por Ildeu Geraldo de Araújo
DUETO
Dico e seu irmão Toinzin levavam a comida do pai. Cantavam duetando:
Eu sou aquele boizinho
Que nasci no mês de maio
Eu nasci nesse mundo
Foi só pra passá trabaio
A estrada subia beirando o pastinho de apartar bezerro, assombreada por um capão de mato que ficava do outro lado. Um passo preto cantava alegre entre as árvores.
— Espera aí, Toinzin, vou ver se a arapuca pegou algum passarinho.
Atravessaram a cerca do pasto e desceram no rumo do córrego.
— Parece que pegou, Dico! Posso ficar com ele!
— É João de Barro. É pecado prender na gaiola. João de Barro é o galinho do Menino Jesus.
— Deixa eu segurar!
Dico ficou olhando o irmão acariciar o passarinho, depois mandou ele soltar e ficou acompanhando seu voo com os olhos. Voltaram ao caminho e à cantoria.
Me batia com o pé da vara
Me chuchava com o ferrão
Eu preguei uma chifrada
Que varou seu coração
Aí meu patrão já disse:
— Vou vendê'sse boi pro corte
Não trabaia no meu carro
Boi que já fez uma morte
— Pai disse que vai vender o Raminho pro corte. Fico com dó. — Boi ladrão, Dico, o Pai falou, não tem cerca que segura ele. — Ô boca! É falar e acontecer. Olha o Raminho dentro da roça de milho. Já fez um estrago.
Dico abriu a tronqueira que tinha no canto da cerca e fez sinal para Toinzin cercar de um lado e ele cercou do outro, cada um pegou uma das canas de milho que o boi tinha arrancado. Dico chegou perto e chuchou a rês como se a cana fosse uma vara de ferrão. Raminho virou e tentou chifrá-lo. Ele caiu de costas e ficou quieto fingindo de morto. Viu o boi ir na direção do Toinzim. Dico se levantou gritando o nome do garrote e bateu no traseiro dele. Raminho correu atrás dele. Dico correu atrapalhado pelos pés de milho. Raminho o alcançou, de cabeça baixa, enfiou os chifres entre seus braços e suas costas e o jogou pra cima. Dico acordou com o pai gritando: — Acorda, menino! Resolveu dormir em vez de levar minha boia?
Levantou, com as pernas bambas, mas estava inteiro. Não viu o Toinzin nem o Raminho.
— Quede o Toinzin, Pai?
— Ele veio com você?
Seu coração disparou. E se tivesse acontecido alguma coisa com o irmão? Enfiou-se no meio do milharal gritando seu nome. O pai foi atrás dele, segurou seu braço. — Me conta o que aconteceu. O menino começou a chorar e contou o ocorrido até que tudo escureceu e ele não sabia de mais nada.
— Deve ter corrido pra casa, buscando ajuda. — Então o Raminho foi atrás dele, Pai!
— Toinzin é muito esperto, na certa ele escapuliu.
Dico disparou pela estrada, de volta para casa. — Toinzin!, Toinzin!
— Toinzin! Toinzin! — A capoeira, do outro lado da estrada, respondeu.
As pancadas do seu coração retumbavam em seus ouvidos. Meu Santo Antônio, não deixa nada acontecer com ele! Na curva da estrada viu o Raminho vindo caminhando, calmo, sossegado.
— E o Toinzin, Pai!
— Calma, Dico — e, colocando as mãos em concha na frente da boca, gritou:
— Ôôôôô-uuuuu!
Depois da resposta do eco, Dico ouviu aliviado, vindo do meio da capoeira:
— Ôôôôô-uuuuu!
[i] Membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni
Ildeu Geraldo de Araújo nasceu, em 1938, viveu em Belo Horizonte a maior parte de sua vida. Casado com Maria Nylza, desde 1963, tem cinco filhos e seis netos. Formou-se em engenharia mecânica e elétrica pela UFMG e exerceu seu ofício por vinte e cinco anos na Usiminas, Universidade do Trabalho, Tecnokor. Depois foi consultor e dirigente empresarial por vinte e seis anos. Publicou, pela ARTEAR editora, o livro de contos "Da fortuna de amar" – 2020 e a novela "Terra firme entre as ondas" – 2022, que trata da relação familiar de uma empresária, um sindicalista e a jovem filha do casal no ambiente da ditadura militar e da redemocratização ocorridas no Brasil no século XX.