por Letícia Almeida
Desabafo de uma mãe
Hoje o dia amanheceu diferente. Estou sozinha. Sem definição da rotina, sentei-me na poltrona de leitura há tempos não usada. Estiquei as pernas sob o banquinho, puxei um lençol que me acolheu. Abri um livro de contos, escrita intensa, sem pudor. Me inspirei.
Abri o notebook e estou a digitar essas palavras. Escrevendo o que vai imergindo de mim. Há quanto tempo não me permito apenas ser? É um texto sem propósito. Vejo o quadro na parede a minha frente. Acima o da menina, sentada com pernas em borboleta, sorrindo para a câmera. Linda, uma boneca. Abaixo, a foto do menino, de perfil, olhar confiante, lábios com um meio-sorriso. Eu parí mesmo essas duas crianças? Confesso que as vezes parece não ser verdade. Em momentos como esse, envolta em minha solitude, questiono quem fui no passado, decisões tomadas baseadas no que esperavam de mim e não em quem realmente era. Por anos convivendo com esse enigma, de não saber quem era, do que gostava, apenas seguindo o sript de algo socialmente aceito. Porque fazemos isso, se nem ao menos encontramos satisfação no final?
Percebo que seguir esse roteiro não me tornou autêntica, muito menos feliz. As crianças cresceram e não me veem como a boa mãe que tentei ser. Buscando fazer diferente, repeti erros ancestrais e estou colhendo os mesmos frutos que um dia rejeitei. Tentando acertar, repeti padrões arraigados em meu ser. Me culpo, me perdoo, me culpo novamente, procuro entender mais uma vez o não-compreensível. Já perdi a conta de quantas vezes tentei.
É como um segundo nascimento. Dessa vez com verdade, vulnerável, imperfeita. Fui o que dei conta de ser. Serei o que for possível também. Chega de cobranças, a vida já é tão hostil e o abraço sempre me faltou. Sem acolhimento, aprendi a ser grande enquanto ainda não tinha maturidade. Reclamar e chorar não era permitido, a culpa sempre voltaria a ser minha. Quem mandou?
Vejo que ser mulher e ser mãe não são papéis dissociáveis. Somos uma só, inteiras na forma em que nos construímos ao longo da vida. Olho novamente para as crianças do quadro a minha frente. É isso. Foi o que deu pra fazer. Desculpa qualquer coisa.
Letícia Almeida é brasileira, paulista de nascimento e brasiliense de coração.
Vive em Brasília desde 2012 onde atua como enfermeira.
Também formada em psicanálise, encontrou na escrita um meio de expressar sua criatividade aliada a uma forma peculiar de vivenciar os mistérios da vida.
Autora dos contos MATCH DE AREIA, publicado na coletânea Toda forma de amor, ASA RASGADA, publicado na antologia Enquanto houver sol e MALA VAZIA, publicado na antologia TRAVESSIA, Letícia Almeida estreia com seu primeiro romance.
"Mulheres de água doce" é um romance com raízes indígenas ambientado em Alter do Chão, no Pará, que conta a história de cinco mulheres unidas pelo fio invisível da existência e conectadas pelo rio Tapajós. Uma história de força, superação, preconceito e cura através das gerações.