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Em Três Minutos

Em Três Minutos

por Taíssa da Silva Daniel

Em Três Minutos

Usar o liquidificador me traz dor de cabeça. Olha o meu pé já batendo. Para pé! Presta a atenção nessas frutas se misturando e se desfazendo dentro do cilindro. Quantas combinações de moléculas devem estar se quebrando e se criando nesse exato momento tão trivial e não faço ideia? Eu não lembro nada de química.

Lembro quando estudava na escola, era muito difícil para mim, absorver. Mas o menino que sentava na minha frente... Giovani era o nome dele? Ele tentava me explicar a matéria depois da aula. Eu estava caidinha por ele, não escutava nada. Só observava em suas sardas ao longo de ambas as bochechas. Isso deixava a sua aparência um tanto fofa, menos máscula.

Isso me lembra que sempre gostei de meninos que exalavam certa sensibilidade. O que as pessoas às vezes chamam de feminilidade, até. Não concordo. Eu penso que se todos nós fossemos mais delicados, o mundo se tornaria melhor. Deve ter sido esse o meu problema. Eu casei com um homem rude. Tão rude que nunca cuidou de nossos filhos. Fui me apaixonar pela pessoa errada. Ainda amo ele. Mas ele saiu de casa. Sim, estou na fossa.

Eu peço para a minha mente pensar em outra coisa, até nesse barulho insuportável do liquidificador, mas cá estou eu a pensar nele de novo. O que será que ele está fazendo, agora? Os anos que vivemos juntos se apagaram tão rápidos assim? Por que não fez questão nem mesmo de levar nada de casa? Isso só deve significar que já tem um outro caso. Melhor não imaginar, só me faz mal.

Ainda não consigo pensar como será daqui para frente. Por favor, Helena! Não se force. Eu não estou pronta para pensar nisso. Para! Por favor. Olha o liquidificador...

É uma graça como crianças tornam tudo mais leve. E o Zé e a Carol dançando na sala, ao ritmo daqui do liquidificador? Meu Deus! Como ser criança é bom! Mesmo sem verem mais o pai voltar para casa a cada noite, eles parecem bem. Mas será que estão bem mesmo? Acho que vou pagar uma psicóloga para eles. Mas e o dinheiro? Preciso me separar, recorrer a direitos e... Afe!! Não pensa.

Pensa só em segurar as arestas do que já está aqui na minha frente. Esse é o foco. Calma, Helena! Calma! Maldita aula de química. Hoje ainda não tinha lembrado do Roberto.

O suco está pronto! Desliga o liquidificador, Helena.

 

Taíssa da Silva Daniel

Carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança. 

Escreve principalmente fantasias, não fantásticas. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.