrevivam exatamente como fizeram nos últimos dois meses. Amo vocês! Se insistirem muito, eu até faço o bolo. Livro de receita não falta aqui.

— Pelo jeito ninguém usa! Kkkkk... — respondeu Cauã.

Fábio insistiu:

— Pai, para com isso. Se eu não chamar os pais da Sandrinha, ela vai achar que a culpa é minha. Compra tudo pronto, se precisar.

— Eu só quero o bolo da mãe! — completou Cauã.

Ainda sentada no chão, Bárbara começou a fazer contas impossíveis.

Quem sabe cancelar as reuniões?

Inventar uma desculpa na faculdade?

Fingir uma gripe? Quebrar o pé?

As ideias chegavam tão absurdas quanto inviáveis.

A verdade era outra.

Sua vida havia se transformado num cobertor curto. Sempre que tentava cobrir uma responsabilidade, outra ficava descoberta.

Levantou-se, foi até a cozinha e colocou água para ferver junto com um ovo.

— Cinco minutos... Dá tempo de responder algumas mensagens.

Abriu o WhatsApp.

Havia uma dúzia de notificações.

Uma delas era de sua mãe, que morava no interior.

— Bárbara, não estou bem. Não é nada grave, mas preciso de você aqui. As coisas estão piorando e quero conversar com você. Como é feriado, fiquei mais tranquila para pedir. Você vem?

Bárbara leu a mensagem duas vezes.

Caminhou até o fogão. Desligou o fogo.

Ficou alguns instantes olhando a panela, o celular e a agenda aberta sobre a mesa.

Entre todas as possibilidades que lhe ocorreram, nenhuma incluía a liberdade de escolher por si. A culpa chegava sempre antes.

O cobertor continuava curto. Como tantas outras vezes, Bárbara puxou-o para cobrir todos os outros. Fazia tempo que dormia descoberta.

 

Ana Lúcia Rodrigues da Silva

Graduada em Física pela UNESP (1986), Mestrado e Doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (1992 e 1998), onde também realizou o seu primeiro Pós-Doutorado finalizado em 2009. Pós-doutorada também na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (2011). Sócia da empresa Sinerconsult - Consultoria, Treinamento e Participações Ltda, onde realiza trabalhos de consultoria e pesquisa nas áreas de energia e hospitalidade, com ênfase em gestão estratégica, otimização de processos, planejamento, pesquisa de mercado, perfil e comportamento do consumidor, comunicação e marketing. É professora do MBA Gestão de Riscos na Comercialização de Energia USP/CCEE. Autora de vários livros, onde se incluem Monografia Fácil, Marketing Energético, Comportamento do Consumidor de Energia Elétrica, Cruzeiros Marítimos (2017) e Cruzeiros: Empresas, Itinerários e Experiências (Synergia, 2023). Entre 2021 e 2025 realizou o seu terceiro pós-doutorado, no Departamento de Metrologia, Qualidade, Inovação e Sustentabilidade da PUC Rio, onde se especializou na indústria de cruzeiros. 

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