por Marina Macambyra
Meu gosto pela escrita começou na infância. Por volta dos 10 ou 11 anos ganhei um caderno de folhas decoradas e capa de plástico verde cuja função, se não me engano, era para meninas fazerem diários. Era muito feio, mas fiquei encantada. Abria e fechava aquilo, pensando no que poderia escrever nele. Como não sabia nem queria fazer um diário, algo que me parecia muito bobo, decidi escrever uma história de vampiros. Na época, já era fã de filmes de terror, assistia, todos os sábados, aos filmes da Hammer no Cine Mistério, da TV Bandeirantes e era doida por Christopher Lee.
Minha história, pelo que me lembro, era sobre uma tonta que se apaixonava por um vampiro que morava na vizinhança, mas depois de um tempo decidia que era melhor dar cabo dele. Muito romântico. Acabei com tanta vergonha dessa minha primeira incursão na baixa literatura de vampirismo que destruí o caderno de capa verde. Como tinha medo que alguém encontrasse as páginas picadas na lixeira e não sabia como botar fogo na coisa, piquei tudo e afoguei numa bacia com água. Assim, minha primeira obra virou papel-machê e perdi a coragem de continuar escrevendo.
Curiosamente, quando a coragem voltou, há poucos anos, meu primeiro conto foi sobre, adivinhem, uma vampira. Uma mulher que, sem causa aparente, percebe que está se tornando uma vampira. Tempos depois, durante uma viagem, a imagem de uma torre melancólica me fez pensar em outra história e, curiosamente, acabei recriando a história papel-machê da minha infância, com uma personagem mais dura e pragmática do que a primeira.
Mais uns 10 anos se passaram (sou meio lerda) até que, durante a pandemia, comecei a fazer oficinas de escrita e a escrever com regularidade. Publiquei dois contos em coletâneas de alunos da Metamorfose Cursos: Tinnitus, em A vida aqui não é fácil (2021), sobre uma mulher irritadíssima que sai para a rua disposta a furar homens inconvenientes e O livro que não foi escrito, em Navalha, veneno e mistério, sobre uma bibliotecária que desvenda o mistério do desaparecimento de um professor. O conto Lulu não quer comer saiu na revista Originais Reprovados, publicação laboratorial dos alunos do curso de Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP. De vez em quando posto um texto no Medium. Meus contos têm sempre algo de fantástico ou terror, eventualmente com bastante sangue. O Cine Mistério deixou suas marcas.
No momento, estou fazendo o excelente Curso Online de Formação de Escritores. Se tudo der certo, penso em publicar um livro de contos ao final do curso. Um dos exercícios do módulo Diálogos do curso consistia em escrever um texto usando, pelo menos, dois tipos de diálogos. O resultado foi esse:
Cabelos cinza-prata caindo em cachos até os ombros, kaftan vermelho descobrindo as panturrilhas tatuadas, ela consulta o celular sentada num Chesterfield da sala de espera do cinema.
— A moça está sozinha?
Com um meio sorriso e um franzir de sobrancelhas, a mulher olha para o lado oposto ao homem que emitiu a pergunta, depois se volta para ele e o encara.
— Não, ela está comigo! Desde 1858, para ser exata. O senhor, por acaso, não está me vendo?
Dois rapazes riem baixinho, abanando a cabeça. Uma velhinha fita o lugar vazio ao lado da mulher de vermelho, tira os óculos, limpa as lentes na blusa, recoloca os óculos e se abana com uma revista. O homem se afasta coçando a cabeça e comenta com o rapaz do café que o mundo está cada vez mais cheio de malucos. Verdade, mas se eu fosse o senhor, não me metia com essas duas não. Já vi a mais novinha meter a mão num sujeito maior do que eu.
Confesso que não sabia que diabos é um sofá Chesterfield, até publicar uma foto sentada no que parece ser um deles, na sala de espera do Cinesala, glorioso cinema de rua de São Paulo. Uma amiga viu e comentou "parece um Chesterfield". Achei bonito. Pretendo, talvez, aproveitar esse exercício numa história que ainda não escrevi.
Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP, e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).
Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.