por Ana Lúcia Rodrigues da Silva
Sofia era uma mulher em formação.
Aos dezoito anos, ainda estava longe de imaginar a mulher que se tornaria no final daquela década. Filha de fazendeiros, irmã caçula de dois rapazes mais velhos, crescera com acesso a bons colégios, excelente infraestrutura e os ares puros da fazenda. Tivera uma infância amparada, confortável e feliz.
Mas havia nela uma inquietude que sempre saltara aos olhos de todos.
Sofia queria mais.
O problema era que ninguém sabia exatamente o que significava esse "mais". Nem ela.
Parecia que seus planos e suas escolhas não cabiam nos planos de sua família.
Mas nada disso era explícito ou mesmo falado.
Germano, seu pai, apesar de ser um homem do campo, considerado rude por alguns, tinha um coração inteiramente dedicado à caçula. E tinha muitos planos para ela.
Laura, sua mãe, era diferente. Mulher moderna, depois que os filhos cresceram, vivia muito mais na cidade grande, em Goiânia, do que na fazenda. Valorizava a alta gastronomia, adorava viajar e conhecer o novo. Era uma mulher que gostava da vida que construíra, mas também sabia que havia outras vidas possíveis.
Era um casal ajustado, embora formado por pessoas muito diferentes.
Enquanto Germano construía planos para Sofia, Laura insistia que a filha era um ser independente e que, no tempo certo, tomaria suas próprias decisões.
— Lógico! — respondia Germano. — Sempre darei opções para ela escolher! Você acha que eu não conheço a filha que você me deu?
— Germano, não construa castelos na areia — alertava Laura.
— Não são na areia, Laura. São numa magnífica fazenda que sustenta tudo e todos. Nunca se esqueça disso.
— Não tem como, Germano. Você não permite. Mas Sofia não é como os irmãos. Ela pode ter sonhos que habitem outros lugares.
— Imaginação fértil essa sua. Você acha que esse assunto que ela pediu para falar conosco tem essas idiotices? Só me faltava isso! Filha criada, trabalho dobrado.
— Não sei. Ela fará dezoito anos daqui a três meses. Isso coincide com as inscrições do vestibular. Alguma coisa tem aí, Germano.
— Falando no assunto, o assunto chegou! Vem cá, minha princesa. Dê um beijo no seu pai.
— Oieee! O que vocês estavam falando de mim?
Sofia já vinha em direção ao pai para aquele abraço e beijo tão esperado por ele.
— Seu pai está aqui tentando adivinhar a pauta do nosso jantar. Afinal, já faz vários dias que você quer saber se estaríamos juntos hoje. Mal cheguei de Goiânia e seu pai já está contando os minutos para você chegar e falar do que se trata, minha filha.
— Tudo história da sua mãe. Tenho certeza de que você quer pedir um boi para fazer uma churrascada com seus amigos do colégio, não é isso?
— Eita, pai. De onde saiu essa ideia de boi? A mãe não falou que estou virando vegetariana?
Germano fez imediatamente aquela cara de desagrado, prontamente repreendida pelo olhar de Laura.
— Sofia, minha princesa, você não marcou um jantar conosco, com uma picanha da fazenda na mesa, para falar que não come mais carne, né?
— Não papai, na realidade eu vou só comer salada. Estou precisando emagrecer e, depois de uma hora de spinning, não vou comer tudo isso, né? Mas não fica bravo comigo. Não tenho nada contra a sua picanha...
Disse aquilo fazendo todo aquele charme que a tornava irresistível para o pai.
— Diga lá então, minha princesa. O que você quer discutir? Seria seu presente? Algum carro? Festa? Diga logo, porque estou me remoendo aqui tentando adivinhar.
Laura não falava nada. Apenas observava pai e filha naquele jogo de meias palavras. Mantinha-se neutra e até calma.
Logo sua função de bombeira entraria em ação.
Com certeza haveria algum incêndio para apagar naquele jantar.
— Tudo bem, papai — disse Sofia, a contragosto, pois ainda tentava adiar um pouco a confusão. — Vou direto ao ponto, como o senhor pediu. Daqui a uma semana abrem as inscrições para o vestibular e eu já me decidi.
— Ufa! É isso. Viu, Laura? Nada demais. Agora saberemos se Sofia fará Veterinária ou Agronomia. Maravilha, minha filha. Tem tudo aqui pertinho. Sua mãe deixa tudo arrumado para você, não é, Laura?
Laura nem respondeu.
Apenas levantou-se e serviu uma taça de vinho para ela e para o marido.
Ela tinha certeza de que aquilo seria necessário para engolir o que viria pela frente.
— Papai, até quando você vai insistir nisso? Acho que desde os quinze anos já te falei que não quero nada disso.
Nesse momento, não apenas Laura, mas também Germano, deram alguns goles no vinho recém-servido.
— Vou fazer Relações Internacionais na FAAP, em São Paulo. Estou decidida. Lá é seguro, do jeito que vocês gostam. É isso. Pronto. Falei.
Germano olhou para Laura.
Depois para Sofia.
Olhou para o relógio.
Depois para a picanha, que naquele momento já estava servida na mesa.
Não se segurou.
— Que raios de curso é esse? Relações do quê? Para quê? O que faz quem se forma nisso?
Conforme falava, Germano ficava cada vez mais vermelho.
— Você está louca, menina? Se você quer viajar, vai lá para a Disney. Fica um mês. Se for pouco, fica logo dois. E volta com juízo nessa cabeça. Laura, você está por trás disso?
Laura não respondeu.
Apenas olhou para Sofia, que, como o pai, tentava se controlar.
Sem muito sucesso.
— Pai, você não pode estar falando sério. Para você, a escolha da minha profissão pode ser trocada por uma viagem para a Disney? Você acha que eu ainda tenho dez anos? Só pode ser piada!
Laura entrou antes que a discussão crescesse.
— Sofia, minha filha, explique para nós o que faz um profissional formado em Relações Internacionais. Onde eles trabalham?
— Mãe, olha a crise que existe no mundo. Um profissional de RI vai ter infinitas oportunidades.
— Que oportunidades, menina? — interrompeu Germano. — Vai negociar guerras com os malucos que existem nesse mundo? É isso?
— Calma, Germano — disse Laura. — Acho que todos precisamos parar e entender melhor isso, você não acha?
— Gente, vocês podem entender melhor o que vocês quiserem, mas eu já estou totalmente decidida.
Germano apoiou os talheres no prato.
— Ah, é assim?
Sofia sustentou o olhar.
— É.
—E quem vai pagar essa vida toda aí que você está planejando? Essa faculdade é particular, não é? E você vai morar como em São Paulo?
Nesse momento, Sofia parou.
Pela primeira vez naquela noite, seu pai tinha razão.
Ela tinha escolhido o curso, a cidade, a profissão e até imaginado um futuro inteiro. Só não tinha pensado em como pagaria por ele.
Sofia não tinha dinheiro. Não tinha emprego. Não tinha outra fonte de renda além dos pais.
Até aquele momento, independência parecia uma questão de escolha.
Agora começava a parecer uma questão de preço.
E, também pela primeira vez naquela noite, percebeu que sua independência ainda cabia inteiramente dentro do bolso do pai.
Graduada em Física pela UNESP (1986), Mestrado e Doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (1992 e 1998), onde também realizou o seu primeiro Pós-Doutorado finalizado em 2009. Pós-doutorada também na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (2011). Sócia da empresa Sinerconsult - Consultoria, Treinamento e Participações Ltda, onde realiza trabalhos de consultoria e pesquisa nas áreas de energia e hospitalidade, com ênfase em gestão estratégica, otimização de processos, planejamento, pesquisa de mercado, perfil e comportamento do consumidor, comunicação e marketing. É professora do MBA Gestão de Riscos na Comercialização de Energia USP/CCEE. Autora de vários livros, onde se incluem Monografia Fácil, Marketing Energético, Comportamento do Consumidor de Energia Elétrica, Cruzeiros Marítimos (2017) e Cruzeiros: Empresas, Itinerários e Experiências (Synergia, 2023). Entre 2021 e 2025 realizou o seu terceiro pós-doutorado, no Departamento de Metrologia, Qualidade, Inovação e Sustentabilidade da PUC Rio, onde se especializou na indústria de cruzeiros.
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