×

CONTO "ARROZ-DOCE"

CONTO "ARROZ-DOCE"

por Mauricio Danielli

CONTO

ARROZ-DOCE

O celular vibra sobre a mesa de centro. No sofá, a velha escuta, alheia, o toque de Não é Proibido, de Marisa Monte: "Jujuba, bananada, pipoca, cocada..."

Ela não atende. O olhar fixo, enevoado, azul como o céu, perdido em algum intervalo dos seus oitenta anos.

Enzo chega do banho, enrolado na toalha, e atende.

— Oi, pai? tava no chuveiro? Cancelaram o voo? Diz pra mãe ficar tranquila, eu fico com a vó essa noite, vão pro hotel e amanhã vocês voltam.

Desliga. Observa a avó, novamente distante, e recorda a própria infância.

— Tem figurinhas do Batman, seu Nilo? Quero vinte pacotinhos.

A avó se projeta sobre o neto e coloca mais cédulas sobre as que ele segurava.

— Vê cem! — diz ela ao jornaleiro. — Hoje o Enzo dorme na minha casa e vamos completar o álbum!

Ele rasga pacotinhos no chão da sala.

— Olha, vó, o Robin!

— Meu menino-prodígio? — ela responde da cozinha. — Vou fazer brigadeiro! Quer aprender?

— Outro dia — diz ele, sem tirar os olhos das figurinhas.

Naquela noite antiga, comeram doces e adormeceram abraçados, colando heróis até o sono vencer. Avó é mãe com açúcar.

Enzo volta ao presente com um sorriso breve.

— Tem sagu? — pergunta ela.

— Não, vó.

— E Chico Balanceado?

— Também não.

— Queria um doce.

— Não tem.

Silêncio. O olhar dela volta a se dissolver.

— Tem pudim?

— Não.

— Ambrosia?

— Nunca teve.

— Bolinho de chuva?

— Só a senhora sabia fazer.

— Nem cueca virada?

— A minha, no banheiro — ele ri.

Ela não ri.

— Você não sabe cozinhar, não?

Enzo vai até o armário e ergue um pacote.

— Sei fazer isso.

— Figurinhas?

— Miojo.

— Que diabo é isso?

— Comida em três minutos.

— Veneno.

— A mãe diz o mesmo.

Ela o encara.

— Doce você não faz?

— Quem fazia era a senhora.

— Então vou pegar meu livro de receitas.

— Não tem mais, vó.

Ela franze a testa. A inquietação cresce. Enzo pega o celular.

— Olha só. Posso pedir doce pelo Ifood.

— Vai você, mal-educado!

— Não é palavrão. É aplicativo.

Ele para. Sorri.

— Não ia ser a mesma coisa, né vó?

Ele reabre o armário.

— Pera? tive uma ideia.

Tira lá de dentro o que tem: leite condensado, arroz, açúcar...

— Alexa!

— Meu nome é Isaltina, menino lesado.

— Não, vó. Alexa é aquele aparelhinho ali.

— Aquela bolota tem nome de sirigaita gringa?

Ele ri.

— Alexa, qual doce dá para fazer com leite condensado, arroz e açúcar?

A luz azul se ilumina e a voz responde:

— Essa é fácil. Arroz-doce.

A velha se assusta.

— Desconjuro! Tá repreendido em nome de Jesus.

— Não precisa exorcismo, vó. É só a tecnologia.

— Deus que me livre e guarde, Rubens!

— Eu sou o Enzo, vó.

— E cadê o Rubens?

— Tio Rubens morreu.

— Morreu? — questiona ela, os olhos azuis agora marejados — Quando?

— Ih faz tempo, vó. Em 1989. Eu nem era nascido.

Ela empalidece.

— Não quero lembrar. Não quero.

Silêncio.

— Alexa, receita de arroz-doce? — solicita o neto.

A voz do aparelho do mesmo azul dos olhos da avó explica a receita.

— Essa mulher de novo!

— Fica quietinha, vó. Deixa ouvir direito como prepara.

A velha faz o sinal da cruz.

Na cozinha, ele guia. Ela obedece. A voz dita. As mãos tremem e aprendem ou aprendem de novo. Mexem juntos o arroz.

Há algo sagrado no gesto. Como se o amor, por instantes, remendasse a memória.

De repente, ela desperta.

— Falta canela.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Enzo procura e não acha.

— Acho que não tem.

— Tem sim. Eu pego.

— A senhora nem lembra mais onde ficam as coisas, vó...

— Era só o que faltava, Enzo. Essa casa ainda é minha, então não vou saber?

Ela recordou dele, da casa, do mundo. Foi até a despensa e voltou com o potinho. Finalizam o doce. Ela polvilha de maneira generosa.

Comem.

O dia amanhece.

A porta se abre. Maria Helena entra com o marido e as malas.

— Enzo? Mãe?

Ela sorri ao ver a bagunça na cozinha.

— Se divertiram.

O marido avança pelo corredor.

Para.

Congela.

Enzo e a avó estão no chão.

Imóveis.

Mortos.

Na cozinha, ao lado do pacote de miojo e da travessa de arroz-doce, um pequeno recipiente com farelo marrom. O marido reconheceu o raticida.

Mauricio Danielli

Premiado com um Emmy Internacional. Após décadas dedicadas apenas aos roteiros, escreve seu primeiro romance: "Chiclete para os Olhos". Na televisão, coescreveu novelas para a Rede Globo (como Mauricio Gyboski), tendo entre seus principais trabalhos Fina EstampaO Sétimo Guardião Império, vencedora do Emmy e de diversos outros prêmios como Extra, F5 Folha Uol, Quem, Contigo e Troféu Imprensa. Seus textos e roteiros foram exportados para mais de 30 países e traduzidos para outras línguas em remakes e adaptações, caso de Marido en Alquiler (Fina Estampa) na emissora hispano-americana Telemundo. 

No cinema, corroteirizou Crô, o Filme Águas Primaveris (em processo de captação), entre outros. Em emissoras regionais, destaque para a primeira minissérie da Ulbra TV, Parada 90, que escreveu e também dirigiu. 

Fez e recomenda o Curso Online de Formação de Escritores. Possui no portfólio projetos de séries, filmes, sinopses de telenovela e novelas verticais. Contato: