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Escrevendo metaficção historiográfica: romance que mescla história e ficção

Escrevendo metaficção historiográfica: romance que mescla história e ficção

por Vilma Toloto

Escrevendo metaficção historiográfica: romance que mescla história e ficção

O gênero literário romance histórico, que entrelaça fatos históricos e ficção, apresenta o subgênero ou modalidade narrativa denominada metaficção historiográfica, cuja proposta é superar a simples junção de história e ficção, incorporando uma reflexão crítica do passado.

O romance histórico revisita o passado mesclando personagens fictícios e eventos reais para criar uma trama. A fidelidade absoluta não é o objetivo, o essencial é construir uma narrativa verossímil que dialogue com o presente. Como observa Marcia Redua, graduada em História, a contribuição do romance histórico é "aproximar o leitor de diferentes épocas da história, trazendo aspectos do cotidiano e que talvez não fossem conhecidos por meio da leitura de livros escritos por historiadores. Porém, o autor desse gênero literário deve manter-se atualizado em relação às pesquisas históricas que avançam em função de novas fontes e novas abordagens".

O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, é um exemplo de romance histórico e que por meio de uma extensa trilogia narra a história da formação do Rio Grande do Sul, durante a saga das famílias fictícias Terra Cambará e Amaral. A obra mistura fatos históricos e ficção, abordando desde o período colonial até o início do século XX. O romance explora conflitos regionais, guerras, disputas de poder, amor e amizade, mostrando como os acontecimentos históricos moldam a vida dos personagens e das comunidades.

O romance histórico envolve responsabilidade ética na representação de pessoas, corpos, vozes e identidades, exigindo do autor cuidado ao reconstruir o passado. Escrever nesse gênero implica, quase sempre, um gesto político: além de narrar acontecimentos, a obra convida à reflexão sobre injustiças históricas e promove empatia, estimulando o leitor a questionar narrativas consolidadas e a reconsiderar valores sociais e culturais. Como nos lembra Suzete Ribeiro, licenciada em Letras, parafraseando Ana Miranda (foto acima), escritora cearense, contemporânea "o romance histórico nasceu para reforçar identidades". E complementa, "porém, tudo depende do enfoque que se quer dar ao romance. Se há uma intenção política, a escrita deve direcionar-se a isso para que o leitor perceba o que há nas entrelinhas."

A metaficção historiográfica, por sua vez, é uma modalidade de narrativa sobre eventos históricos ao mesmo tempo em que reflete criticamente a forma como essas histórias são contadas. Esse tipo de narrativa não trata apenas do passado, mas questiona como interpretamos e representamos os acontecimentos, revelando os silêncios e as lacunas da versão oficial.

Para escrever nessa modalidade de narrativa é importante considerar que ela não trata apenas do passado em si, mas de como interpretamos e contamos esse passado. Esse tipo de narrativa mostra que tanto a história quanto a ficção são construções de linguagem, não refletindo a realidade de forma neutra, mas criando sentidos e verdades possíveis. Por isso, ao escrever, questione as versões oficiais da história, explore vozes esquecidas e revele como a própria narrativa molda o que entendemos como verdade.

Boca do Inferno, de Ana Miranda (foto), é um romance histórico ambientado no Brasil do século XVII. A obra mistura eventos reais e personagens históricos com personagens e tramas fictícias, criando uma narrativa que reconstitui o período colonial, mas também explora desejos e conflitos subjetivos das personagens. A obra apresenta traços de metaficção historiográfica, pois a autora reflete sobre como a história é contada, mostrando que toda narrativa histórica é uma construção literária, e não apenas um registro neutro dos fatos. Há também, no livro de Miranda, elementos do romance biográfico, pois a autora preenche lacunas da vida de figuras históricas com ficção, aproximando o leitor da experiência pessoal desses personagens. O livro combina história, biografia e reflexão sobre narrativa, oferecendo um olhar crítico e literário sobre o passado colonial brasileiro.

Um Defeito de Cor inscreve-se na modalidade da metaficção historiográfica, ao questionar os silêncios da história oficial. Narrado em primeira pessoa pela personagem Kehinde, o romance se apresenta marcado por lacunas, incertezas e fragmentos, elementos que evidenciam a dimensão narrativa tanto da história quanto da ficção. Ao reconstruir a vida de personagens negros escravizados e imaginar suas experiências, a obra confere voz a sujeitos historicamente silenciados, revelando a força ética e política da narrativa literária. Trata-se, assim, de um exemplo expressivo de como a ficção pode revisitar criticamente o passado e propor um engajamento com a memória coletiva.

Um Defeito de Cor nos oferece lições essenciais: questionar e reescrever o passado a partir de outras perspectivas, mostrando que a história não é neutra; recuperar vozes silenciadas e dar espaço a personagens esquecidos pelos registros históricos; revelar o poder da linguagem e mostrar como a forma de contar afeta o que entendemos como verdade. Essa abordagem desloca a autoridade da narrativa oficial, por muito tempo escrita pelas elites, para uma voz historicamente silenciada. Ao mesclar personagens e eventos reais, como Luiz Gama, com situações ficcionais, o romance explicita a intersecção entre fato e invenção, revelando que toda história é construção. Mais do que narrar a escravidão, o livro não só traz uma reflexão de como narramos o passado, como também denuncia o apagamento de determinadas perspectivas. Nesse sentido, Um Defeito de Cor não apenas revisita a história, mas a reinscreve, conferindo centralidade e agência a quem dela foi excluído.

 

Dicas práticas para se escrever um romance histórico utilizando a modalidade metaficção historiográfica:

- Ter em mente a recomendação de Suzete Ribeiro: "não basta dizer o mundo: é preciso recriá-lo nas palavras. O escritor reorganiza conteúdos pela linguagem, atento ao léxico, à sintaxe e à estilística, pois é na precisão da palavra, na fluidez da frase e na força das imagens (metáforas, metonímias, desautomatizações) que a escrita se torna crítica e rompe preconceitos e verdades absolutas".

- Pesquisar além da versão oficial dos acontecimentos, em diários, cartas, registros orais e memórias coletivas que revelem dimensões humanas que os documentos oficiais muitas vezes ocultam.

- Construir personagens complexos, evitando os estereótipos.

- Como personagens podem reproduzir preconceitos da época, o narrador com consciência não precisa endossá-los e sim estabelecer um distanciamento crítico.

- Escutar vozes contemporâneas, antes da publicação e submeter o texto à leitura de pessoas pertencentes às comunidades representadas, a fim de identificar vieses inconscientes.

- Como sugere Marcia Redua, "o autor deve ser alguém que transita em diferentes espaços, que se relaciona com diferentes grupos sociais e que compreende o mundo de uma maneira ampla".

Em suma, o uso da modalidade metaficção historiográfica no romance histórico é muito mais que entretenimento, pois constitui um ato de justiça narrativa e sua importância reside em dar voz aos silenciados, ao narrar a partir da perspectiva deles. Essa modalidade humaniza o passado, transforma datas e eventos em experiências humanas, dor e resistência e torna a história mais profunda. Além disso, ilumina o presente, mostrando como os conflitos e dilemas de outrora ecoam hoje e também ajuda a entender as raízes de questões crônicas como, por exemplo, o racismo e a desigualdade. Dessa forma, obras que se utilizam da modalidade metaficção historiográfica são vitais para gerar empatia e questionamento, e não apenas nos ensinam sobre quem fomos, mas nos obrigam a refletir sobre quem somos.

Vilma Toloto

Vilma Toloto, nascida na zona rural de Ourinhos-SP, Pedagoga com pós graduação em Psicopedagogia (PUC-SP) e Recursos Humanos (PUC - Chile), desde cedo encontrou nas palavras o seu refúgio. Na escola participava de peças de teatro e tinha como lugar preferido a biblioteca, onde passava horas mergulhada nos livros. Na adolescência, começou a escrever poesias e contos de forma amadora, movida pela paixão por histórias. Hoje, segue estudando para aprimorar a sua escrita e realizar o sonho que a acompanha desde sempre: publicar seus próprios livros.

Está vivenciando sua primeira experiência de publicação, o conto "Cartas que o tempo não apagou" que é  parte da Coletânea "Toda forma de amor" pela editora Metamorfose. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.