por Rachel Bueno
– Esse livro é grande, você não vai conseguir ler – afirmou um colega com acidez.
Sem se deixar intimidar pelas palavras desencorajadoras, o garoto respondeu com os olhos cheios de paixão: – Mas eu quero.
Dentre as crianças do sexto ano, com idades entre 11 e 12 anos, havia o Bento, com 14. Destoava do grupo, pela idade, estatura e cor, mal sabia ler e escrever, era motivo de chacotas. Um dos muitos meninos vendedores de limão nos semáforos do centro da cidade, saía de casa com o dia amanhecendo. A tarde ia para a escola. Tarefa difícil quando se é criança, sem direito à infância, precisando trabalhar desde cedo na tentativa de conseguir dinheiro para sustentar a família.
De origem muito pobre, pai ausente, mãe trabalhando como diarista de vez em quando, quatro irmãos menores, trabalhava para sobreviverem. Mesmo assim, a mãe insistia: - É preciso estudar.
Na periferia da grande cidade, onde pobreza e falta de assistência eram companheiras, a professora teimava em ensinar às crianças a ler e escrever. Os incentivava a observarem o mundo em seu entorno e apresentava–lhes as maravilhas acessadas através dos livros, tarefa inúmeras vezes sem o menor sentido para quem só ouvia o som do estômago roncando de fome.
Na escola, Bento era considerado aluno problema, pois, além das dificuldades de aprendizagem tinha a chamada indisciplina, não parava um minuto, o tempo todo ria, brincava, provocava os colegas.
O momento mais esperado por ele era o recreio, onde corria, pulava, batia, comia de forma insaciável e gritava muito. Era um furacão, um tormento, um desajustado naquele espaço.
Muitas vezes ignorava-se o fato, daquele adolescente, com comportamento infantil encontrar ali a oportunidade roubada de ser criança. Ali vivia a infância. E por isso brincava.
Criança nas ações, adolescente no corpo, adulto nas experiências vividas precisou conviver com a violência das ruas todos os dias. Quando mais novo, apanhou e teve todo o dinheiro das vendas do dia roubado, em outra ocasião foram os limões levados por um grupo concorrente. Enfrentou adultos que o lesavam nas vendas, ou faziam propostas inescrupulosas em troca de um tênis usado, ou algum dinheiro sujo. Entretanto a pior foi quando errou no troco, isso acontecia com frequência, e foi chamado de moleque fedido e ladrão.
As contas eram seu grande medo e toda vez que lhe davam uma nota de valor alto tremia na hora de fazer o troco. Mesmo assim foi vivendo a sua meninice como dava.
Certo dia a professora conversava a respeito de sonhos.
Sonhos! Todos têm e como realizá-los?
A maioria das crianças falava de desejos comuns à infância, como passar o dia em parques temáticos, conhecer a praia, ou ganhar uma bicicleta no Natal. Sonhos quase nunca realizados. Foram encorajados a escrever sobre eles. Mas, aquele garoto vendedor de limões, surpreendeu com sua fala. Seu sonho, dito com todas as letras, era conhecer o livro daquela história tão famosa, aquela comentada por todo mundo, "Harry Potter".
– Você quer ler Harry Potter? – perguntou a professora, duvidando daquilo que acabara de ouvir.
– É esse mesmo.
Terminada a aula saíram para o recreio e na sala dos professores foi relatado o episódio, ouvido por todos incrédulos e silenciosos, inclusive a diretora da escola.
Como era possível aquele menino tão complicado, com tantas dificuldades, ter esse tipo de desejo? Era a pergunta feita.
No dia seguinte a diretora chamou a professora e, estendendo um pacote com quatro exemplares iguais do livro Harry Potter e a pedra filosofal, disse: – Três vão para a biblioteca e um entregue nas mãos do menino. Diga para ficar com ele o tempo que quiser.
Aquilo provocou tanta alegria como a surpresa da revelação do desejo do garoto.
Chegando na sala de aula Bento foi chamado e o objeto de seu desejo entregue. Meio sem graça olhou, acariciou a capa, sentiu o cheiro do papel novo, mas teve interrompido esse momento de namoro quando seu colega o lembrou de sua limitação.
Um pouco desajeitado com o objeto, guardou-o na velha mochila rasgada e naquele dia não saiu para o recreio, ficou ali tomando conta de seus pertences.
O menino devolveu o livro alguns meses depois. Não fez comentários e a professora também não quis interpelar, apesar da curiosidade. Teria lido o livro? Ou não? Achou melhor deixá-lo falar quando quisesse e se quisesse.
Os anos passaram e a vida seguiu. O menino teria concluído os estudos? Teria arrumado um trabalho formal, havia conseguido se tornar um adulto, ou teria encontrado seu fim como a maioria dos jovens negros e pobres das periferias das grandes cidades? A curiosidade leva a imaginar seus momentos de intimidade com o livro, suas dificuldades, alegrias, frustração ao tentar ler e não conseguir e a vergonha ao descobrir que não realizaria aquilo que era comum às crianças de sua idade: ler.
Uma coisa é certa: "tudo vale a pena, se a alma não é pequena."
Rachel Bueno
Revisão: Maria Tereza Stefani
Rachel Bueno é professora aposentada, formada em Letras e Pedagogia, é mestre em História da Educação pela Unicamp.
Seu título de mestre foi obtido através da defesa de dissertação sobre o escritor Euclides da Cunha. Participa há mais de 45 anos da Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo como palestrante, semana que é dedicada a vida e obra do escritor Euclides da Cunha.
Entre crônicas e contos, publicou Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas e Por detrás da porta. No prelo, seu terceiro livro: uma autoficção destinada a mulheres com mais de 50 anos.
Também ministra oficinas de leitura e escrita para educadores e público em geral, além de trabalhar com leitura crítica e revisão de obras literárias.
A escritora tem participação assídua em Feiras Literárias e Bienais.