por Mileny Brondani
É ser vida loka
Estava sentado à mesa de um café qualquer, era noite e havia faltado luz. O celular indicava a bateria acabando e ele encarava uma xícara de café com leite prestes a esfriar. Deu sua última mordida no misto quente com o queijo que antes estivera derretido e suspirou alto. Ele deveria pagar a conta via pix, pois os cartões não tinham limite sobrando e ele, tampouco, tinha dinheiro, mas havia feito um freela para um amigo e 100 reais foram enviados para sua conta logo de manhã. Ficou mais que feliz por receber o comprovante. 100 reais menos pobre que ontem? 88, devido ao pão e ao café.
Tamborilava os dedos, impaciente, sobre o tampo da mesa. Queria logo pagar a conta e ir embora, mas os pagamentos do local, mesmo via pix, dependiam do QR Code da maquininha que, conectada à internet, não funcionava sem a luz. 10 minutos inteiros haviam passado e o breu já se instaurara na rua. As pessoas já se acostumando com a visão parcial, ao longe isqueiros e lanternas de celular eram acendidos para iluminar. A lua não deu muita ajuda, a previsão indicava chuva e os brilhos que vinham do céu eram resquícios de trovões, apenas.
Sem enxergar nada, começou a divagar. Teve um professor de ensino médio que lecionava filosofia cheio de excentricidades, subindo nas cadeiras e gritando. Esse professor, certo dia, contou que em uma prova questionou sobre o que era viver displicentemente, ao que o aluno, em resposta, escreveu um breve "é ser vida loka". Ele achou a resposta uma baboseira, mas o professor o surpreendeu ao dizer que considerou-a como certa, pois ser "vida loka" é ser um tanto quanto displicente. Para ele, ser displicente era simplesmente não ligar para nada, e enquadrou o aluno que respondeu com tamanha ousadia no exemplo.
A senhora, dona do estabelecimento, trouxe à mesa um pratinho acompanhado de uma vela acesa, ao que ele agradeceu com um sorriso forçado. Na penumbra, observando a vela, ele pôs a mão sobre a chama e divagou sobre o estado da pele, rosada e macia, conforme exposta ao fogo. Naquele momento começou a chover e o celular apitou quanto a bateria novamente, ele o agarrou com a mão livre, abriu o app do banco e foi checar seu precioso saldo de 100. Acontece que ele havia esquecido que o cheque especial cobra suas dívidas a medida que o credor recebe em conta, e o que antes o deixava 100 reais menos pobre, deixou-o apenas 88 reais menos endividado, pois a senhorinha ainda o aguardava com um sorriso amistoso que ele não conseguia retribuir.
Começou a divagar novamente e chegou a apenas uma conclusão: para entender sobre o viver displicente, o vivente tem de ter outra opção. E foi com esse pensamento de perdão próprio que ele se expurgou de seus próprios pecados, elevou-se no breu e saiu em disparada pela chuva porta afora, deixando para trás a vela acesa, o café gelado e a conta para pagar.
Mileny é leitora de carteirinha desde que se conhece por gente e compartilha suas opiniões sobre suas leituras em suas redes sociais. Se graduou em Escrita Criativa pela PUCRS e hoje é aluna na pós-graduação de Comunicação Digital e Redes Sociais da UniRitter. Atualmente, atua como Assessora na Diretoria de Educação Continuada da PUCRS, cursa a Formação de Revisores da Editora Metamorfose e edita roteiros longos de RPG. Academicamente, pesquisa sobre os vilões-heróis e anti-heróis da literatura de fantasia contemporânea enquanto transita para a graduação de Letras-Inglês, com foco em Educação Corporativa. Seu portfólio de escrita é recheado com textos sobre horror, amor e os entremeios da condição de ser e estar vivo.