por Rita Paldes Faria
Sabia que não era mais tão jovem. Sua pele já ressecada e enrugada não deixava dúvidas das agruras passadas e havia marcas de solidão nos sulcos profundos. O tempo se encumbiu de esculpi-las e no olhar as lembranças de um longevo tormento pesavam suas pálpebras insistindo em pesar na lei da gravidade todas as angústias reprimidas. Morava sozinha e não tinha tido filhos, a fertilidade não lhe fora permitida, seja pela falta de parceiros compatíveis ou pelas suas dificuldades com o sexo oposto. Não que não sentisse desejo, mas este nunca fora concebido fora do casamento e essa era uma palavra que não fazia parte do seu dicionário. E agora, afinal, quem iria desejar esse corpo cheio de próteses, cânulas e aparelhos acústicos? A ela não cabiam mais os mundos da sedução e do romantismo.
Moradora do Leme saía de casa para sua costumeira compra semanal arrastando os passos, tropeçando nos buracos existentes, numa via crucis por vezes dificultosa e dolorosa para os seus joelhos cansados. Num dia, de repente, dá-se conta que não sabe mais para aonde está indo. Confunde as lojas e a farmácia que lhes eram tão familiares. Onde elas estão? Mudaram-se? Continua a procurar, a caminhar e num instante depara-se com o mar. Chegou até o calçadão sem perceber. Eu moro aqui? Indaga-se e procura febrilmente uma explicacação com o calor sufocante atrapalhando seu raciocínio... "Acho melhor eu voltar pelo mesmo caminho", pensou, mas com sua dimensão espacial incorreta acabou desgovernada no acesso ao morro da Babilônia. Deparou-se com as escadarias e previu: só me resta subir. Um meliante a interpela e se posta bem a sua frente armado:
- Vai aonde vovó?
- Não sei? Acho que na casa da minha amiga Mariazinha...
- Que Mariazinha. Coé. Aqui tem um montão de mulhé com esse nome e você não pode ir circulando por aí como quem não quer nada! Isso aqui tem dono, tá ligada?
- Eu não sei... Estou confusa, acho que é a esposa do Manuel da padaria...
- Papo reto vovózinha, fala tu, de boa, aonde quer ir? Completou sacando a pistola.
- Por favor, sem violência, estou perdida!
- Então dá meia volta, pega a visão...
- Você poderia me levar em casa?
Esse pedido o desconcertou. Era acostumado a dar ordens e não de ser obedecido. Mas teve pena dela e a acompanhou. No caminho falavam de fome, miséria, condição social, das mazelas da vida, mortes e desencantos. Chegando a casa ela lhe deu água, comida e num gesto de profundo agradecimento cogitou: Voce quer ser meu ajudante para compras, farmácia e tudo o mais? Ele pensou, ficou na dúvida entre o fácil e o difícil, mas aceitou. Passou a ir uma vez por semana, depois aos finais e por fim, todos os dias, mes a mes, ano a ano. Aprendeu com ela a ler e fazer pequenas contas. Passaram a morar juntos. Apaixonaram-se, casaram-se e hoje ele é Formado e Pós Graduado em Direitos da Pessoa Idosa e Gestão Gerontológica.
Natural do Rio de Janeiro, gaúcha de coração, gremista e artesã. Atua na escrita literária com foco em prosa curta, crônica e textos de caráter poético-reflexivo.
Participou do Curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose, entre julho e novembro de 2021, onde fez parte da Coletânea de Volta Aos Anos 60. Em 2022, integrou o Aperitivo Santa Sede, com Rubem Penz.
De julho a novembro de 2025, participou do Grupo Avançado de Leitura e Escrita Criativa on-line, da Editora Metamorfose, sob orientação de Ana Mello.
Conquistou o 3º lugar no Concurso Érico Veríssimo, promovido pela Academia Literária Feminina do RS, na categoria crônica. Foi semifinalista do Prêmio Literário Primavera Eterna, na categoria Fábula e Parábola, pela Editora Typus.
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