por Andreia Santiago
Mais um dia começa no escritório de despachos aduaneiros onde trabalho. Na minha bolsa, dobrado com certo cuidado, já repousa o cheque do meu pagamento. Na hora do almoço, vou até o escritório dos despachantes associados, pois faço uma renda extra vendendo roupas masculinas. Os colegas adoram renovar o guarda-roupa no início do mês.
Saio de lá com a sensação de missão cumprida e o bolso ainda mais cheio. Ainda resta meia hora antes de voltar ao trabalho, então aproveito para comer alguma coisa em uma casa de sucos ali perto. Enquanto tomo meu lanche, não paro de agradecer ao universo pela fluidez daquele dia, que parece conspirar a meu favor.
No final do expediente, vou direto para Copacabana, onde tenho aula do curso de formação em Medicina Tradicional Chinesa. Eu deveria ter passado em casa antes, mas o tempo não permite. Ao chegar no pequeno saguão dos elevadores, encontro dois colegas e o diretor do curso.
Nos cumprimentamos e o elevador chega. Entramosconversando, mas logo o silêncio se impõe quando percebemos que ele para na sobreloja. Nesse instante, entra um homem franzino, vestindo uma jaqueta preta, com as mãos nos bolsos. Posiciona-se de frente para nós, de forma estranha, encarando cada um com intensidade.
Assim que as portas se fecham, ele saca um canivete e anuncia em voz alta: — É um assalto! Passa tudo! —
Meu coração acelera. Em milissegundos, um filme passapela minha mente — o meu dia, tão perfeito até então, ameaça desmoronar. O dinheiro do mês inteiro está na minha bolsa. Num gesto instintivo, como se algo maior me conduzisse, levo a mão direita ao rosto, cobrindo a visão, como se negasse a realidade diante de mim.
Por cerca de dez segundos, me ausento completamente dali. Quando sinto o elevador voltar a se mover, abro os olhos. O ambiente está em choque. Todos estão perplexos — não apenas pelo assalto, mas pelo fato de eu não ter sido sequer abordada.
— Por que você não foi roubada? — pergunta o diretor, ainda atônito.
— Gente? não sei? — respondo com a voz fraca, tentando compreender o que houve ali. Diante do acontecimento, entendo que existe um espaço entre o que ocorre fora e a forma como nos colocamos diante disso. Naquele elevador, eu acessei exatamente esse lugar.
Andreia Santiago é do Rio de Janeiro. Terapeuta Integrativa com mais de 30 anos de experiência. Produtora de cursos on-line, também é cantora e musicista/DJ, integrando som, arte e cura em suas práticas. Estudante de Baixo e Escrita Criativa.