por Betth Soares
Na noite passada, tive um sonho desses bem vívidos, difíceis de esquecer. Eu estava num lugar diferente do que vivo hoje, numa espécie de aldeia, para a qual eu havia acabado de me mudar. Era meu primeiro dia naquela casa, e eu tirava minhas coisas de caixas, quando a paisagem roubou minha atenção. Da janela, eu podia ver um castelo belíssimo, com uma cúpula arredondada. Eu sabia que estava perto do mar e, de repente, conseguia sentir a maresia e ouvir o som das ondas, que começaram a parecer cada vez mais fortes. Enquanto eu admirava o castelo, que agora parecia estar ao alcance das minhas mãos, comecei a ver as ondas arrebentando em suas muralhas. Pensei estar presenciando uma ressaca, algo que me é tão familiar na Ponta da Praia, em Santos.
Em poucos segundos, o mar avançou. As ondas ficavam cada vez maiores, mais fortes, até que uma delas cobriu o castelo. Eu sentia que a próxima seria ainda maior. Vi quando ela, gigante, começou a se formar e cobrir o sol. Eu me afastei um pouco da janela e, embora fosse um cenário cataclísmico, não senti um medo paralisante.
A onda se aproximou lentamente até cobrir toda a casa. Uma das janelas estava aberta, mas o mar não entrou agressivamente, apenas respingou e molhou um pouco o chão, contrariando todas as leis da física. Fiquei por vários minutos naquela casa submersa, admirando o oceano por dentro, maravilhada. Ainda no sonho, liguei para uma grande amiga, a Aline, que — por algum motivo — estava morando no andar de cima e fazia um bolo que amo, de limão. Contei da minha experiência no andar de baixo e ela disse:
— Ah, amiga, isso acontece de vez em quando. Se ficar com medo, pode subir que a gente admira a vista daqui de cima.
Agradeci, mas eu preferia mesmo era ficar ali, em meio ao oceano. A sensação de submergir sempre me foi fascinante, porque é o mais próximo que posso estar da sensação de voar. Pensava nisso quando acordei.
Peguei o celular para ver as horas e haviam inúmeras mensagens. Eram avisos de postagens novas nas redes sociais dos amigos e, como eu estava com saudades, resolvi vê-las todas. Uma delas me levou a uma ilustração com traços bem infantis, em canetinha hidrocor azul, nos quais podia-se ver um rosto desenhado em meio ao oceano. Abaixo, escrito em letras garrafais com a mesma hidrocor que desenhou as ondas revoltas do mar, lia-se "EMOCEAN". Além da incrível coincidência, aquela imagem me transportou a alguns anos no passado.
— Menos emoções, Beth. Elas te fazem mal.
Foi o que eu ouvi da minha médica, após uma consulta de rotina que acabou revelando que o lúpus estava novamente ativo.
— Impossível, eu respondi. Não consigo me adaptar a uma vida sem emoções. Nenhum risco de morte é mais nocivo do que estar morta... em vida.
Ela riu com algum pesar e ainda insistiu:
— Ao menos tente.
Eu tentei e tudo começou a secar. Então, deixei o mar avançar de novo. Algumas vezes, ele abusa e devasta tudo que eu achei que construí. Noutras, ele entra devagar e molha de leve meus pés cansados.
Djavan fez do oceano um verbo: "Você deságua em mim e eu oceano." É neste oceano que nado e só nadando a vida me acerta. Em cheio. Bem cheio, mesmo. Esse é o verbo que me preenche. No fim, vou poder dizer que já estive revolta, de ressaca, repleta de altos e baixos e até passando por alguns períodos de calmaria. Mas nunca, nunca estive vazia.
Betth Soares é jornalista e mestre em Estudos Editoriais pela Universidade de Aveiro, Portugal. Fundou, em 2015, a editora Ateliê de Palavras, que conduziu por uma década, entre livros e histórias que ajudou a nascer. Foi cronista do jornal A Tribuna, de Santos (SP), entre 2018 e 2023. É autora dos livros Até o Fim (2015), O Lobo, o Urso e a Cura (2019) e Sol de Inverno (2022), além de integrar coletâneas como O mundo é mais bonito pelo olho da poesia (2016) e Tempo para o Amor (2020). Assina o blog Poesia Cotidiana e, atualmente, está à frente do Farol de Papel, onde acompanha o percurso de manuscritos em seu objetivo mais significativo: o de se tornarem livros.
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