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Dicas para usar a IA nos textos criativos: entrevista com Henrique Barum

Dicas para usar a IA nos textos criativos: entrevista com Henrique Barum

por Tainá Rios

Dicas para usar a IA nos textos criativos: entrevista com Henrique Barum

Como usar a Inteligência Artificial sem cair nos vícios de linguagem e nas metáforas vazias típicas dos robôs? Conversamos com o especialista em IA, Henrique Barum, sobre os mitos e verdades dessa tecnologia. Segundo Barum, o segredo está na restrição criativa e na produção em blocos. Quanto mais aberto é um comando, mais clichê será o resultado. "Se você terceiriza a escrita, você terceiriza o que torna o texto único". É com essa premissa que ele analisa o papel da Inteligência Artificial na produção literária contemporânea.

Nesta entrevista, você irá conhecer estratégias práticas para que aplicar nas crônicas e como criar is assistentes personalizados, que irão ajudar a organizar as estruturas narrativas e validar ideias, garantindo que a "canetada" final e a voz do texto continuem sendo estritamente humanas.

Confira a entrevista completa abaixo:

1) Como a IA pode ser treinada para capturar a subjetividade e o tom observacional típicos do texto de gênero crônica?

Henrique: "A primeira coisa que precisamos levar em consideração é que a IA costuma ser literal. Mesmo estruturando um prompt que incentive ela a ir pelo lado subjetivo, ela não tem olhos e nem a mesma capacidade humana de entender uma ironia ou um deboche, e a crônica vive nesses detalhes, nessa subjetividade que é intrinsecamente humana e nenhuma IA consegue replicar. Então, como a gente treina uma máquina para mimetizar isso? A gente faz uma Engenharia de Referência para que a IA entenda, a nível mais pessoal, o estilo de escrita do autor.

Hoje não adianta pedir 'Escreva uma crônica sobre assunto X. Seja criativo e subjetivo na sua escrita'. Para começar: quanto mais informações nós entregamos para a IA, melhor o resultado que ela vai entregar. Junto disso, ter um Assistente de IA Personalizado (como um Custom GPT ou um Gem do Gemini), é uma forma eficaz de um autor manter sua autenticidade e aumentar a produção textual. E criar um assistente deles é simples, só é preciso fazer o upload de crônicas suas ou de um autor que você admira e pedir para a IA não ler aquele texto apenas como dados. Tem que pedir pra analisar a sintaxe, o uso de adjetivos, o ritmo do texto e, principalmente, como o autor transita do fato banal para a reflexão filosófica.

Basicamente, a gente cria um 'Guia de Tom de Voz' vivo. A IA deixa de ser um robô genérico tentando adivinhar o que é emoção e passa a operar com um framework de estilo específico. Ela não vai ter a vivência, mas vai ter o padrão da vivência. É como ensinar um ator a interpretar você em uma biografia, por mais que ele não tenha a sua vivência, ele aprendeu como você se comporta para mimetizar o mesmo comportamento."


2) Como ferramentas de IA podem ser usadas no processo de brainstorming de um texto de gênero crônica?

Henrique: "A IA pode ajudar muito no brainstorming sem se tornar uma 'fábrica de ideias' genérica, e sim como uma parceira intelectual. O olhar do cotidiano sempre vai vir do humano, mas a IA pode ajudar a desdobrar o tema, pensar em diferentes ângulos e servir como uma ferramenta poderosa de validação e organização de ideias. Por exemplo: você tem uma ideia incrível para uma crônica e já tem diversas anotações sobre o assunto, mas está com dificuldade de encaixar tudo em um texto. A IA não vai escrever para você com base nas suas ideias, mas pode ajudar a construir a estrutura narrativa para o texto, apontando a melhor ordem para você organizar as informações. Ela não substitui a criatividade de quem escreve, mas ajuda a estruturar e a encontrar diferentes ângulos para uma mesma crônica."


3) Você apoia a ideia dos escritores utilizarem IA na produção textual? Por quê?

Henrique: "Acho que essa é uma das questões mais complicadas quando falamos sobre o uso de IA com profissionais da área criativa. Acredito que a IA pode ser usada como ferramenta de apoio, mas nunca como substituta no processo criativo.

A IA opera identificando padrões no que já existe, então por mais original que uma ideia seja, quando pedimos para a IA escrever, ela inevitavelmente vai preencher as lacunas dessa ideia com base em outros materiais já escritos. Nisso, até é possível conseguir um texto bem escrito, mas que carece de individualidade em prol de uma fluidez genérica.

O uso ético e funcional é chegar com o rascunho pronto e as ideias bem afiadas. Use a IA para destravar um parágrafo, refinar uma frase ou revisar a gramática. Mas a 'canetada', a voz e a costura das ideias precisam ser humanas. Se você terceiriza a escrita, você terceiriza o que torna o texto único."


4) Ao utilizar o auxílio da IA na escrita dos textos, existe algum risco dessas produções literárias se tornarem muito parecidas?

Henrique: "Existem todos os riscos, e a tendência é justamente que isso aconteça. Os modelos de IA funcionam num modelo de probabilidade, ela sempre vai prever o 'mais comum'. Se 10 escritores pedirem um texto sobre o mesmo assunto, sem darem informações extremamente específicas sobre as diretrizes de estilo no texto, a probabilidade é que os textos saiam extremamente parecidos (ou até iguais!).

O que precisamos entender sobre a escrita com IA é que ela não consegue captar a mesma eloquência da escrita humana, que muitas vezes se prevalece de um texto que não é tecnicamente perfeito, mas tem aquele 'borogodó' que torna ele atrativo para o leitor. Se todo autor começar a usar a IA para escrever seus textos, vamos entrar em um looping de textos que são tecnicamente perfeitos, mas genéricos e parecidos."


5) De que forma a orientação humana pode 'guiar' a IA para evitar clichês nos textos do gênero crônica?

Henrique: "O maior segredo é fazer uma combinação de restrição criativa e produção em blocos.

No caso da restrição, a regra é clara: quanto mais aberto o prompt, mais clichê vai ser a resposta. É tarefa humana restringir a IA para seguir um caminho firme e conciso. Em vez do autor pedir para a IA descrever um término triste, ele pode pedir para a IA descrever o fim de uma relação amorosa focando apenas em um ângulo ou metáfora específica, usando um tom textual específico e evitando clichês (e nunca esquecer de citar quais são os clichês, isso ajuda ainda mais a IA)

A produção em blocos também é uma maneira eficaz de evitar os clichês. Trabalhar em pequenos blocos permite um trabalho melhor da revisão humana, e assim é possível solicitar ajustes pontuais e, em caso da IA estar escrevendo tudo, é uma maneira melhor de conduzir como a ideia do autor será desenvolvida, dando uma margem menor para que a probabilidade da IA preencha essas lacunas. Se a IA começar a alucinar ou usar frases feitas no meio do caminho, fica mais fácil de pedir para que outro caminho seja seguido, garantindo que a 'humanidade' e a voz do autor permaneçam o mais intactas possível."


6) Por fim, quais as principais dicas para revisão textual da produção literária realizada pela IA?

Henrique: "A melhor revisão é aquela que entende quando a 'sujeira' humana se faz necessária. Quando a gente usa IA para revisar e reescrever trechos, precisamos ter cuidado para não cair nos 'IA-sismos', que são aqueles vícios de linguagem que denunciam que o texto foi escrito por IA. É o famoso travessão (que apesar de eu sempre ter usado, hoje tomo cuidado e evito por ter se tornado um desses vícios marcantes da IA), aquelas frases muito curtas e de efeito pra dar impacto, como um 'Ele estava ali. Parado. Na minha frente.', que até funciona para dar um ritmo específico pro texto, mas quando usado em excesso, se torna uma red flag de que o conteúdo foi criado por IA. As metáforas vazias também são indicativo de que a revisão não foi bem feita, assim como a estrutura clássica do 'Não é sobre X, é sobre Y', muito usada pela IA para passar profundidade.

Na hora de instruir a IA, é melhor focar em gramática e clareza, sempre mantendo o tom original. Depois disso, o importante é não parar na revisão de IA: fazer uma revisão da revisão é a melhor forma de quebrar a simetria perfeita da IA para devolver o ritmo natural do texto."

Tainá Rios

Tainá Rios é jornalista, formanda do curso de Formação de Escritores da Metamorfose e produtora de conteúdo digital. Atiua como podcaster do Me Conta Sua História?, onde compartilha histórias de personagens reais. Escreve crônicas sobre o cotidiano e memórias. Suas e daqueles que acompanham sua trajetória.