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Escolas querem mais que o livro, elas querem propostas: como divulgar seu livro em escolas

Escolas querem mais que o livro, elas querem propostas: como divulgar seu livro em escolas

por Jordana Lima de Moura Thadei

Escolas querem mais que o livro, elas querem propostas: como divulgar seu livro em escolas

Que autor(a) nunca desejou ver seu livro lido e discutido nas escolas? As instituições  escolares, no entanto, consideram vários aspectos na escolha de uma obra literária: temática de interesse dos estudantes, ponto de vista do autor, adequação da linguagem ao público e ao contexto escolar, qualidade do texto e possibilidades de abordagem pedagógica conforme documentos oficiais são alguns deles.

Mas atenção, autor(a). Isso não significa escrever visando a contemplar esses documentos. Diversos pesquisadores da literatura infantil e infanto-juvenil afirmam que a literatura para as infâncias e para as juventudes deve privilegiar aspectos literários. E a escola pode e deve abordar as obras tanto sobre o viés literário (de acordo com o que pode ser explorado literariamente em cada gênero discursivo), quanto sobre o viés temático, se for o caso. Na escola, as obras literárias podem ser vinculadas às demais obras – didáticas, paradidáticas  e obras de referência (atlas, dicionários etc.) que já têm lugar garantido nas salas de aula. Portanto, não se trata de escrever para ser adotado pela escola, mas de avaliar o potencial da obra para a formação dos sujeitos estudantes e, então, ofertá-la às escolas.

Na educação pública, há décadas, as políticas para o fortalecimento da leitura literária fazem parte do currículo oficial. Como professora do Ensino Fundamental I (do 1º ao 5º ano) e da EJA (Educação de Jovens e Adultos), presenciei, desde o início do século, programas muito relevantes de incentivo à leitura. Um deles foi escolha e recebimento de livros literários pelo professor. Sim! A formação literária de um estudante começa pela imersão em ambientes letrados literariamente. Quantos de nós não fomos iniciados como leitores por um professor que soube nos apresentar um livro, ainda que um clássico com linguagem de outra época e retratando uma sociedade muito diferente daquela em que estávamos inseridos? O contrário também vale relembrar: há quem tenha desenvolvido uma barreira contra a leitura literária por ter "enfrentado sozinho" um clássico, sem alguma orientação ou mediação leitora.

Nos anos 2000, o programa Literatura em minha casa, em que os estudantes recebiam e levavam para casa conjuntos de obras em diferentes gêneros (novela, poema, texto dramático, contos, crônicas), tinha o objetivo de viabilizar o acesso aos livros pelos familiares, também. Bonito, não é? Mas vi duas realidades distintas: de um lado, a incorporação dos livros à rotina de sala de aula e a mediação da leitura, despertando o interesse dos estudantes pela literatura. De outro, livros meramente distribuídos e, em seguida, descartados no entorno escolar. Pior ainda, livros trancados em armários escolares, amarelando sem uso, por medo de não chegarem às famílias.


O que aprendi com isso?

As experiências me mostraram  que a simples distribuição dos livros não forma um leitor (pelo menos para boa parte dos estudantes). Evidenciaram, também, o despreparo do professor daquela época para abordar a literatura para além do que os livros didáticos já faziam. E nós sabemos que os didáticos, por razões muito próprias, trabalham com fragmentos ou com poucos exemplares de cada gênero. Muitas vezes, a abordagem literária em livros didáticos é apenas a porta de entrada. Cabe à escola ampliar o contato, a leitura e a compreensão. E é nesse ponto que eu falo com você autor e autora. É preciso entregar algo mais além do livro. Algo que faça a mediação entre a obra e o estudante. Mas o que oferecer nesse sentido?


Mais que o livro literário

Não é esperado do(a) autor(a) que desenvolva um "Guia para o professor". Poucos autores têm experiência pedagógica ou dominam habilidades para isso. Mas há possibilidades que podem ser apresentadas juntamente com o livro. A obra e a experiência de quem a produziu determinam o que pode ser oferecido.

1. Encontro com o autor

Embora o acesso aos livros, hoje em dia, seja fácil, possibilitado pelas bibliotecas escolares, salas de leitura, bibliotecas de classe e MEC Livros (biblioteca pública virtual brasileira), escritoras e escritores ainda são idealizados em um patamar elevado e distante dos leitores. A possibilidade de um encontro com o autor, uma conversa sobre o livro, sobre o contexto em que ele foi produzido ou mesmo sobre os desafios e os prazeres da produção literária podem aproximar estudante e obra.

2. Saraus

A leitura oral, coletiva e preparada previamente mobiliza um conjunto de habilidades leitoras fundamentais ao ensino da língua e previstas em documentos oficiais. A sugestão de uma forma de organização de sarau, a indicação do diálogo com outras obras que podem compor o sarau são formas de dinamizar a leitura e de aproximar leitor e obra.

3. Rodas de conversa

As rodas de conversa sobre um livro lido propiciam o contato com outras leituras, outros olhares sobre enredo, personagem, narradores etc. Conhecer esses olhares amplia a percepção do leitor para outros mundos, outras possibilidades. A apresentação de itens que podem integrar uma discussão sobre o livro, muitas vezes, funciona como alicerce para o professor, em sala de aula.

4. Teatro

Algumas obras são propícias à adaptação para o texto dramático que, por si só, já é um trabalho pedagógico desafiador. Leituras dramatizadas ou expressivas envolvem habilidades previstas no currículo nacional. Se bem orientadas, com indicações de trechos de exploração das habilidades envolvidas na modalidade de leitura, constituem importante apoio ao professor.

Além disso, a adaptação ao texto dramático e a encenação propriamente viabilizam a interdisciplinaridade com o componente curricular Arte, e o aprofundamento nos estudos sobre narrador, personagem, cenário, cena etc.

5. Sequência didática (SD)

Ideal para o estudo de um gênero discursivo específico, embora possa ser desenvolvida para diferentes fins e em diferentes componentes curriculares. Como o nome indica, trata-se de uma sequência de atividades que ampliam gradativamente o nível de dificuldade e de adentramento ao gênero em estudo, partido do seu reconhecimento e atingindo a sua produção.

6. Projetos pedagógicos

Em uma proposta um pouco mais elaborada, projetos didáticos e interdisciplinares que podem partir da obra literária, abordando um tema ou aspectos culturais da comunidade local, vivências estudantis narradas na obra etc. Por serem muito específicos de cada grupo de estudantes ou de cada contexto, os projetos podem ser sugeridos e as possibilidades de caminhos apontadas. Os rumos que ele vai tomar serão definidos no seu caminhar, conforme a Pedagogia de Projetos, e pode envolver todas as sugestões anteriores.


Para concluir

Os itens sugeridos  nesse texto são algumas das inúmeras possibilidades de mediação ou de complementação da leitura. Cada obra e cada contexto em que ela circula pode suscitar diferentes abordagens de uma mesma obra. Busque aquela que faz mais sentido para o que você apresenta.

Jordana Lima de Moura Thadei
Jordana Lima de Moura Thadei
São Paulo/SP

Jordana Lima de Moura Thadei

www.jordanathadei.com.br

Jordana Thadei é escritora e professora. A crônica é sua paixão, mas o conto e miniconto também a seduzem. Com publicações em coletâneas e jornais, "A casa das águas e outras crônicas" é sua estreia na publicação individual do gênero. Mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP), é, também, autora de Livros Didáticos de Língua Portuguesa para diversos segmentos da Educação Básica e EJA.