por Taíssa da Silva Daniel
|Observação: Esta história faz parte da linha do tempo de meu romance, "TODAS CORES", e traz um contexto que criei para o personagem Glesko, mas optei não estar diretamente no livro porque não caberia. Quem já tiver lido a obra, creio que deduzirá a fase que este momento se encontra.|
Trincar e separar. Uma bala de mascar estala entre os dentes. Sustentando o peso de um teclado sobre as costas, o rapaz de vinte e quatro anos avança arrastando os pés. A viela, bem espaçosa, vai se afunilando. As descidas se tornam mais complexas. Suas panturrilhas gritam, mas a atenção se volta a lembrar de pôr uma nova goma dentro da boca.
Crianças correm e gritam. Diferente do costume, hoje muitas buscam os adultos ansiosamente, sem fugas pelo desejo de não parar de brincar. Glesko instiga-se pelos comportamentos compreensíveis, afinal é dia dos pais. O canto de sua boca ameaça sorrir.
- Meu velho... Parabéns. Aí, no céu.
Ele continua caminhando, sem mais dar atenção a nenhuma das crianças pela frente.
O portão range alto à sua passagem. Glesko fecha os olhos por um instante diante da agressividade do som. Na porta da sala, surgem dois olhos negros, quase salteados. Um suspiro escapa de Glesko, sem aviso. É bom estar em casa e ter, mais uma vez, quem o espera.
- Pequetuxa. Descansou de seu agito, hoje?
- Por que você é assim, hein? Soubemos por noticiário que hoje é dia dos pais, aqui na Terra...
- Meu amor, eu não faltei a vocês... Não sei como dizer isso – engole a saliva a seco – mas não nasceu.
- Caramba, é burro mesmo, hein. – Mais dois olhos surgem à beira da porta, estes azuis, bolsas vermelhas os sombreiam. – Não é você que vive aí exclamando que é o nosso "papai"?
- O-ora! – A risada escapa-lhe. – É uma brincadeira, seus doidos! Como eu, com vinte e quatro, poderia ser pai de um marmanjo mais alto que eu, de vinte, e uma álla de dezoito anos!
Glesko enfim faz menção de derrubar o teclado do ombro, mas Greicy se apressa a ajudar.
- As coisas não precisam ter lógica. O que deveria, não tem.
Maiow faz sinal de se aproximar também.
- VOCÊ fica aí, peste!! Não vem não!
- É, Mai, vem não. – Greicy passa o instrumento para o seu ombro e retorna, passando pela porta, ao lado de Maiow. – Escute o seu "pai".
Os dois mostram a língua um para o outro. Glesko observa-os com o sorriso estampado. E então, sua cabeça move-se em negativa.
- Vocês dois não existem. Se eu soubesse, teria chamado para irem ao evento na Mannia's Show de hoje! Com o dia dos pais, foi bem movimentado.
- Ah...! Mas foi melhor assim. Se não, não montaríamos a nossa surpresa a tempo. – Greicy acomoda o aparelho ao chão, no canto.
- Surpresa? – Glesko penetra a minúscula sala e depara-se com um bolo sobre a mesinha de canto. – Pequetuxa, você fez um bolo de novo naquele forno?!
- Não!! – Seu rosto fica rubro. – Eu comprei.
- Glesko... – Maiow acaba interrompendo – O que você está fazendo por nós...divide a sua casa, se preocupa com cada detalhe... Pode ter certeza, nem eu e nem Grey tivemos um pai assim. Então, dane-se que você tem vinte e quatro anos, não é?
O dono da Mannia's Show coça a barba azul por diversas vezes.
- Não é nada... Essa casa voltou a ter alegria com vocês.
- E o presente? – Greicy olha apressadamente para Maiow.
- Presente? Não, vocês não precisam –
- Ficou na cozinha!
- Eu pego! – Ela aponta para o sofá, pedindo para Maiow se sentar.
- Eeiii, Ji e Frey, que sono todo é esse, moleques? – Enquanto aguarda, Mai faz carinho nos dois gatos, com extrema tranquilidade. – Estão crescendo...
Glesko toma de uma cadeira à mesa e se senta de frente ao bolo, muito rígido.
- Está aqui!! – Grey estica uma pequena embalagem envolvida em papel de presente. – Ué, sentou?
- Ah, era para esperar de pé?...
- Não fica com vergonha assim! Isso aqui é muito pouco ainda.
De volta a estar de pé, ele pega a caixinha com cuidado e começa a abrir.
- Para te dar contexto, Mai e eu observamos que não têm fotos suas com seus pais expostas em nenhum lugar desta casa...
- Daí, eu achei seu álbum de retratos no quarto; sim, deu trabalho.
- E providenciamos correndo hoje, esta luminária. Para você dormir todos os dias com os seus pais! – a álla aponta.
Glesko retira o objeto de dentro da caixa, que cresce de tamanho, ao ser liberado. Uma grande fotografia dele criança junto aos pais, começa a brilhar. Rapidamente, o presente cai das mãos dele. As pupilas se dilatam.
- Minha nossa! – A jovem se abaixa rapidamente, recuperando o item. – Meu Deus, não quebrou... Que mãos moles, hein?! – Seus olhares se encontram e só então ela percebe como o outro está paralisado. – Não gostou?
- Não... Na verdade... – As lágrimas são permitidas a escorrer. – Eu amei...
Greicy e Maiow se entreolham, antes de voltarem a atenção para o amigo, mais uma vez; enquanto ele torna a puxar, com carinho, a imagem para as suas mãos.
- Eu lembro deste dia...
Glesko se acomoda no sofá. O choro torna-se livre, junto à contemplação. O rapaz de cabelo loiro bagunçado a seu lado, analisa-o no silêncio.
- Me recordo um pouco dos tios, eram muito amorosos.
- Sim, eram sim...
Greicy também se senta no sofá, ao outro lado de Glesko.
- Cara. – A mão de Mai pousa de leve no ombro dele. – Está tudo bem. Não se preocupa. O luto tem diversas formas, entendemos que evita falar deles.
- É, Glesko...
- Não é bem isso... Caros!! Só o Dubin sabe. Não é que eu esconda. Hoje, ele está passando o dia com a família do namorado, é natural. Mas seria tão mais fácil para ele explicar...e ainda estão me olhando com estes olhos pidões...
- Ei, relaxa...
- Te fazer bem, é o suficiente. – Greicy segura a sua mão.
- Não é justo com vocês, meus bebês. – O homem respira fundo, apreciando os rostos dos dois, um a um. – Quando meus pais se foram, no acidente de carro, eu não estava com eles. Vivi uma péssima fase juvenil. Eles sempre ficavam preocupados, eram muito amorosos. E eu... A última vez... A última vez que nos vimos, enchi os dois de foras, e justamente por estarem zelosos, se preocupando comigo. Disse que não serviam para nada. Não atendi suas tentativas de contato. E dois dias depois, a polícia apareceu no meu código, aceitei o holograma só porque fiquei preocupado... E tudo já tinha acontecido, em uma simples ida para o trabalho.
Greicy deita o rosto sobre seu ombro, silenciosa.
- Fui um péssimo filho, não acham? – A voz embarga, misturada às lágrimas.
- Todos nós temos dias idiotas... – A voz um tanto rouca de Maiow falha um pouco – Tenho certeza que os tios sabiam disso.
- Eu tento... Eu tento "ligar" para eles todos os dias, em minhas orações...mas agora, não posso ouvir mais as suas vozes. Mas sei que estão aí...
A cabeça de Maiow também vem a repousar ao outro ombro do rapaz.
- Esta casa ficou vazia. Eu aceitei, a minha responsabilidade. E me afastei de qualquer fase panaca. Investi para abrir a Mannia's Show. Era o sonho de papai.
- E ganhou...dois filhos velhos a tira colo. – Greicy gargalha. – Exatamente, porque...o seu coração é muito "fofo", como diz, né?
- Escuta...seus pais com certeza entenderam... E agora estão muito felizes com o homem adulto e empreendedor em que você se tornou. E que ainda fez duas adoções simbólicas.
- Aaaah... Eu não mereço vocês. – Glesko apoia suas bochechas à cabeça deles, um por vez. – Fazem umas besteiras, mas têm sempre bons modos em casa.
- Nós tentamos. – O tom da álla soa alegre e ritmado.
E então, Maiow passa a sua mão por trás do outro, até chegar em Greicy, cutucando-a por diversas vezes, que ignora.
- Podem ter certeza que continuarei por vocês dois com todo o meu coração. E se precisarem, eu puxo as ore...
- AI!! – Greicy reage ao forte tapa em suas costas a partir de Maiow, depois de ignorar as insistentes cutucadas. – Seu palhaço, isso doeu!
- Do que está falando?
- Você...
- Ei, os dois, por favor...
- Eu não sei de nada, não percebe a tentativa de meus bons modos? – Maiow pisca para ela, cúmplice. À resposta, os lábios de Greicy esticam, como um bico.
- Já chega. – Glesko se levanta. – Vamos comer o bolo? Voltem ao momento aqui, sosseguem! – Ele estica o braço para ajudar Mai a se levantar, que precisa encurvar muito o corpo. – Depois, me ajudem a achar um espaço naquele quarto para esta foto linda. Muito obrigado!
Greicy pega seus dois gatos no colo e se levanta também. Os três se sentam à mesinha, partem o bolo enquanto conversam. Os raios de sol que vão abaixando, batem contra a janela, permitindo o laranja imperar. Entre uma mordida e outra, Glesko olha para a foto, ainda apoiada no sofá. Seus "velhos" ensinaram-no sempre a importância de cuidarmos uns dos outros. Espera que possam estar vendo-o com alegria, neste exato momento; e não mais transmitam a tristeza que observou, na última vez. Ser 'papai', às vezes, também é aprender com os próprios erros e cuidar para que o outro não caia. Feliz dia dos pais.
Carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança.
Escreve principalmente ficção dramática. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades. Em junho de 2026, concluiu o Curso Online de Formação de Escritores.