por Carina Mendes
Meu amor,
Hoje te vi na rua, desculpe-me se não pude chegar perto. Procurei uma vaga na intenção de ir ao seu encontro, mas o centro da cidade estava abarrotado. Por um momento, tive dúvida se era você, então o seu jeito de mexer nos cabelos, jogando-os para um lado e para outro, me trouxe a confirmação. Aliás, você estava lindo. Braços fortes que moldavam a manga da camisa, coxas torneadas expostas pelo calção curto. Lembrei-me de seu olhar, sua íris cintilante que vista de pertinho é de um verde bobo, conquistador. Se descrevo detalhes é para esquecer.
Liguei o pisca alerta para pegar o telefone, quando vi você se aproximando de um café. Te acompanhei com o olhar até se sentar em uma mesa com uma moça de sorriso aberto, cabelos selvagens, braços roliços e seios fartos. Era uma antagonista. Bem disse que eu precisava ganhar mais massa, deixar meus cabelos sempre soltos, ser mais simpática. Não percebi que eram condicionantes.
Te vendo ali, com a moça sinuosa, sorrisos ao vento e toques irrefletidos, me dei conta de que não respondeu a minha última mensagem. Faz uma semana, aliás. Então fui cavar na memória detalhes do nosso último encontro, quando percebi que já se passaram seis meses. Seis meses? É isso mesmo? Fiquei boba.
O apartamento displicente, a conversa protocolar, os toques, tudo se arranjou de tal forma em minha mente que o encontro pareceu bom, ótimo, incrível. Passei os últimos meses fantasiando sobre nós, repassando cenas. Agora que escrevo, me invade a lembrança do êxtase inconcluso, a decepção dos silêncios, as nãopalavras. Tudo que eu esperava que você tivesse dito e não disse.
Depois disso, ficamos na troca de mensagens insossas no celular. Um simulacro de amizade, uma cordialidade forjada, uma sombra amarga do que fomos. Eu alimentando a expectativa do encontro e você com seu jeito enganador listando os empecilhos. Percebo agora como conseguiu nos desidratar. Tadinho, deve ter sido difícil emaranhar tantas desculpas, articular compromissos fictícios de uma vida vazia. Só agora me dou conta; só agora, quando te vejo tão leve com a moça no café.
Faço votos de que sejam felizes. Desejo para vocês uma vida comezinha, dessas emolduradas em um porta-retrato dourado, fundo de papelão, com foto em preto e branco. Café da manhã com vitamina, rotina de terno e gravata, academia na hora do almoço, três crianças, dois cachorros, jantar em família, beijos de boa noite e sexo santo.
Finalmente, meu amor, vou te liberar de meus pensamentos. Talvez eles também estejam impedindo a sua felicidade ao te prenderem na minha própria. Então se escrevo sobre você é para te exorcizar de vez. Para te sepultar nessas folhas de papel, para te transformar em um inseto desidratado preso num alfinete, dica que li certa vez em um livro de Erica Jong. Para isso disseco detalhes sobre mim, sobre você e essa nossa suposta relação, antes do fim.
Falta falar de mim. O que dizer? Solteira, independente, madura. Mulher de mil paixões, intensa. Uma mariposa apaixonada, hoje desidratada. Então antes que você me prenda num alfinete, te deixo nestas linhas, encerrado nestas folhas que serão dobradas, colocadas em um envelope, lacradas com cola branca e guardadas em minha caixa de sapatos com cartas para amores esquecidos. Depois, te colocarei na parte alta do armário. Para nunca mais.
Sandrinha
Publicado em: Revista Subtextos: Cartas, vol. 6, nº 19, janeiro/25. Disponível em: https://escritorbrasileiro.com.br/download/subtextos-vol-6-no19/
