por Dua Araújo
Transportar uma história das páginas de um livro às telas do audiovisual não é um simples copiar e colar.
A questão central não trata de discutir fidelidade à obra original ou decidir qual linguagem é superior: o foco está na transformação. O que muda quando a narrativa deixa de se organizar exclusivamente na palavra e passa a ser organizada na linguagem da imagem e do som, sua forma, seu ritmo e sua construção. Ao atravessar linguagens, a história precisa negociar novas regras de composição, novos limites e novas possibilidades.
Se essa transformação parece, à primeira vista, uma questão técnica, ela se revela mais complexa quando observada por quem atua nesse deslocamento na prática. Na escuta da roteirista e estrategista de marketing Raquel Koch, a mudança de meio não se limita à adaptação de cenas, mas envolve uma reconfiguração da própria lógica narrativa — do que se mostra, do que se silencia e da forma como o público experimenta a história.
Como observa Raquel Koch, "são linguagens diferentes de comunicação. No texto literário, nosso único apoio imagético é a narrativa; já no roteiro, temos o áudio e o visual como formatos narrativos". A mudança, portanto, não é apenas de formato, mas de organização de narrativa.
Na literatura, a imagem não é dada: ela depende inteiramente da palavra e é construída ativamente pelo leitor. Como observa Wolfgang Iser, o texto literário se completa na imaginação de quem lê.
No audiovisual, ao contrário, a imagem é apresentada pronta – e isso altera profundamente a forma como emoção e ritmo são percebidos. A experiência não é medida apenas pela palavra, mas organizada pela combinação de som, luz, enquadramento e montagem. A história passa a existir em um campo sensorial compartilhado.
O tempo na literatura também é afetado por esta mudança e é negociado com o leitor. A cena pode se estender por páginas ou se condensar em poucas linhas; um instante pode ocupar capítulos inteiros. Como observa Gérard Genette ao tratar da duração narrativa, o tempo do discurso não coincide necessariamente com o tempo da história. O leitor pode pausar, reler acelerar ou demorar-se em um parágrafo ou até mesmo uma frase. O ritmo neste caso, é construído pela linguagem e pela experiência de leitura.
No audiovisual, ao contrário, o tempo é estruturado pela montagem. A duração de uma cena, a pausa entre as falas, o corte de um plano para outro obedecem a uma organização externa que conduz a experiência do espectador.
Aqui, a observação de Raquel torna-se decisiva. Como ela mesma aponta, "dentro do contexto de um filme ou uma série, o tempo é limitado. Por isso, precisamos escolher as relevâncias visuais para que esta história seja contada - e, inevitavelmente, escolhas precisam ser feitas".
Essa reorganização do tempo revela algo ainda mais profundo: ao atravessar linguagens a história deixa de pertencer a uma única instância criativa. No audiovisual, ritmo e duração não são apenas decisões narrativas, mas escolhas compartilhadas entre diferentes áreas. A narrativa se desloca da página para um espaço de negociação coletiva, onde múltiplas mãos interferem na forma final da experiência.
Há ainda uma mudança na instância criativa. Enquanto a literatura pode ser um território predominantemente individual, um universo todo que você cria na sua cabeça e transcreve o que a sua imaginação faz brotar, o audiovisual é coletivo. "Roteiro é um trabalho conjunto com as demais áreas criativas", afirma Raquel.
Ao final, a roteirista sintetiza sem hierarquizar: "Um não é melhor que o outro, há limitações e cria-se a partir das mesmas."
A passagem da página para a tela, portanto, não representa perda ou superioridade, mas reorganização. Ao mudar de linguagem, a história não apenas se adapta – ela se transforma naquilo que cada sistema permite que ela seja.
Larissa (Dua) Araújo é escritora e líder em estratégia de marca. Transita entre literatura e negócios, explorando a palavra como território de identidade e valor.