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Epifania

Epifania

por André B. Ferreira

Epifania

revisado por Rossana Lindote

Era tarde da noite. Ele estava deitado sem conseguir conciliar o sono. Não lhe saía da cabeça aquela ideia que o perseguira durante o dia inteiro. Não conseguia parar de pensar na nulidade de sua existência. Parecia-lhe claro agora, que nada do que fizera durante toda sua vida fora realmente importante. Sentia-se em dívida consigo mesmo. Sentia-se pequeno e medíocre. Não havia como negar, sua vida havia sido, até aquela noite, um total fiasco.

Não conseguira atingir nenhum de seus grandes objetivos, não conseguira, enfim, realizar-se em absoluto. Toda sua vida de esforços e estudos parecia insignificante e tediosa, sem o menor sentido. Suspirou. Teve vontade de chorar. Finalmente as lágrimas afloraram nos olhos, depois de um dia mergulhado na angústia de não ser mais que um fiasco humano.

Foi quando notou uma luminosidade surgir repentinamente próximo à porta do quarto. Mas não conseguia atinar o que era aquilo afinal. A luz não parecia vir de lugar algum. Olhava para o corredor na esperança de identificar a origem, mas ali só havia trevas.

Por um segundo, ficou atônito, paralisado. Mas então percebeu que a luz vinha de trás do televisor, da parede. Achou aquilo estranho. Súbito, veio-lhe à memória um pensamento inusitado. Seria aquela luz uma aparição? Ele sentiu uma emoção profunda, misto de excitação e medo. Então pensou que talvez aquilo tivesse a ver com tudo o que estivera pensando durante o dia inteiro. Talvez Deus estivesse lhe dando uma oportunidade... Uma oportunidade de viver algo totalmente diferente da sua medíocre e rotineira existência. Deus... Lembrou-se de que havia anos não rezava uma frase sequer. Pensou então nas aulas de catequese, na catequista falando dos profetas que tinham visões. Lembrou também daquela reportagem que vira no mês anterior, sobre uma menina que conversava com a Virgem Maria. Parecia que finalmente algo significativo estava por acontecer em sua miserável existência. Aquele seria o seu momento, sua epifania.

Entretanto, a luz desapareceu. Ele ficou surpreso. Em segundos, a surpresa deu lugar à frustração. Então aquilo fora tudo? Essa havia sido a sua chance? Pensou que talvez não fosse digno de tamanha graça. Nunca fizera nada para merecer algo como aquilo. A culpa e a vergonha não tinham limites. Uma angústia quase instantânea brotou em seu interior e começou a chorar. Tentava afogar os soluços para não acordar a esposa. Foi então que um som eletrônico se ouviu atrás da televisão. Intrigado, ele se levantou devagar, enxugando as lágrimas, ainda soluçando baixinho. Ligou a luz do abajur e se dirigiu para a origem do ruído. Naquele momento, teve sua epifania. Sobre a cômoda, logo atrás da televisão, o aparelho celular tinha acabado de recarregar completamente a bateria.

André B. Ferreira

André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.

Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.

Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.