por Mauricio Danielli
HIC JACET
Encarou o prédio encardido, pintado de um azul celeste já desbotado. Ao lado, a funerária. Escolha da tia. Dizia que era por causa do bairro: Bom Fim.
Subiu, tocou a campainha. A porta se abriu: a tia, impecavelmente maquiada.
Na família, corria a história de que Zilá se maquiava até para dormir. Tinha coleções de camisolas, sempre pronta para um mal súbito. Queria estar apresentável caso fosse socorrida. Quem sabe por um príncipe da SAMU, que a beijaria numa reanimação salvadora. O peito tremeria, não de paixão, mas pela massagem cardíaca. Diziam que ela sonhava com isso.
Recebeu a sobrinha-neta em clima de festa. Era aniversário: setenta e três anos.
Os convidados eram, no mínimo, curiosos:
— Valdecir, coveiro do João XXIII.
— Iraci, uma das últimas carpideiras.
— Irmã Dolores, enfermeira da ala oncológica.
— Lurdes, que cuidava das capelas do Jardim da Paz.
— Dalvan, da funerária.
A sobrinha-neta mal teve tempo de reagir antes de notar o caixão no meio da sala.
Presente que a própria aniversariante se dera. Dalvan o trouxera no muque. Zilá exibia: madeira em arcos, estilo francês; tom cerejeira; verniz alto brilho; ferragens de artesãos de Montmartre. Tomou a mão da sobrinha-neta e a fez percorrer o cetim drapeado até um porta-joias de veludo.
— A senhora vai ser enterrada com joias? Vão roubar seu túmulo, tia.
— Jazigo, meu bem. Seguro. Granito, ferro fundido. Um anjo pranteador em pedra-sabão. Fiz até book para a foto eterna.
Entregou-lhe as chaves do apartamento:
— Regue meus cravos-de-defunto.
Falou do quanto adorava visitar cemitérios, necroturismo. Viajaria naquela noite para o interior. Havia um campo-santo que ainda não conhecia.
Antes de ir embora, a sobrinha-neta ainda foi puxada para os parabéns, os doces, toucinho do céu, papo de anjo e os parabéns, adaptados pela própria Zilá:
— Parabéns para você. Nesta data querida. Muitas felicidades. Que seja boa a partida!
O hotel era um corpo cansado: mofo, fios à mostra, paredes manchadas. Zilá não se importou. A necrópole prometia.
No check-in, explicou à recepcionista a origem de seu nome:
— Zilá significa "sombria".
Recebeu um sorriso protocolar e a chave.
No quarto, separou o vestido preto para o dia seguinte. Foi ao banho. Esqueceu os chinelos de caveiras mexicanas. Paciência.
Piso frio. Bolor. Abriu o chuveiro. Lavou-se. Ao fechar o registro, o choque.
Caiu no box.
Morreu nua, sem maquiagem, sem camisola, sem o beijo do príncipe socorrista.
Dalvan ajudou no translado.
Na capela, tudo estava pronto. Seu nome já decorava a porta. Lurdes arrumava as flores escolhidas: mosquitinhos, crisântemos, lírios, copos-de-leite. O ataúde, o mesmo, reluzente, aguardava. A vizinhança também, vestida para o cortejo. Iraci acessa as próprias emoções em busca do melhor ângulo para o choro copioso. Método Stanislavski. Valdecir com o jazigo aberto.
Mas, na estrada, o carro funerário colidiu com um caminhão de combustível.
Dalvan escapou. O cadáver de Zilá, não.
Foi cremada à força.
Chegou em uma urna, frustrando os planos, para desapontamento geral.
A sobrinha-neta dispersou curiosos, cancelou o velório, dispensou o sepultamento. As cinzas foram lançadas no Guaíba, entre dejetos da parcela não saneada da cidade.
No dia seguinte, as joias já estavam no prego, penhoradas na Caixa. A campa, à venda.
Zilá teria levado outro choque, se ainda estivesse viva.
Mas já era pó.
Flutuava, anônima, pelas águas turvas, à deriva da Ilha da Pintada.
Logo ela, que queria morrer maquiada.
Premiado com um Emmy Internacional. Após décadas dedicadas apenas aos roteiros, escreve seu primeiro romance: "Chiclete para os Olhos". Na televisão, coescreveu novelas para a Rede Globo (como Mauricio Gyboski), tendo entre seus principais trabalhos Fina Estampa, O Sétimo Guardião e Império, vencedora do Emmy e de diversos outros prêmios como Extra, F5 Folha Uol, Quem, Contigo e Troféu Imprensa. Seus textos e roteiros foram exportados para mais de 30 países e traduzidos para outras línguas em remakes e adaptações, caso de Marido en Alquiler (Fina Estampa) na emissora hispano-americana Telemundo.
No cinema, corroteirizou Crô, o Filme e Águas Primaveris (em processo de captação), entre outros. Em emissoras regionais, destaque para a primeira minissérie da Ulbra TV, Parada 90, que escreveu e também dirigiu.
Fez e recomenda o Curso Online de Formação de Escritores. Possui no portfólio projetos de séries, filmes, sinopses de telenovela e novelas verticais. Contato: