por Carlos Griesang
A cinco minutos do final (0 X 0, valendo a decisão do campeonato), um pênalti – e a TV resolve pifar. Não, a traição é maior: acabou a luz em todo o bairro, dá para ver pelas frestas das venezianas e pelos gritos desconsolados na vizinhança. O rádio, o radinho de pilhas! Sem pilhas...
E agora? Pense, pense, pense! Acende o enésimo cigarro, coça a barba. Pensando bem, com bastante atenção dá para ouvir o ruído vindo do estádio, há poucas quadras dali. Se for gol, é só escutar a vibração da... chuva. Começa a chover torrencialmente, parece castigo.
Rápido! Tem de ser rápido! Lá fora deve haver alguém escutando rádio, algum carro, algum canto onde a luz ou as pilhas não tenham faltado. Calça rapidamente os sapatos, veste o primeiro casaco que encontra, pega o guarda-chuvas e sai. Catorze lances de escada, pernas fracas, vertigem, o peito em fogo, o horror. O horror!
Não sabe como, mas consegue chegar na rua. Corre, desajeitado. As calçadas estão encharcadas, os clarões são ininterruptos, os estrondos, atormentadores. O guarda-chuvas é levado pelo vento, e os respingos, horizontais, castigam sua nuca. Nisso percebe um estranho, bem ao seu lado, um vulto, enquanto se esgueira junto às paredes envidraçadas de uma torre comercial. O sujeito é baixo, atarracado, barrigudo; a barba há semas por fazer; os dentes são escuros, as mãos amareladas de nicotina, e olheiras irreversíveis fazem jus à testa vincada e aos cabelos pastosos. O horror!
Ainda incomodado com a visão do esquisito, ele se dá por vencido. O temporal apertara ainda mais, precisa voltar para casa, infrutífera sua viagem. Enquanto caminha, desolado, faz um inventário mental daquela noite. Foram-se o guarda-chuvas, os sapatos, a pouca autoestima – e as chaves do apartamento, só então percebe. Quem sabe algum vizinho possa abrir a porta do prédio, livrando-o ao menos da continuidade da molhaceira? Não, não tem a quem recorrer. Não conhece ninguém, há muito não sai de casa. Exceto a faxineira quinzenal, o entregador de pizzas, o boy da tabacaria e o da loja de bebidas, não vê ninguém desde aquele clássico Grenal, o da goleada, quando um vizinho embriagado errara de porta e invadira seu espaço. Isso no final do campeonato estadual de mil e novecentos e...
De súbito, um grande alarido. Não fosse pela chuva, ainda forte, poderia precisar de onde vinha aquele berreiro. Do estádio, só pode vir do estádio, só pode ser aquele pênalti do seu time convertido em glória, o êxtase na final! Tenta localizar-se geograficamente: de que lado vêm os gritos, de que lado fica o estádio? Nenhuma conclusão. Ainda: o que são aquelas camisetas inimigas vermelhas, comemorando ali perto, que só então ele percebera? Ou, muito pior, como ousam demonstrar tamanha felicidade? Será porque seu time, o "Imortal", perdera o pênalti e a final do campeonato? Sumo desaforo!
Envolto em pensamentos, é surpreendido por uma pisada em falso (maldito paralelepípedo!) e uma queda indigna, com o rosto direto numa poça d'água; esta, embora turva, é suficiente para confirmar as incômodas suspeitas de momentos antes, sem a necessidade de um novo clarão. Aquele estranho vulto, o esquisito, é não mais que seu reflexo, e pouco importa se com vinte e nove anos, apenas. Náuseas vem a tona, vertigem, fraquejar... Naquele momento de fragilidade, só o ódio suplanta o horror, ao perceber que todos os vermelhinhos ali perto riem e gargalham ao testemunhar a patética cena, com o patético ser.
Foi nessa vibe que deu a primeira voadora em um grupo de jovens marombados, na frente de um bar. Eles estam em pé, de costas para o ofensor, enquanto assistem ao show de uma banda cover. Ninguém usa vermelho – suas camisetas são pretas, estampadas –, mas, ao iniciarem o revide suas mãos são logo salpicadas de sangue. Um massacre.
Numa pequena tela, ao fundo do bar, a programação já mudara para um filme qualquer.

Sou Carlos Augusto Griesang, graduado em Comunicação Social (jornalismo) pela PUCRS, turma de 1994. Natural de uma pequena cidade no interior do estado, moro em Porto Alegre há três décadas, cidade que chamo de lar, por adoção. Sou apreciador de futebol, apaixonado pelo Grêmio FBPA; de boa música, com ênfase em bandas de rock clássicas dos anos 1970, como Black Sabbbath e Pink Floyd; de história em geral, sobretudo da Roma antiga; de literatura distópica, com exemplos em "Silo", de Hugh Hoewy, e no clássico "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury.
No campo da escrita criativa, gosto de elaborar contos e minicontos, com inegáveis pitadas de autoficção. Tento passar para o papel meus twisters mentais, com bom humor e ironia, sempre que possível.
Orgulho-me de ter participado de uma das primeiras turmas da oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil, com contos publicados na coletânea "Contos de Oficina 2" (Livraria Editora Acadêmica, 1989). Participei de outros oficinas, na sequência, talvez nem tão dignas de nota, mas que ajudaram a formar a ideia de como escrever um bom texto.