por Rachel Bueno
Chegou outra vez, trazendo em seu enredo a alegria, amores e cores e muitas cores.
Todos os anos a mesma euforia, os mesmos sonhos, os mesmos desejos. Desejos de uma Colombina sempre esperando por aquele Pierrot apaixonado ou simplesmente pela alegria do cortejo festivo.
Ela amava o carnaval, embora nunca tenha participado da festa, que sempre lhe fora proibida.
Desde criança ouvira que era a festa condenada pela igreja, mais tarde que não era coisa de mulher direita, mas aquela alegria e aquele ritmo insistiam em mexer com ela, causando algo estranho dentro de seu peito, as batidas dos tambores confundiam-se com as de seu coração e só faziam aumentar sua euforia, que pouco a pouco passava da vontade da criança para o desejo de mulher.
A mão pesada do pai e o olhar inquisidor do irmão insistiam em ceifar essa alegria de viver, essa alegria chamada carnaval.
Esperava pela festa o ano todo, só para poder sonhar ao ritmo das músicas, que sabia de cor. Nos meses que antecediam a folia, de sua casa ouvia o rádio da vizinha, que anunciava as melhores marchinhas, as mais pedidas, as mais alegres e assim, escondida no quintal, decorava uma a uma, ano após ano.
De relance, quando esses dias de magia chegavam, do alto da sacada de casa, via as roupas coloridas dos foliões e, dessa forma, desenhava suas próprias fantasias com lápis e papel, colorindo muito, acrescentando fitas, lantejoulas e brilho, muito brilho. Ocultava cada uma delas no fundo de uma gaveta, buscando torná-las cada vez mais belas. Assim a vida seguia.
Aos poucos foi tomando coragem e se tornando mais ousada. Em pé, por detrás da janela fechada, ouvia passar o cortejo de Momo cantando "Ó abre-alas que eu quero passar, ó abre-alas que eu quero passar."
"Sim, eu também quero passar", repetia para si mesma de olhos fechados ao som da marchinha. E assim passavam os carnavais...
O primeiro foi seu pai que não admitia tal devaneio. O segundo, seu irmão que vigiava seus sonhos. E o terceiro foi aquele a quem entregou seus desejos e que por ele foram castrados. Mas dessa vez não. A vida se encarregou de levá-los. Já não havia mais ninguém para impedi-la de viver toda sua fantasia, toda a sua poesia contida há tantos anos.
Essa euforia, finalmente, poderia ser vivida em toda sua plenitude. Bordou cuidadosamente sua fantasia com o próprio brilho de seus sonhos, pintou o rosto como nunca antes e saiu detrás da janela. Escancarou-a o mais que pode, buscando lá fora toda a coragem, expulsando o medo e a vergonha e foi deixando entrar a brisa quente de uma noite de verão com aquela mistura de perfumes e cheiros do suor daquela gente que transpirava uma felicidade incompreensível.
De olhos fechados sentiu a aproximação dos tambores que batiam no mesmo compasso que seu coração e foi rodopiando em meio a multidão alegre e mascarada, com um estandarte de felicidade que guardou a vida toda. Ela seria o destaque daquele cortejo, que abria alas para que passasse soberana, de repente carregada pelos braços fortes daqueles que se colocavam como seus súditos e a proclamavam a rainha do carnaval, uma coroação esperada durante sua existência. O coração disparado, batendo em surdo descompasso, quase saindo pela boca mais, mais e mais.
Finalmente, o sonho de uma vida inteira se realizava, o cortejo alegre de Momo para em silencioso respeito para que o cortejo fúnebre que a carregava passasse solene em direção a sua última morada. Carregada por braços fortes passou como destaque que sempre sonhou ouvindo ao longe o alegre cortejo recomeçar "Ó abre-alas que eu quero passar, ó abre-alas que eu quero passar".
Afinal, é carnaval!
Rachel Bueno é professora aposentada, formada em Letras e Pedagogia, é mestre em História da Educação pela Unicamp.
Seu título de mestre foi obtido através da defesa de dissertação sobre o escritor Euclides da Cunha. Participa há mais de 45 anos da Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo como palestrante, semana que é dedicada a vida e obra do escritor Euclides da Cunha.
Entre crônicas e contos, publicou Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas e Por detrás da porta. No prelo, seu terceiro livro: uma autoficção destinada a mulheres com mais de 50 anos.
Também ministra oficinas de leitura e escrita para educadores e público em geral, além de trabalhar com leitura crítica e revisão de obras literárias.
A escritora tem participação assídua em Feiras Literárias e Bienais.