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Dançando para lembrar

Dançando para lembrar

por Magda Rodrigues de Souza

Dançando para lembrar

      Durante o giro no meio da roda Saian não conseguia definir os rostos das pessoas que estavam ao seu redor, na maioria mulheres. No final de sua performance na aula de dança afro, desafiou o professor, que ao entrar no circulo,  ergueu os braços para o alto, deu três passos para um lado e três passos para o outro lado de forma ritmada. A postura altiva lembrou-lhe a majestade de um rei. E a batida forte do pé no chão, no final do deslocamento, parecia a de alguém que demarcava um território.

     Saian estava nas aulas de dança para conectar-se com a sua ancestralidade. Não imaginava que faria um profundo processo de autoanálise e retorno ao passado. Lembrou que usou os seus encantos para adquirir conhecimento quando as mulheres não tinham qualquer direito, assim foi aprendendo com os homens o que precisava saber para adquirir armas, proteção e alimentação para os seus nove filhos. Teve casamentos e relacionamentos com homens poderosos, guerreiros implacáveis. A sobrevivência exigia determinação, ainda mais quando existiam vulneráveis sob sua proteção. Um dos seus maridos não permitiu que ela levasse seus filhos no momento da separação, antes de fugir deixou com eles um objeto mágico, um par de guampas de búfalo, para que esfregassem as mãos nelas sempre que estivessem em perigo, assim ela retornaria para ajudá-los. Adquiriu poderes sobrenaturais e começou a lembrar de todos eles. Um deles era fazer vento. Não sabia como conseguiu fazer tantas voltas sem cair na aula de dança. Quando instigou o professor a dançar o movimento que ele evocou fez com que o tempo se manifestasse de outra forma, quase parando.

    Nos dias comuns trabalhava dando aulas de história para adolescentes. Considerava uma tarefa desafiadora, por isso, inventava maneiras de tornar conteúdos teóricos em projetos nos quais todos tinham um papel na construção do conhecimento. No meio da organização de peças de teatro ou gincanas se arrependia de provocar tanta confusão e reviravoltas num espaço de ensino que zelava pelo comedimento durante as aulas, mas também se divertia com a animação de todos e no final do processo tinha a certeza de estar seguindo em frente com os conteúdos programados para cada ano.

      Foi dançar, porque queria fazer algum exercício físico e sair de casa para algo que não fosse o trabalho, achava que poderia ser emocionante e depois de tantas leituras relacionadas ao seu oficio, era importante treinar outras partes do corpo. Conhecer pessoas também era o seu objetivo. Na primeira aula verificou que as mulheres eram a maioria. Nos últimos tempos predominavam em vários ambientes. O que faltava para que dominassem o mundo? Talvez estivesse perto disso, já que muitas estavam sendo mortas. Começavam a representar perigo para os maridos, ex-maridos e namorados. Deveria existir no meio de tantas, algumas paladinas que fizessem justiça —  argumentava consigo.

     Quando saiu da casa dos pais para morar sozinha, em pouco tempo decidiu que não iria casar ou morar com alguém. Vivia no seu apartamento com algumas plantas, nem um gato ela tinha — dissera a mãe. Era uma mulher sem pets com um passado longínquo bastante tumultuado, talvez fosse esse o motivo do seu cansaço.

    Um dia percebeu que a dança, estava dando-lhe ânimo, força e resistência física. Num sábado, final de mais uma aula, formou-se o circulo de alunos e todos foram convidados a fazerem qualquer movimento da dança no centro dele. Na vez de Saian ela entrou contrariada, sem saber o que fazer, resolveu girar e enquanto girava tudo foi ficando disforme. No turbilhão de energia, as cadeiras e objetos começaram a voar no espaço da sala, as pessoas conseguiram rastejar para fora e permaneceram deitadas no chão. O céu escureceu, trovoadas anunciavam tempestade, quando os raios riscavam as nuvens, ela foi diminuindo o remoinho. No meio da sala o professor de dança erguia um oxê.

 

 

Exercício proposto pela professora Cláudia Roesler, modelos de reeleitura do mito, no Curso de Mitologia e Literatura. 

Bibliografia: Prandi, Reginaldo, Mitologia dos Orixás, SP, Companhia das Letras, 2001.

    

    

    

      

    

Magda Rodrigues de Souza

Magda Rodrigues de Souza nasceu em Porto Alegre. É formada em história pela PUC/RS. Participou de oficina literária do programa de pós-graduação em letras na mesma instituição e do curso de formação de escritores da Metamorfose. Fez parte de coletâneas de contos. Publicou a novela infantojuvenil Irados naTábua em 2017 e os livros de contos Formas de Existir em 2021 e Lá Todos Continuavam Vivos em 2023.