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Das Profundezas

Das Profundezas

por Marina Mainardi

Das Profundezas

 

Quando sente o chão cedendo sob seus pés, nem dá tempo de registrar o que aconteceu. Num segundo, Vera está pegando o equipamento para raspar amostras da superfície rochosa, e no próximo, tudo está se mexendo. Depois de todos os deslizes e batidas, sua bunda acerta o chão pela última vez, então tudo para. 

Coração querendo bater para fora do peito, continua deitada por um instante. Fragmentos pontiagudos cutucam suas costas através do traje de pesquisa. Diferente dos grossos trajes protetores para explorações profundas, este não é mais do que um casaco de inverno — só que com vários bolsos, e o símbolo do Instituto bordado no peito. 

Ela move os dedos das mãos e dos pés, subindo aos poucos para testar o resto das articulações. Alguns arranhões e hematomas, mas nada quebrado. Senta devagar e abre os olhos. 

A escuridão é tão absoluta que por um momento não tem certeza se de fato os abriu. Leva a mão ainda trêmula ao rosto. Mesmo próxima o bastante para encostar na ponta do nariz, não vê nada. Um acidental dedo no olho é a única prova de que estão abertos. 

Na superfície já era bastante escuro, mas nada se compara a onde ela se encontra agora. Lá em cima, na entrada da caverna, ainda tinha alguma claridade vinda dos farois do jipe. Eles iluminavam os arredores há uns metros de distância, "mais do que suficiente durante o dia", ela pensou quando desceu do carro. 

Olha para cima. Seja lá de onde caiu, deve ter sido bloqueado quando tudo desabou. Não consegue ver nada, sequer um resquício de luminosidade da superfície. É difícil até de acreditar que o sol brilha em algum lugar lá fora. 

Ergue a mão instável para a lanterna de cabeça, que cai torta em sua testa. Pressiona o botão algumas vezes, nada acontece. Pressiona mais forte. Nada. Bate na parte da frente com a ponta do dedo, a unha clicando contra o plástico.

— Marcus? — chama com a voz trêmula. 

É pouco mais que um sussurro, mas ecoa através da câmara. Sente-se cada vez mais vulnerável, desprotegida no que parece ser uma abertura de tamanho considerável. Marcus estava bem ao seu lado, não estava? Teria caído também? Ou pode ser que esteja a salvo lá em cima, com as duas mochilas e — mais importante — os telefones? 

Vera se ajoelha e começa a tatear ao redor. Não encontra nada além da umidade da lama, que já cobre quase toda sua roupa (é impermeável, mas não impede o frio de envolver seu corpo). Respira aliviada por não encontrar o corpo do amigo. Se por um lado está sem água ou comida, por outro, existe a esperança de que Marcus tenha sinal e possa chamar ajuda. Não tem um longo alcance nessa área, mas ele estava com as chaves do carro. Vera nunca conseguiria sinal aqui, tão abaixo da superfície rochosa. 

Rasteja pelos arredores mais um pouco, até sentar em uma pedra quase lisa. Respira fundo. Seus colegas sabiam onde estavam indo e por quanto tempo. Conforme as regras, notificaram o Centro de Pesquisas. (Respira fundo). Justamente por ser uma área desconhecida e considerada instável. Rotas de trânsito normais não passam mais por aqui. (Respira menos fundo, tentando não hiperventilar). 

Nunca teve medo do escuro. Mas também, nunca esteve em um escuro como esse. Está tão fundo dentro da terra, duvida que alguma luz já tenha tocado essas paredes.

E não é apenas o escuro que a perturba. Mais do que isso, são as toneladas de silêncio que preenchem o lugar. 

Ou quase. O único ruído é algum tipo de borbulho molhado que ecoa de tempos em tempos. Deve haver piscinas subterrâneas, pensa; precisa tomar cuidado. Não que ela sinta falta dos ratos ou morcegos, mas começa a considerar se não é quase pior não ouvir nenhum animal rastejando pelos cantos. Ou talvez estes sejam só mais silenciosos. 

Esparrama as palmas abertas contra o chão úmido, dedos espalhados na fina camada de lama, e deixa a cientista nela tomar as rédeas (e afastar o medo) por um breve momento. As pesquisas são recentes demais para dizer se algum animal habita aqui. Mas Vera imagina se é assim que se sentem essas criaturas – tão expostas e escondidas ao mesmo tempo. Pergunta-se que tipo de vida, além de bactérias, teria sucesso num ambiente desses. Como os peixes estranhos que habitam as fendas mais profundas do oceano. Afinal, por que não haveria um a? 

O que foi isso? Seus pensamentos param nos trilhos. Um estalido úmido. Como alguém pisando em uma esponja molhada. Fica imóvel feito as próprias rochas e aguça os sentidos. O som não se repete, mas... Esfrega as mãos nos olhos, esquecendo da lama que as cobre – uma luzinha bem fraca, piscando há uma distância difícil de calcular. Sacode a mão em frente ao rosto para ter certeza, e o ponto ainda cintila e some entre seus dedos. Não parece um truque da visão. Parece mais... 

— Marcus? — pergunta com urgência. 

A pequena luz arredondada é débil e falha um pouco, mas se assemelha muito a uma lanterna de cabeça. Deve ter sido danificada na queda. Sente o coração afundar. A esperança de que o amigo estivesse lá fora, chamando por ajuda, se esvai. Mas ainda assim, há certo alívio por não estar mais sozinha. 

— Marcus, você está bem? 

Sua voz consegue soar um pouco mais firme, mas não se sente confortável em erguê-la demais. Parece errado perturbar o silêncio onipresente. 

— Como você foi parar tão longe? — insiste. 

Tem medo de que esteja ferido. Não está respondendo, e não parece estar se aproximando. Com um aperto no estômago, torce para que não tenha batido a cabeça. A luz está tão fraca que não consegue iluminar nada. Podia ser uma luzinha de natal quebrada que não faria diferença. Pode distinguir apenas a vaga silhueta de seu corpo, talvez apoiado em uma parede. 

— Fique parado aí, ok? Vou tentar chegar até você. 

Ele não diz nada. Mas a lanterna dá impressão de se mover ligeiramente para cima e para baixo, então toma isso como um sim. Ou espera que seja um sim, e não ele tendo problemas em manter a cabeça erguida. 

O solo está meio escorregadio, mas não parece muito irregular. Coloca-se de pé com movimentos cautelosos, e arrisca um passo adiante. Os dois braços vão estendidos à frente, prontos para sentir as paredes próximas ou aparar uma possível queda. 

O progresso é lento, mais como um deslizar dos pés do que de fato caminhar. Não encontra grandes percalços no trajeto – só algumas pedras pequenas, que chuta para o lado. Chama por Marcus mais uma vez, e a lanterna se mexe de leve.

Quando está quase ao seu alcance, a luz faz um movimento abrupto para baixo, e Vera tem certeza de que ele está desmaiando. Sem pensar duas vezes, dá um passo largo em sua direção que quase lhe tira o equilíbrio. Seus braços já esticados seguram a forma logo à frente, e sente mãos a agarrando de volta. 

— Te peguei! Tudo bem? — Ele para de cair, e seus dedos se fecham com mais força na pele de Vera. — Não aperta tanto. Eu te ajudo a sentar. 

Mas ele não faz nenhuma menção de abaixar. Muito pelo contrário; a luz, antes quase apagada, começa a brilhar com mais intensidade, e se ergue devagar até parar acima de sua cabeça. 

Todas as perguntas morrem na garganta. Em sua trajetória, a luz mostrou um vislumbre de quem a pegou. Ou do quê a pegou. 

Vieram descobrir se havia vida num lugar desses. E de que tipo seria. O que ela pode dizer é que sim, há vida. 

Mas por deus, queria que não houvesse.

Marina Mainardi

Completou a Formação de Escritores da Metamorfose, e está atualmente cursando a Formação de Revisores. Bacharela em Ciências Biológicas pela UFRGS, e decidiu transformar essa carreira em hobby e seu hobby em carreira. Participou de seis coletâneas de contos, a mais recente foi com o evento "Tu, Frankenstein - Nova Era" (2025).

Escreve nos gêneros de horror e fantasia, com um pouco de morte e um tanto de humor em tudo que escreve.

Seu livro de estreia, "A Única Certeza é a Morte", foi premiado pela Odisseia de Literatura Fantástica 2022 na categoria Narrativa Longa Fantástica.