por Alexis Rodrigues de Almeida
Eu estava atrasada, mas a placa na frente do brechó falou mais alto: "Oportunidades únicas, ofertas imperdíveis". Olhei o relógio, só tinha quinze minutos. Sem demora, peguei o celular e mandei uma mensagem para o chefe, informando que chegaria meia hora mais tarde. Ele já estava acostumado mesmo. Um dia a mais não ia fazer diferença.
Atravessei a rua correndo e entrei na lojinha. Ainda nem tinha recebido o salário do mês e já estava ali novamente.
Não precisou muito tempo para eu vê-lo. Estava lá, largado num canto. Provavelmente outras pessoas já o tinham visto, mas não se interessaram por ele. Era um casaco de couro marrom. Um pouco grande pra mim, mas me servia
Sua delicadeza ao toque me despertou lembranças que nem sabia de onde vinham. Estava meio puído principalmente nos cotovelos, mas era inquestionável seu valor. Eu tinha bom olho para esse tipo de coisa. O estilo e a costura lembravam a moda de Paris do início do século passado. E era uma verdadeira pechincha, por apenas R$ 29,90. Não pensei muito, até mesmo porque não tinha tempo para isso.
Enquanto corria em direção ao trabalho, tirei meu casaquinho de crochê e vesti o de couro. Não me importava se estava largado lá na loja. Apesar de bastante usado, ele estava limpo.
Ao examinar com atenção o interior de um bolso interno meio escondido, senti alguma coisa parecida com um papel. Sim, era uma carta dobrada. Ao ler o que estava escrito na parte de fora, senti todos os pêlos do meu corpo se eriçarem:
"Para minha querida Inês".
Era meu nome escrito ali! Abri a carta e li:
"Saiba que meu amor por você não tem tempo e nem fronteira. Você estará comigo a todo momento, mesmo não estando ao meu lado. Nossa separação não é para sempre.
Não importa quanto tempo dure, se um ou cem anos, sei que um dia vamos nos reencontrar.
Com amor eterno,
Emanuel de Coimbra
Cidade do Porto
01 de novembro de 1916"
De repente, comecei a me sentir como se estivesse desaparecendo. Era como se todas as células do meu corpo estivessem se desprendendo umas das outras.
Aos poucos, a paisagem caótica do centro da cidade foi dando lugar a outra mais calma. Havia um navio a vapor ancorado. As construções em volta lembravam um porto das primeiras décadas do século XX. Um apito grave e longo anunciava a iminente partida do navio. Uma brisa gélida soprava no meu corpo me fazendo tremer.
O homem à minha frente tinha os olhos marejados e os lábios ligeiramente comprimidos. Aproximou-se e me cobriu com um casaco de couro marrom. Depois me abraçou como se não fosse mais me soltar. Com uma voz pesada de amargura, ele sussurrou: "Inês, eu juro que um dia eu vou te encontrar".
Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.