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Despedida

Despedida

por Ana Cristina Sampaio Alves

Chamava-se Peça Rara, um brechó chique com várias unidades em Brasília onde sempre buscava aqueles achados de marca: uma bolsa de grife pela metade do preço, um vestido de festa usado uma única vez, um sapato elegante com a sola intacta. Desta vez, eu buscava um casaco de frio para a próxima viagem à Europa. Havia alguns bem interessantes à venda naquele dia.

Experimentei um sobretudo marrom de cashmere, segundo a etiqueta, que vestiu como uma luva em meu tamanho 38. Era raro conseguir bom caimento nessa numeração. Olhei no espelho várias vezes e achei-o perfeito. Provei os bolsos externos e minhas mãos ficaram quentinhas. Dei uma boa olhada por dentro, tudo parecia em ordem, nenhum rasgo ou costura malfeita. Excelente aquisição.  

Guardei-o no armário por dois meses até chegar a hora de fazer a mala da viagem. Ao dobrá-lo pelo avesso para colocá-lo no fundo, observei dois bolsos internos que eu não havia notado e um deles parecia conter alguma coisa.  Era um envelope simples, de papel bege, a aba colada, sem amassados ou marcas de abertura, como que esquecido ali pouco antes da entrega do casaco ao brechó. Não havia nada escrito. Hesitei antes de abri-lo, pois pensei que estaria violando uma correspondência. Deveria entregá-lo à loja sem abrir? A curiosidade, no entanto, foi mais forte. Se fosse algo importante, ainda poderia devolvê-lo a quem de direito. Abri com cuidado para não rasgar o que houvesse dentro.

Ali, em uma pequena folha, também de papel bege combinando com o envelope, estava uma escrita bem desenhada que dizia: "Querida Misa, se você está lendo isto, é porque finalmente fui embora. Desculpe por ter sido uma pessoa tão horrível para você. Espero que um dia me perdoe. Te amo. Anna". Reli algumas vezes, talvez procurando alguma pista da história por trás das palavras. Misa seria nome ou apelido? Anna, provavelmente, era a dona do casaco. Ou o bilhete teria passado desapercebido por outras donas?

Decidi voltar à loja e contar o ocorrido, quem sabe devolver o bilhete a quem pertencesse, fosse a destinatária Misa ou a autora Anna. Ao chegar ao Peça Rara, narrei à vendedora que me atendeu que encontrara o bilhete num bolso interno, que o abrira para averiguar do que se tratava e vira que era uma carta com dois nomes que, talvez, pudessem ser localizados. Ela buscou no sistema quem havia deixado o casaco ali para venda. Disse que enviaria uma mensagem perguntando se havia dado falta de algum bilhete deixado na roupa e entraria em contato comigo. Não quis deixar a carta com ela. Aguardei uma semana e nada. Quando retornei à loja, a moça me informou que a mensagem fora recebida, mas não respondida. Pedi o contato e, após consultar a supervisora, ela concordou em me passar. A ex-dona do casaco se chamava Estela.

Apresentei-me pelo whatsapp e narrei o ocorrido, perguntando se o bilhete pertencia a ela. No dia seguinte, vi que a mensagem havia sido visualizada, mas aguardei em vão por uma resposta. Seria muito invasivo ligar? Cheguei à conclusão que sim. Talvez o bilhete tivesse passado por outras donas do casaco antes de ser descoberto por mim. Ou, quem sabe, seria uma história a esquecer e lá estava eu a cutucar o passado difícil de alguém. O fato é que o bilhete ficou comigo e não consegui mais parar de pensar nele e nas possíveis narrativas por trás do caso Misa e Anna. Ir embora para onde? Que coisas horríveis ela teria feito para a amiga? Ou seria companheira, afinal, a despedida incluía um "Te amo"? O que haveria a ser perdoado?

Fui para o computador procurar Misa e Anna. Após alguns dias fuçando o Google e todas as redes sociais que conhecia, me deparei com a notícia de um afogamento no Lago Paranoá ocorrido cinco anos atrás. A vítima era Anna Letícia Veiga, 50 anos, moradora do Lago Sul. Nenhum detalhe além de onde o corpo fora encontrado. Seria a minha Anna?

Estava há uma semana da viagem quando recebi a resposta de Estela pelo whatsapp. Dizia que a carta era dela e pedia que eu a encaminhasse a um endereço em Viana do Castelo, Portugal. Não contive a alegria da coincidência, pois passaria os últimos dois dias da viagem em uma conexão em Lisboa. Como a cidade ficava a quase quatrocentos quilômetros da capital, liguei na agência e pedi para alterar a primeira noite do hotel de Lisboa para Viana do Castelo. Que ótimo motivo para conhecer uma cidade a mais no roteiro: entregar a carta a Estela.

Não respondi à mensagem, era melhor não quebrar a surpresa. Se não a encontrasse, enviaria pelos Correios. A viagem pela Europa passou lenta, já que minha grande expectativa era conhecer Estela. Ao pousar em Lisboa, aluguei um carro e peguei uma estrada em ótimas condições e bem-sinalizada. Em menos de quatro horas, estacionei em frente ao endereço. Meu coração dava pulos enquanto a tarde caía, o clima esfriava e eu vestia o tal casaco, meu companheiro desde a sua compra.

Era uma casa moderna e pequena, numa rua pouco movimentada. Antes mesmo de tocar a campainha, divisei uma senhora pela grande janela da sala, que atendeu à porta. Não sei descrever a expressão que surgiu em seu rosto quando me apresentei - poderia ser surpresa misturada com decepção -, só sei que ela passou os olhos pelo meu casaco. Convidou-me a entrar. Parecia estar sozinha. Após explicar que tinha uma conexão de dois dias em Lisboa já programada e que preferira levar a carta pessoalmente, entreguei-lhe o envelope. Percebi o suspiro longo e demorado enquanto lia o bilhete. As lágrimas permaneciam contidas nos olhos claros, e a mão, marcada por grandes manchas senis, tremia.

E como parecesse impossível que eu saísse dali sem uma resposta, afinal, estava claro que, além de entregar, eu queria conhecer a história por trás da carta, Estela contou que Anna e Misa eram suas irmãs mais novas, porém pareciam duas inimigas. Anna se envolveu com drogas desde os tempos da universidade e Misa (o apelido de Marisa) não admitia a vida que ela levava, nem a depressão que a consumia.   

— Anna se matou cinco anos atrás — disse Estela.

A revelação inesperada veio de uma voz rouca, gutural, enquanto a mão não parava de alisar o envelope bege.  

— Foi no quarto dela. Quando a encontramos, já era tarde. A carta deve ter sido escrita poucos dias antes e guardada no casaco.

Uma despedida, um pedido de desculpas, uma declaração de amor pela irmã. Quem sabe a carta traria algum consolo àquela família. Tentei não soar invasiva, mas não me contive:    

 — Você vai entregá-la à Marisa?

— Marisa sofreu um acidente no ano passado. Foi por isso que vim morar em Portugal. Éramos só nós três e não pude continuar sozinha na nossa casa no Lago Sul.

Diante do silêncio que se seguiu, Estela pousou o envelope sob o móvel, ofereceu-me um chá e dirigiu-se à cozinha. Nessa hora, tirei o casaco, pendurei-o no gancho atrás da porta e saí, fechando-a delicadamente atrás de mim.

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.