por Rosane Rubinstein Pagliuca
O ano termina, e junto com ele a urgência de concluir a tese de conclusão de curso. Chego ao prédio, pego o elevador e subo com um objetivo claro: falar da minha tese com meu orientador. Nada além disso. Tema, estrutura, bibliografia, já tenho tudo organizado na cabeça, como se organização fosse sinônimo de controle.
Ele abre a porta do escritório com a mesma formalidade que me trata sempre. Nos cumprimentamos, ele aponta a cadeira, e vamos direto ao ponto. A conversa flui, desenvolvemos o tema eleito, e tomo nota do que preciso melhorar. Apesar do sentimento nascente um pouco além do esperado, chego a esquecer por uns instantes que há qualquer outra dimensão ali além da acadêmica.
Quando terminamos, ele se levanta e diz que me acompanha até à saída. É natural. Nos dirigimos até o elevador. Estamos no quinto andar. Eu entro, ele entra logo atrás. Somos apenas nós dois naquele recinto.
Silêncio.
Fica silêncio demais para ser casual. Um intervalo em que a mente começa a trabalhar sem autorização. Olho para o painel. Acompanho os números começando a descer. O espaço parece ter diminuído um pouco. E então vem aquela dúvida rápida: será que existe algo aqui que eu não estou vendo?
Antes que eu consiga organizar isso, acontece um movimento brusco. Ele se aproxima muito rápido de mim. Rápido demais para ser calculado, lento demais para ser um acidente. O rosto dele fica a centímetros do meu. Sinto o cheiro dele antes de entender o que está acontecendo. Congelo.
Não sei para onde olhar. Nem o que fazer com as mãos. Por um segundo parece óbvio que ele vai me beijar. Mas e se não for? O ar não entra inteiro. Nem sai. Engulo a seco. O tempo não passa. Ou passa devagar o suficiente para ninguém tomar decisão nenhuma.
Então ele recua. Como se nada tivesse acontecido. O elevador chega ao térreo, e a porta se abre.
— Obrigada pela ajuda — eu digo, com uma naturalidade que não me pertence naquele momento.
Saio. Sem saber ao certo o que aconteceu.
Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.