×

Enquanto a casa dorme

Enquanto a casa dorme

Elisa Lempek

Enquanto a casa dorme

Enquanto a casa dorme, eu me desloco entre os cômodos. Atravesso a área de serviço, passo pela cozinha e, se a fome aparece no meio da madrugada, volto para fazer um lanche.

Depois, me acomodo no puff marrom que fica posicionado entre a sala de jantar e a sala de estar. Gosto de deitar ali porque consigo observar quase toda a casa, com exceção dos quartos e banheiros. Da janela, que está sempre com a cortina aberta, consigo observar a noite e, dependendo da posição que assumo, vejo as estrelas. Às vezes acompanho a madrugada inteira dali. Outras vezes me perco pelos corredores e só volto quando o dia começa a clarear.

Adoro acompanhar o adormecer das crianças. Entro devagar nos quartos, ofereço minha presença e permaneço por perto até as respirações desacelerarem. Em troca, recebo mãos carinhosas sobre mim e palavras doces ditas já entre o cansaço e o sonho. As crianças adoram quando escolho a cama delas para passar a noite e, quando despertam pela manhã, sorriem ao me ver.

Em certas madrugadas, fico distraído observando a água pingar do chuveiro quando alguém não fecha o registro direito. Mas isso não dura muito. Pouco tempo depois, alguém aparece para resolver o problema. Nesses momentos, recebo apenas um olhar neutro. Minha presença ali já não causa estranhamento.

Quando o tédio aparece, procuro movimento em outros lugares da casa. Insetos costumam surgir durante a madrugada, atraídos pelas janelas abertas ou pela umidade dos banheiros. Alguns atravessam o chão depressa demais. Outros não conseguem sair dali depois que eu os encontro.

A casa fica bastante silenciosa à noite, e eu procuro não fazer barulho porque todos precisam acordar cedo. Mas admito que sou um pouco desastrado. Às vezes acabo derrubando alguma coisa que atinge o piso frio, como um celular deixado na beirada da mesa, uma garrafa de água esquecida na estante da TV ou um controle remoto perdido entre as cobertas do sofá, onde eu costumo fazer minhas pausas.

Pela manhã, na hora em que todos precisam levantar, aí sim eu faço o maior barulho, corro pelos corredores e empurro portas. Eles reclamam, riem e dizem que eu sou o despertador da família. A verdade é que, depois de uma noite inteira vigiando a casa e acompanhando o sono de todos, eu amanheço faminto.

— Kit Kat, já é hora? — A humana pergunta, acariciando meus pelos. —Tudo bem, vou colocar sua ração, uma água fresca e limpar sua caixinha de areia. Mas hoje é domingo, me deixa voltar a dormir, ok?

Texto revisado por Marina Mainardi

Elisa Lempek

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.