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Escolha dos nomes dos personagens

Escolha dos nomes dos personagens

por Bruna Tessuto

Escolha dos nomes dos personagens

No clássico Feliz ano novo, de Rubem Fonseca (foto), a linguagem composta por dezenas de palavrões e por dezenas de expressões escatológicas faz com que o universo da história se torne mais perceptível, que fale junto com as cenas. A linguagem usada pelos personagens faz parte da construção deles. Em Ânsia, de Sarah Kane, temos um texto de desabafo amoroso escrito sem pontuação. Essa escolha também fala junto com o texto: faz com que o leitor sinta as palavras se atropelando, quase como se o narrador estivesse vomitando seus sentimentos em quem lê.

Dentro disso, podemos perceber como escolhas que muitas vezes nem lembramos de fazer podem falar junto com a história. Outro aspecto interessante nesse sentido é a escolha dos nomes dos personagens. Você é do time que escolhe qualquer nome, escolhe o primeiro que vem na cabeça?

Em Iracema, de José de Alencar, por exemplo, os nomes não são aleatórios. Na obra, Iracema é uma indígena que se relaciona com um colonizador europeu. Posto isso, podemos refletir sobre a escolha dos nomes. Iracema era virgem antes de se relacionar com o colonizador. E isso é simbólico quando pensamos na história do Brasil. Podemos pensar a virgindade dela como o Brasil antes dos portugueses, como o Brasil intocado. Quando eles chegaram, a terra perdeu a virgindade, assim como Iracema. E o nome dela é um anagrama de América. Ou seja, podemos escrever as duas palavras com as mesmas letras, como se fossem o mesmo ser. E pensar na relação disso: América virgem e Iracema virgem até a chegada dos portugueses. Da relação entre Iracema e o colonizador, nasceu Moacir, e Iracema morreu depois de seu leite secar. O leite é sinônimo de vida e secou depois do envolvimento com o colonizador. Ou seja, morreu depois desta relação. E Moacir, nome do filho, significa "filho do sofrimento".

Podemos ver, a partir do exemplo, a quantidade de subtexto que um nome pode trazer para o personagem e para a obra em geral. É um componente da construção. O livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, é outro exemplo onde podemos ver esse recurso sendo utilizado. Na obra de Jorge Amado também.                      


DICAS PARA A ESCOLHA DOS NOMES DOS PERSONAGENS

  • É interessante pensar em como o nome se relaciona com o texto. Podendo, inclusive, o nome significar ou sugerir uma coisa e o personagem ser, ironicamente, o oposto;
  • O personagem não ter nome também é um recurso: ele pode ser qualquer um de nós;
  • Importante pensar no contexto e na época para decidir. Ou usar isso de maneira não óbvia: uma personagem nascida em 1960 ter um nome que é mais usado atualmente justamente porque se trata de uma personagem moderna para a época em que vive;
  • Escrever algum nome próprio em letra minúscula ou algum substantivo comum em maiúscula pode sugerir ao leitor questões de importância ou desimportância na visão do narrador;
  • Apelidos podem ser usados para gerar mais proximidade do personagem com o leitor;
  • Quando um personagem figurante, de apoio, aparece no texto, é importante se questionar: ele realmente precisa ter nome ou podemos simplesmente nos referir a ele como "o professor" ou "a moça da padaria", por exemplo? Isso evita o uso excessivo de nomes, que por vezes confunde e faz com que o leitor se perca no quem, não gerando vínculo. Por outro lado, a proposta pode ser justamente nominar os secundários por querer passar a ideia de identidade;
  • Importante evitar personagens cujos nomes comecem com a mesma letra, sílaba, ou que sejam semelhantes na escrita. Isso pode confundir na hora da leitura.

Bruna Tessuto

Bruna Tessuto formou-se em Teatro pela UFRGS e é graduanda em Letras pela mesma universidade. Atua como editora e promove mentorias em parceria com a Metamorfose, onde também coordena grupos de leitura e escrita e atua como professora no Curso de Formação de Escritores, do qual é egresssa. Lançou os livros "Os bastidores de Emma" (2018), "Pela voz delas" (2022) e "Até que o divórcio vos reúna" (2024), todos com ficcionalização de histórias reais. É vencedora do Prêmio Minuano de Literatura 2025 - categoria Juvenil. Desde 2020 interpreta a fantasma Dulce Miranda nas Visitas Guiadas do Theatro São Pedro.