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DONA VICTÓRIA

DONA VICTÓRIA

por Antonio Pedro da Costa

Trabalhei mais de trinta anos para a Dona Victória.

Quando comecei, no casarão em que morava nos Jardins, ela devia ter por volta de quarenta e era uma mulher altiva, olhar firme, coluna reta, andar resoluto, sem deixar de ser gracioso. Era arrumada também, sempre com os cabelos bem penteados e tingidos — toda a semana passava uma tarde no cabeleireiro —, bem-vestida, mas sem ostentação. Embora tivesse muitas joias, só as usava quando saía à noite com o marido, para jantarem fora ou irem a uma festa.

A Dona Victória era uma mulher crescida e criada nos valores de sua época: vivia para cuidar do marido, dos filhos e da casa, nessa ordem. Da casa, vou falar já, já. O marido era um médico muito conceituado, o Dr. Estevão. Embora tenha trabalhado na casa por tanto tempo, não o conheci bem. Estava sempre sério, calado. A mim, não dirigia a palavra quase nunca, só mesmo para desejar um bom-dia e uma boa-noite ou para pedir alguma coisa de que precisasse. Era dependente da Dona Victória para quase tudo, até para lembrar das coisas, desde onde tinha colocado as chaves do carro, até o nome do restaurante em que haviam comido tão bem em Lisboa. E a Dona Victória fazia de tudo para agradá-lo, cuidava para que a casa estivesse sempre arrumada, levava e buscava os filhos da escola e os ajudava nas lições, fazia as compras, pagava as contas, controlava as despesas.

Os filhos eram três. Quando entrei para o serviço, era uma mocinha, Laura, com dois irmãos gêmeos menores, entrando na adolescência, Antonio e Thiago. O Dr. Estevão queria colocar o seu nome em um deles, que seria o Junior, mas a Dona Victória achou que não era bom fazer essa distinção entre os gêmeos. O Dr. Estevão ainda tentou que se desse o nome de seu pai ao outro, mas o avô se chamava Elesbão e a Dona Victória achava muito antigo e não concordou.

Todos os três filhos foram educados com disciplina pela Dona Victória. Eram bons alunos, aproveitaram a infância e a mocidade felizes e todas as outras oportunidades que a vida lhes deu e se tornaram adultos que se podem chamar de bem-sucedidos. Tornaram-se bons profissionais. A Laura até chegou a receber uma bolsa para completar os estudos no exterior. Mas se casaram, tiveram os próprios filhos, foram morar em bairros distantes e levavam uma vida com um ritmo muito rápido, quase feroz. Tudo isso, somado às dificuldades da vida em São Paulo, fez com que os dois rapazes quase nunca fossem à casa dos pais. Laura, mesmo com todas essas dificuldades, estava um pouco mais presente, ia visitar os pais pelo menos nos finais de semana. Nenhum deles conversava comigo, mal me dirigiam a palavra. Parecia que eu era transparente, quase invisível.

Acho que está na hora de falar da casa. Era bem ampla, projetada por um arquiteto famoso na época. Logo que fui trabalhar lá, a Dona Victória fez questão de me explicar e mostrar tudo com muito orgulho. Foi construída lá pelos anos sessenta, com o que tinha de bom e de melhor. Banheiros em mármore, grandes áreas envidraçadas, piso em madeira boa, escada em uma pedra verde linda, saindo de um hall de entrada que lembrava filme americano. Um brinco. E tudo bem decorado, com cortinas de um tecido que daria para fazer vestidos de luxo, sofás e poltronas riquíssimos, de couro legítimo na sala íntima, onde ficava a lareira, tapetes importados, cheios de desenhos e arabescos, móveis de estilo, todos trabalhados à mão. Além dos quadros, alguns de pintores que hoje são famosos, havia pequenas esculturas e enfeites de prata por toda a parte.

A sala de jantar tinha uma mesa para doze lugares, projetada por um marceneiro importante. Nos bufês e nas cristaleiras ficavam guardados jogos de porcelana portuguesa decorados em azul e dourado, conjuntos de jarras e taças no melhor cristal francês, vermelho-claro, quase rosa, com flores meio que desenhadas nas laterais, cortando o próprio vidro. Sem falar das toalhas e dos guardanapos de renda da Ilha da Madeira e dos faqueiros de prata de lei, toda trabalhada. A Dona Victória recomendava o maior cuidado com tudo aquilo. Parecia que só de olhar eu podia causar algum prejuízo irreparável.

Mas essas coisas preciosas nunca eram utilizadas. Eram presentes do casamento da Dona Victória e objetos que tinham sido dos pais e até dos avós dela e do Dr. Estevão. Não eram usadas, mas estavam sempre limpas, impecáveis. Pelo menos uma vez por mês ela me mandava lavar as porcelanas e os cristais e brilhar as pratas. Não me deixava sozinha nem um segundo. Ficava vigiando o meu trabalho, com cara de preocupação. Acho que se eu quebrasse um daquelas taças ou pratos seria mandada embora imediatamente. No final do trabalho, que levava horas, ela relaxava e até me elogiava: "você tem mãos de fada!"

Um dia, faz uns três anos, talvez um pouco mais, a Dona Victória me disse que estava preocupada com o marido. Andava esquecido, um pouco nervoso, até agressivo, coisa que ele nunca tinha sido. Ela havia entrado no quarto uns dias antes e ele estava se vestindo, com as meias na mão, olhando para elas como se não soubesse para o que serviam. Levaram a um médico que era seu colega e amigo. Após fazer uma série de exames, o especialista deu a notícia: era Alzheimer. Aquela doença que primeiro leva a alma embora, para depois vir buscar o corpo.

Não demorou muito para a vida naquela casa virar de pernas para o ar. Cuidadores dia e noite. Enfermeiros que entravam e saíam o dia todo. Visitas do médico todas as semanas. E Dona Victória cada vez mais triste, cada vez mais sem esperanças. Dr. Estevão foi piorando, até perder o controle sobre o próprio corpo. Nessa altura, a casa já tinha se tornado um hospital. Os filhos apareceram, tristes e preocupados. A Dona Victória só esperava pelo fim, que só chegou depois de o Dr. Estevão passar por uma longa agonia.

Com a morte do marido, parecia que a Dona Victória — embora bem triste — tinha conseguido recuperar o fôlego. Os filhos voltaram a sumir e ela se dedicou a tomar a sua casa de volta, a desmontar aquele hospital improvisado, limpar e recuperar tudo. E, é claro, voltou a me pedir para lavar muito bem lavados os cristais e as louças e para brilhar as pratas, com minhas mãos de fada. Tudo precisava voltar para o seu devido lugar.

Foi então que aquilo aconteceu. Dona Victória começou a sentir umas pontadas na região do ventre. No início, pensou que fossem gases. Tomou remédio, mas a dor não passava. A dor começou a se espalhar para a perna direita, mas ela achava que era ainda sintoma da grande provação por que passara ou mesmo a materialização em sua carne da tristeza que ainda sentia. Foi preciso que a filha Laura brigasse com ela para que fosse ao médico.

Depois de exames de todos os tipos, foi constatado que Dona Victória estava com câncer. Câncer agressivo e num estágio já avançado. Não era mais possível operar. Ela  perguntou: "Quanto tempo me resta de vida?". O médico respondeu, com bastante jeito e rodeio, que teria uns seis meses. Ela se assustou com aquela notícia, que não esperava. Ele pareceu ter entendido a sua angústia e explicou: "Não quero parecer insensível, sei que é uma coisa terrível de se escutar, mas acho que é melhor você saber para poder se preparar."

Dona Victória chegou em casa arrasada. Subiu para o quarto, acho que para poder chorar na sua intimidade, sem ser vista. No dia seguinte estava ainda com os olhos vermelhos, mas altiva e ativa como sempre. Passou o dia telefonando e se reunindo com o contador e o advogado. No final do dia, parecia estar um pouco mais tranquila.

À noite, quando eu estava pondo a mesa para o jantar, ela me disse para não usar mais aquela toalha e aqueles pratos. "De agora em diante, vamos usar as rendas da Madeira, as porcelanas portuguesas e as taças de cristal francesas. Ah, põe em uso também o faqueiro de prata."

Não foi essa a única mudança. Dona Victória parecia mais distante nos dias seguintes. Parecia que estava se despedindo da casa, ficava horas no jardim bem cuidado, passava um tempão olhando os quadros, me mandava limpar e relimpar os móveis do marceneiro famoso e os lustres de cristal. Ficava me olhando trabalhar com atenção, parecia esperando que eu puxasse conversa, falasse alguma coisa. Um dia perguntei se ela queria rezar comigo e ela aceitou. Rezamos o terço juntas. Nenhuma das duas sabia mais recitar a Salve Rainha, mas fiquei com a impressão de que ela ficou mais sossegada.

Não chegou a viver mais seis meses. Morreu em menos de dois, o coração parou de repente. Achei que Deus a tinha poupado de uma nova agonia, desta vez dela própria.

Depois de sua morte, os filhos apareceram. Levaram quadros, estatuetas e alguns objetos. Contrataram uma empresa tipo "Família vende tudo" para se desfazer do resto. Ninguém quis as porcelanas, os cristais ou as rendas da Madeira. "Isso tudo dá muito trabalho, não vale a pena" — disseram.

Quanto a mim, logo puseram a casa à venda e me deram as contas. Como as porcelanas, os cristais ou as rendas da Madeira, não tinha mais serventia.

Antonio Pedro da Costa

Antonio Pedro da Costa nasceu em São Paulo, em 1949, mas agora vive em São José dos Campos. É advogado e trabalhou no mercado financeiro muitos anos. Gosta de ler e escrever desde a infância, mas só agora tem a oportunidade de se dedicar à escrita, principalmente de contos. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.