por Mauricio Danielli
AOS PÉS DO ONIPOTENTE
Ticiano não se misturava. Não por rejeição aberta, apenas não acontecia. Ainda assim, orbitava a turma: nas provas de português, era útil. Salvava, passava as respostas. Isso bastava para garantir respeito e alguma proteção.
Vinhas Velhas se escondia entre morros. O sol partia cedo, como quem desiste. Fundada por italianos expulsos do Vêneto, guardava na boca o talian. O português vinha depois, aprendido, forçado. Em Ticiano, não. Nele, a língua assentava com precisão, era seu único domínio.
Entre os colegas mais velhos, especialmente os repetentes, como Polenta, isso valia muito. Um metro e oitenta, largo, forte. Mais homem do que menino. Ninguém mexia com quem estivesse sob sua sombra.
Depois da escola, os garotos invadiam parreirais e corriam para o arroio. A água era traiçoeira. Mais adiante, despencava numa cachoeira que já levara alguns.
— Vem! — chamou Polenta. — Eu te seguro.
Ticiano hesitou, mas entrou. Não queria parecer fraco.
Até o peito, foi tranquilo. Depois, o pânico. A correnteza o puxou, os pés escorregaram nas pedras. Foi arrastado.
Polenta mergulhou sem pensar. Nadou contra a força da água, alcançou-o e o prendeu junto ao corpo. Voltou de costas, firme, usando as pernas como impulso.
Ticiano, sem ar, via apenas aquilo: os pés enormes cortando a água, ritmados, seguros, guiando-os de volta como leme.
Chegaram à margem. Polenta riu, aliviado. Ticiano, arfando, saiu correndo.
— Nem um obrigado? — resmungou o outro.
Em casa, demorou no banho. Observou os próprios pés, pequenos, sem graça.
Depois abriu a enciclopédia e leu sobre eles, como quem tenta entender algo que não sabe nomear.
A mãe o chamou. Coroinha não podia atrasar. Vestiu a túnica, a sobrepeliz e seguiu para a igreja. Naquela Semana Santa, o mundo parecia mais escuro. Era o Tenebrae: ritual das trevas.
A nave estava cheia. Viu o pai de Polenta. Olhou-lhe os pés. Herdara.
Ticiano levou o tenebrário. Tentou acender as velas, falhou. O padre perdeu a paciência, tomou-lhe os fósforos, acendeu-as ele mesmo. Seguiu o rito: leituras, lumes que deveriam se apagar.
Ticiano precisava soprar as velas. Distraiu-se: Polenta entrava, de Havaianas, os pés desmedidos. Tossido o aviso pelo pároco, assoprou. Penumbra.
— Está consumado! — proclamou o sacerdote.
E quase se consumou. As velas eram daquelas teimosinhas, voltaram a acender. Ticiano voltou a assoprá-las. Derrubou o candelabro. O tecido da mesa da eucaristia pegou fogo.
Gritos. Antes que o caos crescesse, Polenta avançou. Três passos bastaram. Arrancou o pano em chamas e esmagou o fogo com os pés. A dança firme, as chamas cedendo sob a pele tensa, as veias saltadas, músculos em contração.
— Já te salvei da água e do fogo. Do ar vai ser difícil — brincou.
Ticiano, outra vez, fugiu.
Naquela noite, sonhou. Multidões, fumaça, calor, pés por toda parte. Das brasas, alguém surgia. Um halo de luz. Olhou os pés: não queimavam. Reconheceu-os.
Polenta.
Acordou perturbado, o corpo em reação. Rezou, envergonhado.
No dia seguinte, o lava-pés. Homens descalços. O padre lavava com rudeza; a Ticiano coube secar os fiéis.
Demorava mais do que devia. Dedo a dedo. Espaços. Tendões. Calcanhares. Passou a massagear discretamente. Atribuía notas. Havia pés descuidados, outros surpreendentes. Alguns divinos. Havia ali algo novo, que o inquietava e atraía ao mesmo tempo.
Na sexta-feira, a imagem do Cristo morto, figura de gesso em tamanho real, pintada à mão, um lençol a cobrir a nudez. Minuciosamente esculpida com peitoral marcado, músculos delineados e pés viris. As chagas abertas pelos pregos da cruz.
A tradição cortou o deslumbramento. O padre ordenou:
— Beije os pés.
Ticiano obedeceu. Tocou, beijou. Repetiu. Demorou-se além do aceitável. Foi interrompido com brusquidão e dispensado da Via Sacra.
Do lado de fora, a procissão começava. Surgiu o incumbido de viver Jesus. Peruca ruim, manto improvisado.
Polenta.
Ele acenou. Ticiano virou o rosto e saiu.
— Fiz isso por você — disse Polenta, alcançando-o — Não vai ficar?
— Estou cansado.
— Reparou que faço de tudo para chamar sua atenção? Nunca se perguntou o motivo?
Não houve resposta. O padre, fazendo as vezes de soldado romano, interrompeu com uma açoitada com o chicote. Polenta seguiu para a cruz.
Depois disso, desapareceu. Trabalho. Mudança para o turno da noite na escola.
Ticiano tentou vê-lo. Esperou em missas, rondou o colégio à noite. Nada.
No Corpus Christi, quando pés pisavam a serragem pintada, não veio.
Decidiu também trabalhar. Foi parar na vinícola, destino comum.
Primeiro dia: setor de esmagamento.
— Vai ajudar o Artur — disseram.
O homem alto no lagar estava de costas, pisando uvas com movimentos lentos. Pés manchados de roxo, mergulhando e emergindo na massa.
— Artur! — chamaram.
Ele se virou.
Polenta.
O apelido eclipsara o nome de batismo do colega. Sorriu.
— Vem. Cabe mais um — disse, estendendo-lhe a mão.
Ticiano entrou descalço. Sentiu a polpa ceder sob os pés. Polenta o puxou, aproximou, guiou o movimento.
Vai e vem.
Sem pressa.
Aprendeu rápido.
Dizem que aquele vinho ficou diferente. Mais encorpado, vivo.
Não era a terra.
Nem a madeira.
Nem o tempo.
Era outra coisa.
Que não se dizia.
Mas fermentava.
Premiado com um Emmy Internacional. Após décadas dedicadas apenas aos roteiros, escreve seu primeiro romance: "Chiclete para os Olhos". Na televisão, coescreveu novelas para a Rede Globo (como Mauricio Gyboski), tendo entre seus principais trabalhos Fina Estampa, O Sétimo Guardião e Império, vencedora do Emmy e de diversos outros prêmios como Extra, F5 Folha Uol, Quem, Contigo e Troféu Imprensa. Seus textos e roteiros foram exportados para mais de 30 países e traduzidos para outras línguas em remakes e adaptações, caso de Marido en Alquiler (Fina Estampa) na emissora hispano-americana Telemundo.
No cinema, corroteirizou Crô, o Filme e Águas Primaveris (em processo de captação), entre outros. Em emissoras regionais, destaque para a primeira minissérie da Ulbra TV, Parada 90, que escreveu e também dirigiu.
Fez e recomenda o Curso Online de Formação de Escritores. Possui no portfólio projetos de séries, filmes, sinopses de telenovela e novelas verticais. Contato: