por Antonio Lima Jr.
Contra a realidade: a negação da ciência, suas causas e consequências (1. ed., Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2021. 185 p.).
"Contra a realidade" discute um tema de impacto no Brasil e no mundo — o negacionismo —, a partir da análise de questões fundamentais, históricas e atuais. Os autores do livro são Natalia Pasternak e Carlos Orsi. Ela, doutora em microbiologia pela USP, presidente do Instituto Questão de Ciência, professora convidada na FGV e na Universidade de Columbia (EUA), autora de livros e colaboradora de jornais e revistas. Ele, jornalista, escritor e fundador do Instituto Questão de Ciência. O livro é composto de nove capítulos, incluindo uma introdução denominada "O inimigo é a realidade" e um Epílogo.
Na introdução, "fato estabelecido" (dado bruto da realidade) é diferenciado de "consenso científico" (teoria que a comunidade de especialistas formulou e refinou). Os autores ressaltam que os consensos científicos são continuamente desafiados e o conhecimento assim evolui, naturalmente. Entretanto, o negacionismo científico critica o consenso científico com uma fundamentação frágil ou inexistente e insiste na posição adotada, mesmo depois de seus argumentos serem refutados. Muitas vezes está relacionado a grupos de interesse, tendências ideológicas e comunidades com forte senso de identidade. Não raramente, eles recorrem a teorias da conspiração, perversão das ciências, manipulação de dados e informações e até mesmo fraudes.
O episódio de Galileu Galilei é objeto do capítulo "Eppur si muove" e é tido como "exemplar na história dos negacionismos". Criacionismo, terraplanismo e personagens correlatas são abordados mediante fatos históricos, que vão desde o século XIV até os dias atuais. São discutidas as relações dessas atitudes com as crenças e ideologias de natureza religiosa, em cujos seguidores os comportamentos persistem, não obstante as evidências científicas modernas, o acesso às tecnologias de satélites e ao uso do GPS.
Nos "Inimigos de Darwin" ganha relevo o negacionismo relacionado ao criacionismo. Elementos representativos da evolução histórica do tema são resgatados e mais uma vez se observa o papel de grupos religiosos nesse tipo de negacionismo. Segundo os autores, "teorias científicas não são hipóteses" e a evolução "é um fato baseado em observação histórica" – não tem natureza preditiva. São apresentadas estratégias e práticas negacionistas, que têm por fim semear a dúvida e questionar o conhecimento científico, muitas das quais adotadas por instituições criadas com propósitos políticos ou econômicos.
O capítulo "A marca do cigarro" é um dos melhores e mais bem fundamentados, juntamente com os capítulos seguintes sobre vacinas e aquecimento global. A evolução do conhecimento sobre a associação entre o fumo e o câncer é apresentada com farta evidência. O leitor aprenderá o que é causa e correlação, essencial para uma melhor compreensão da causalidade das doenças. No caso do hábito de fumar, os efeitos tendem a só se manifestar décadas depois, dificultando o estabelecimento das relações de causalidade, favorecendo a controvérsia. Aí entram os mercenários contratados pelas grandes corporações, para questionar e pôr em dúvida o conhecimento científico. A atitude de cobertura "equilibrada" da mídia também contribui para a perpetuação do problema, pois trata os questionamentos de aspectos pontuais e as evidências científicas acumuladas historicamente como se tivessem pesos iguais, criando assim uma falsa percepção de que haveria uma "polêmica legítima".
No capítulo sobre vacinação ("Amigos de vírus e bactérias") é apresentada uma visão geral sobre a evolução das vacinas, a segurança proporcionada por elas e o impacto dos imunógenos na redução da mortalidade por diferentes tipos de doenças. Demonstra-se que os movimentos antivacinas são antigos, mas evoluíram e na atualidade causam graves prejuízos à saúde pública. A contribuição do sensacionalismo dos meios de comunicação é mencionada. Merece destaque o episódio de um artigo publicado por um médico na revista "The Lancet" em 1998, associando a vacinação contra sarampo, caxumba e rubéola (MMR, a tríplice viral) a sintomas de autismo, o que posteriormente se provou ser uma fraude – o médico fora contratado por um advogado, no intuito de processar o fabricante da vacina. Ele foi considerado culpado de má conduta profissional grave, desonestidade e fraude científica; a revista retratou o artigo ("despublicou"); e a licença do profissional foi cassada. Porém, até que tudo fosse provado, celebridades e movimentos antivacinas utilizaram o artigo (e ainda usam, entre desinformados) para atacar a vacinação, com graves efeitos para a saúde pública, especialmente por induzir quedas nas coberturas vacinais e subsequentes surtos de doenças – que causaram a morte de muitas crianças.
O aquecimento global é tratado em "O calor do momento". À semelhança dos negacionistas dos malefícios do fumo e dos movimentos antivacinas, os negacionistas do aquecimento global decorrente da ação humana usam estratégias para gerar dúvidas e controvérsias. As grandes corporações com interesses econômicos na questão criam e patrocinam instituições dispostas a negar a relação entre a ação humana e o aquecimento do planeta, não obstante tal relação ser estabelecida por inúmeras evidências científicas e históricas, tudo isso analisado por um painel com centenas de cientistas de todo o mundo. É mencionado até mesmo um Nobel de Economia que defendia não ser necessário fazer nada para deter as emissões de carbono, pois os mecanismos de mercado equacionariam o problema. Merecem destaque a difamação, as ameaças contra cientistas e o recurso às teorias da conspiração, usados como armas para atacar as ciências, além da "grave complacência midiática".
O único capítulo para o qual tenho ressalvas é "Os genes de quem?", em que é tratada a temática dos transgênicos. São apresentados argumentos favoráveis aos organismos geneticamente modificados, quanto à segurança para a saúde dos consumidores e aos benefícios decorrentes da maior eficiência, menor emissão de carbono, menor consumo de água, menor uso de área de plantio e redução no uso de pesticidas.
Entretanto, a temática dos transgênicos merece uma análise mais abrangente e que ao leitor pareça menos parcial. Considero inadequada a afirmação dos autores de que "O câncer é uma soma de fatores, um jogo de azar [...]" (grifo nosso). Assim correm o risco de fornecer combustível para os negacionistas, pois tais pessoas e grupos argumentam não ser possível provar a associação entre câncer e fumo ou entre ação antrópica e o aquecimento global – afinal, seria tudo "um jogo de azar", dependendo inteiramente do acaso, não fazendo sentido apontar uma causa. Ocorre que a epidemiologia dispõe de metodologia e ferramentas analíticas robustas para estudar as relações causais entre o fumo e o câncer, como faz com tantas outras causas.
No tocante aos transgênicos, o mais importante, porém, é a existência de outros elementos, que merecem tratamento mais aprofundado. É isso o que farei a seguir.
São exemplos de fatores a serem considerados na discussão sobre os transgênicos: socioeconômicos (agricultura familiar e permanência das famílias na terra e fora dos grandes centros urbanos); político-ideológicos (a legitimidade da escolha de consumir produtos orgânicos e não transgênicos); e estratégicos (deveríamos aceitar os riscos da dependência de um limitado número de tipos de alimentos e das tecnologias de propriedade de grandes corporações estrangeiras?); além de aspectos ambientais e ecológicos (a importância do uso de sistemas agroflorestais na recuperação de áreas severamente degradadas pelas práticas agrícolas tradicionais – com graves impactos ambientais e socioeconômicos nas regiões afetadas). Esses e outros fatores mereceriam ser abordados com a suficiência requerida para o tema, tendo em vista as consequências potenciais de ignorá-los na discussão.
Logo, ainda que reconheçamos os argumentos sobre os benefícios dos transgênicos que são defendidos no livro, isso não implica detratar, excluir ou negar a importância de soluções alternativas. Nem se pode deixar de dar a devida importância ao fomento da preservação da variabilidade genética nas diferentes localidades, regiões e países, que na prática pode ser afetada pela política de transgênicos. Tampouco se pode deixar de admitir a legitimidade do anseio de consumir produtos orgânicos, cultivados livres de agrotóxicos e adubos químicos. E tudo isso persiste ainda que admitamos serem as soluções alternativas menos eficientes do que os transgênicos.
Não parece apropriado considerar que aspectos econômicos ou de eficiência (inclusive de carbono) sejam os únicos ou principais referenciais para a análise da questão dos organismos geneticamente modificados. Do contrário, corre-se o risco de adotar atitude semelhante à do economista citado no próprio livro, laureado com o Nobel de Economia, que defendia serem os mecanismos de mercado suficientes para solucionar o problema do aquecimento global – mas o tempo passou e os problemas só se agravaram. A depender das perspectivas de análise nos âmbitos político e econômico predominantes na atualidade, continuaremos a ignorar problemas de alta relevância, ou adiaremos tanto quanto possível a solução, tal qual fizeram os defensores da indústria do tabaco.
Cabe lembrar que não se pode dissociar a disseminação do uso de transgênicos da ideia de dependência tecnológica e da dependência das variedades de plantas (ou animais) fornecidas pelas grandes corporações.
Durante a pandemia de covid-19 vimos que os poucos grandes laboratórios produtores de vacinas para a prevenção da doença ditaram as regras de quem recebeu ou deixou de receber as vacinas (nas quantidades necessárias), quando receberam e a que preço. Muitos países pobres não podiam e continuam sem poder pagar os altos custos das vacinas de tecnologias avançadas e não têm poder de barganha. E mesmo em países que receberam as vacinas não se controlam adequadamente os danos de uma pandemia se determinadas populações vulneráveis permanecerem desassistidas, mesmo que sejam pessoas que vivem em outros países (veja-se o caso da reintrodução do sarampo no Brasil, na mesma época da intensa circulação de imigrantes venezuelanos em Roraima).
Além disso, é bom recordar que a dependência da batata levou à morte de 500 mil a um milhão e meio de pessoas na Irlanda, devido à fome, no século XIX, com posterior emigração em massa para outros países, o que ocasionou inúmeros problemas em escala mundial. Mesmo que outros condicionantes socioeconômicos e políticos estejam presentes em tais desastres humanitários, não se pode dissociar o planejamento e o resultado da produção agrícola dos riscos relacionados à dependência.
Deste modo, por melhores que sejam os transgênicos, não seria prudente depender deles, descartando alternativas menos econômicas ou eficientes. Quanto maior a dependência relativa a determinado alimento ou produto, maiores são os riscos que corremos todos nós e maiores tenderão a ser os impactos decorrentes de determinadas ocorrências. Enfim, há muitos aspectos essenciais para uma discussão bem fundamentada e equilibrada sobre os organismos geneticamente modificados, os quais não podem ser desprezados ou tratados como acessórios.
Devido às razões anteriormente expostas, considero parciais e insuficientes as análises do capítulo sobre organismos geneticamente modificados do livro "Contra a realidade".
Retomo a análise dos capítulos, após a extensa abordagem sobre transgênicos. Em "Holocausto" os autores apontam o caráter perverso da negação do genocídio ocorrido na Segunda Guerra Mundial, não raramente com argumentos apoiados por professores e determinados estudiosos. As estruturas falaciosas utilizadas são similares àquelas dos outros negacionismos. Aqui eles são enfáticos: "Sem contraponto, as mentiras crescem, ganham força" (grifo nosso) e "Não se pode relativizar a verdade", mesmo que ela seja dolorosa.
Por fim, no Epílogo, os autores concluem que é preciso compreender as causas do negacionismo, o qual procura gerar confusão no debate, paralisar a tomada de decisões, embaraçar as políticas públicas, fazer atitudes irracionais parecerem razoáveis aos olhos dos incautos e fomentar a consolidação de grupos coesos e ideologicamente solidários em torno de certas causas compartilhadas. E a melhor maneira de enfrentar o problema é evitar que as pessoas caiam na armadilha, já que depois será mais difícil libertá-las.
Concluindo, opino que a leitura de "Contra a realidade" é recompensadora, considerando as credenciais dos autores e as virtudes do livro, que me trouxe muitas informações e conhecimentos novos. A escrita é clara e fisga o leitor. Fica a sugestão para os editores terem em conta as ressalvas apresentadas aqui, em edições futuras.
Antônio Lima Jr. escreve contos, crônicas, resenhas e outros textos sobre a vida e nossas relações com o dinheiro.
Fez o curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose, com Marcelo Spalding, e frequentou as oficinas literárias de Raimundo Carrero e de Paulo Caldas, no Recife, e a de crônicas de Rubem Penz, na Oficina Literária Santa Sede. Tem formação de Coordenador de Laboratório de Leitura pela Casa Arca, com o professor Dante Gallian — método que propõe a humanização por meio da experiência estético-reflexiva da literatura clássica.
Participou de diversas coletâneas e antologias, a exemplo das publicadas pela Santa Sede Editorial, pela Editora Metamorfose e pela Oficina Literária Paulo Caldas, e ainda do Selo Off Flip: as antologias Nordestes e Terra, e o Prêmio 2024, com quatro textos entre os destaques das seleções, em conto e crônica. Prepara o primeiro livro solo.
Advogado e doutor em Saúde Pública, foi professor de ensino superior por cerca de 25 anos e auditor federal de finanças e controle por 20, hoje aposentado. É educador financeiro (DSOP) e cursa formação em Terapia Financeira Integrativa, pelo IPPLA.
Sua escrita é fundada numa ideia: "A vida se completa quando há propósito, e o dinheiro pode ser ponte ou abismo entre os dois."