por Elisa Lempek
Tenho o hábito de, todas as manhãs, enquanto passo o café, dar uma organizada na casa. Vou circulando entre sala, cozinha, quartos e banheiros, abrindo janelas, arrumando camas, recolhendo brinquedos ou alguma peça de roupa esquecida pelo caminho. Hoje, durante essa rotina comum, lembrei de uma cena que ficou guardada em mim.
Há meses, enquanto arrumava o quarto das crianças, percebi um movimento diferente. Kit Kat, nosso gato, estava espalhado sobre a borda da janela com as orelhas erguidas e os olhos curiosos, acompanhando o movimento dos passarinhos que passavam por ali. Laura brincava no chão, conversava com suas bonecas, inventava histórias, mas interrompia a brincadeira de tempos em tempos para olhar o gato, inquieta. A atenção dela parecia dividida entre a fantasia e aquele comportamento incomum de Kit Kat.
Em determinado momento, ela largou a boneca no carrinho de bebê, levantou, pegou o gato no colo e o levou até outro cômodo.
— Não pode ficar na janela. É perigoso. Aqui tu pode pegar um solzinho — disse ela, enquanto acomodava Kit Kat sobre o edredom da minha cama, iluminado pela claridade daquela manhã.
Ela se virou para voltar ao quarto e, no mesmo instante, ele saltou da cama e retornou atrás dela, atravessando o corredor com a obstinação de quem sabe exatamente onde quer estar.
Laura fez uma nova tentativa de distraí-lo: ofereceu ração e água fresca. Mesmo assim, ele continuou voltando para o quarto até que ela veio até mim e desabafou:
— Mãe, o Kit Kat insiste em ficar na janela! Ele quer ver os passarinhos, mas eu tenho medo que ele caia!
Me abaixei até a altura dos seus olhos, acariciei seus cabelos e respondi:
— A janela tem tela de proteção. Ele está seguro lá, filha.
Ela balançou a cabeça, contrariada, e voltou para o quarto em silêncio.
Segundos depois, ouvi sua voz animada:
— Tenho uma ideia!
Logo em seguida, escutei o som de uma cadeira sendo arrastada pelo chão.
Fui até a porta do quarto e encontrei Laura sentada diante da janela, com Kit Kat acomodado em seu colo. Enquanto afagava o pelo macio do gato, os dois observavam juntos o movimento dos passarinhos que cruzavam o céu azul daquela manhã de primavera.
Texto revisado por Catarina de Fátima Machado
Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.