×

Escrita Afetuosa: por onde iniciar essa jornada?

Escrita Afetuosa: por onde iniciar essa jornada?

por Tainá Rios

A metodologia Escrita Afetuosa foi criada e desenvolvida pela jornalista e escritora Ana Holanda. Segundo a criadora, trata-se de um guia sobre como transformar palavras em pontes que aproximam os textos dos sentimentos, deixando de lado a teoria que os definem como mecânicos, distantes ou excessivamente técnicos,

O artigo de hoje explora as páginas do livro "Como se encontrar na escrita: o caminho para despertar a Escrita Afetuosa em você" e convida a todos a resgatar a essência e a humanidade nas próprias frases.


O que é Escrita Afetuosa?

A palavra nasceu com a função primordial de nos conectar, aproximar e fortalecer. De acordo com a autora, a escrita ? seja ela um projeto, uma ideia ou um texto ? é sempre uma conversa que exige quem fala e quem escuta.

Diferente do que muitos pensam, a escrita criativa não possui um manual de passos pré-estabelecidos. Ela inicia o seu percurso dentro de nós: nos nossos desejos, medos e, principalmente, no nosso cotidiano. Quando a escrita está "carregada de alma", ela percorre as nossas "caixas interiores" antes de ganhar o mundo, sendo capaz de tocar e afetar as caixinhas fechadas de quem nos lê.

Muitas pessoas acreditam que escrever com sensibilidade é um dom de poucos ou um talento nato. No entanto, Ana Holanda defende que todos nascemos iguais e temos a capacidade de perceber o mundo com delicadeza. A Escrita Afetuosa não é sobre "dramatizar para fazer chorar", mas sobre ser tão delicada que naturalmente emociona e cria laços de confiança profundos.

Ela é a escrita que abraça e acolhe, utilizando palavras compreensíveis para todos, em vez de termos inatingíveis. O objetivo não é conquistar milhares de seguidores ou "fãs de carteirinha", mas sim promover um encontro real entre quem escreve e quem lê.


Fuja das Palavras Vazias

Um dos grandes ensinamentos de Ana Holanda é o cuidado com expressões que, de tanto serem repetidas, acabam por se esvaziar de sentido real. No livro, os exemplos citados são: sustentabilidade, empoderamento, disruptivo e economia criativa. A autora sugere que um texto verdadeiramente profundo pode falar sobre a força das mulheres sem sequer citar o termo "empoderamento feminino".

A força deve estar na narrativa, na história vivida, e não apenas no rótulo da palavra.


A Técnica do Texto em Camadas

Como saber se um texto tem alma? Ana apresenta o conceito de Texto em Camadas. Esta técnica consiste em apresentar o tema central e convidar o leitor a descobrir a história gradualmente, envolvendo-o a cada novo relato ou informação.

Para identificar se o seu texto atingiu esse estado, há uma pergunta simples: "O assunto está sentado na sala da sua casa?". Se a resposta for sim, significa que você alcançou a proximidade e a verdade necessárias.

Um texto em camadas não apenas informa, ele "sente, respira e emociona".

Escrever em primeira pessoa não é tão simples quanto parece. É um exercício excelente para dosar reflexões, mas Ana Holanda alerta para não começar os textos com a lição de moral ou com o aprendizado pronto, principalmente quando se trata de uma crônica. Conte a história da maneira mais clara e simples que conseguir e evite colocar-se como alguém que viveu algo "incrível", escolha os relatos sinceros, aqueles que possuem uma profundidade capaz de afetar o outro intensamente porque a escrita demanda presença.

E sim, é preciso refletir antes de escrever. A velha dica de pesquisar o tema e conversar com as pessoas para não ser repetitivo é sempre válida. Além disso, é fundamental ser humilde com o seu próprio texto: perceba o que ele está a dizer a você e esteja disposto a mudar o rumo se a história assim o pedir.


Como exercitar a Escrita Afetuosa?

Para tirar a teoria do papel, você pode realizar alguns exercícios que aguçam a percepção e a sensibilidade. Abaixo, vou listar alguns deles:

A Louça Acumulada: Registre uma imagem do seu dia a dia, como uma pia cheia de louça. Escreva sobre o que essa imagem revela além do óbvio. Lembre-se: a louça nunca é apenas sobre a louça; pode ser sobre cansaço, sobre relações ou sobre como lidamos com os nossos problemas.

Converse com Desconhecidos: Troque uma ideia verdadeira com alguém na fila do supermercado ou no ponto de autocarro. Depois, tente escrever o perfil dessa pessoa baseado nesse encontro. Isso treina a escuta atenta e a empatia.

Explique sem Nomear: Escolha um termo importante do seu universo e tente explicá-lo em camadas, sem usar a palavra em si e sem se esconder atrás de termos "difíceis".

Caminhe sozinho: Passeie pelo seu bairro sentindo os cheiros (da chuva, da padaria, das flores). O objetivo é aguçar os sentidos para que a sua escrita se torne mais viva.

Releia-se com gentileza: Volte aos seus primeiros textos. Perceba repetições ou ausências de histórias, mas faça-o sem julgamento ou arrogância.


O Despertar pela Escrita

Para Ana Holanda, olhar com mais sensibilidade e percepção é uma escolha que exige vontade de sair de um "sono profundo" para finalmente viver. A Escrita Afetuosa permite que o texto deixe de existir apenas em você para morar no outro. Ao longo desse trajeto, percebemos que existe amor no simples ato de escrever e que ele nos ajuda a encontrar o que há de mais essencial dentro de nós.

Como diz Ana Holanda: "uma vez que você descobre esse novo formato, o antigo já não lhe cabe mais. É um reencontro consigo mesmo e com a própria vida".

O seu desafio agora é simples: não espere por um ano sabático ou por uma viagem incrível para começar. As histórias estão a saltar à sua frente todos os dias. Escreva. Simplesmente escreva. Com calma.
 

Tainá Rios

Tainá Rios é jornalista, formanda do curso de Formação de Escritores da Metamorfose e produtora de conteúdo digital. Atiua como podcaster do Me Conta Sua História?, onde compartilha histórias de personagens reais. Escreve crônicas sobre o cotidiano e memórias. Suas e daqueles que acompanham sua trajetória.